Amamentar pode trazer benefícios à saúde da mulher que vão muito além do período de alimentação do bebê. Pesquisas científicas apontam que mulheres que amamentaram apresentam, ao longo da vida, menor risco de desenvolver doenças cardiovasculares, além de menores taxas de alguns fatores associados a esses problemas, como hipertensão, diabetes e alterações no colesterol.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of the American Heart Association reuniu dados de oito estudos prospectivos com quase 1,2 milhão de mulheres que tiveram filhos. Na comparação entre mulheres que haviam amamentado e aquelas que nunca haviam amamentado, o grupo que amamentou apresentou risco aproximadamente 11% menor de doença cardiovascular. Também foram observadas associações com menor risco de doença coronariana e acidente vascular cerebral (AVC).

Os pesquisadores identificaram ainda uma tendência de redução do risco cardiovascular conforme aumentava o tempo acumulado de amamentação, principalmente nos primeiros 12 meses. No entanto, os próprios autores ressaltam que os estudos apresentavam diferenças importantes entre si e que a qualidade das evidências variava. Por isso, o resultado deve ser entendido como uma associação observada em grandes grupos, e não como uma garantia de proteção para cada mulher.

Benefício para a mãe começa ainda no ciclo reprodutivo

A relação entre amamentação e saúde cardiovascular vem sendo investigada há anos. Um estudo publicado no Obstetrics & Gynecology, que acompanhou dados de 139.681 mulheres na pós-menopausa, encontrou associação entre maior tempo acumulado de lactação e menor prevalência de hipertensão, diabetes, alterações de colesterol e doença cardiovascular.

A possível proteção está relacionada às mudanças metabólicas e hormonais que ocorrem durante a gestação e a lactação. Ainda assim, especialistas alertam que doenças cardiovasculares são influenciadas por diversos fatores, como histórico familiar, pressão arterial, diabetes, colesterol, tabagismo, alimentação, atividade física, idade e condições socioeconômicas.

Ou seja: amamentar não substitui acompanhamento médico nem elimina outros fatores de risco cardiovascular.

Ministério da Saúde recomenda aleitamento exclusivo até seis meses

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que o bebê receba exclusivamente leite materno durante os primeiros seis meses de vida. Depois desse período, a alimentação deve ser complementada com outros alimentos adequados, mas a amamentação deve continuar até os dois anos ou mais.

A orientação leva em conta os benefícios para a criança e também para a mulher. Além da associação com menor risco cardiovascular, o aleitamento materno já foi relacionado a menor risco de algumas doenças maternas, como câncer de mama e de ovário e diabetes tipo 2.

Para o bebê, o leite materno oferece nutrientes e componentes imunológicos importantes para o desenvolvimento e para a proteção contra infecções.

E em Alagoas?

Em Alagoas, o tema ganha uma dimensão ainda maior porque o estado mantém uma rede de bancos de leite humano responsável por receber, processar e distribuir leite doado para recém-nascidos que precisam desse suporte.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), Alagoas possui cinco bancos de leite humano: dois em Maceió, além de unidades em Arapiraca, São Miguel dos Campos e Palmeira dos Índios. O estado também conta com dois postos de coleta na capital.

O leite doado é destinado principalmente a bebês prematuros ou de baixo peso internados em UTIs e unidades de cuidados neonatais.

Em 2025, o Ministério da Saúde anunciou um investimento de R$ 900 mil para qualificar os cinco bancos de leite humano de Alagoas. O recurso foi dividido igualmente entre as unidades, com R$ 180 mil para cada uma.

Maceió já registrou alerta para baixa nas doações

Apesar da estrutura existente, a manutenção dos estoques depende diretamente da participação das mulheres que possuem produção de leite superior à necessidade do próprio bebê.

Em fevereiro de 2026, a Prefeitura de Maceió alertou para a queda no número de doadoras em um dos postos de coleta da capital. Na Unidade de Referência em Saúde Hamilton Falcão, no Benedito Bentes, havia apenas três doadoras naquele momento.

O problema não é novo. Em janeiro de 2025, o mesmo equipamento já havia registrado baixo estoque e reforçado o apelo para que mulheres em período de amamentação que tivessem leite excedente procurassem o serviço.

A situação mostra que falar sobre os benefícios da amamentação também significa discutir uma rede de assistência que pode fazer diferença na recuperação e na sobrevivência de recém-nascidos internados.

Um litro de leite pode ajudar vários bebês

Em Maceió, os dois postos municipais de coleta foram implantados em 2022. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, mais de 500 litros de leite humano haviam sido coletados desde a implantação da estrutura até abril de 2025.

A pasta destaca que um litro de leite humano pode beneficiar até dez recém-nascidos, dependendo das necessidades de cada criança e da forma como o alimento é distribuído.

Para as mães que possuem leite excedente, a doação é voluntária e passa por orientação e avaliação da equipe responsável pelo banco de leite.

Onde doar leite materno em Alagoas

De acordo com a Sesau, as doações podem ser encaminhadas aos bancos de leite de:

  • Maceió: Maternidade Escola Santa Mônica e Hospital Universitário;
  • Arapiraca: Hospital Regional, no Banco de Leite Humano Ivete França Lima;
  • São Miguel dos Campos: Santa Casa de Misericórdia;
  • Palmeira dos Índios: Maternidade Santa Olímpia.

Na capital, também existem postos de coleta no Hospital Nossa Senhora da Guia, no Poço, e na Unidade de Referência em Saúde Hamilton Falcão, no Benedito Bentes.

Amamentação é saúde da criança e também da mulher

A repercussão dos estudos sobre saúde cardiovascular amplia uma discussão que, durante muito tempo, ficou concentrada nos benefícios do leite materno para os bebês.

As evidências disponíveis indicam que o aleitamento pode estar associado a benefícios de longo prazo para a saúde das mães, inclusive no sistema cardiovascular. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que a relação não deve ser interpretada isoladamente, já que alimentação, atividade física, controle da pressão arterial, diabetes, colesterol, peso, tabagismo e acompanhamento médico continuam sendo fundamentais para prevenir doenças cardíacas.

Em Alagoas, o incentivo à amamentação tem ainda outro efeito direto: fortalecer a rede de bancos de leite e ampliar a possibilidade de que recém-nascidos prematuros e de baixo peso recebam leite humano durante a internação.

Mais do que uma prática de alimentação nos primeiros meses de vida, a amamentação está associada a benefícios que podem acompanhar mãe e filho por muitos anos — e, em Alagoas, também mobiliza uma rede de solidariedade capaz de ajudar a salvar vidas.