O governo brasileiro iniciou formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. A iniciativa foi adotada nesta quinta-feira (13) e abre caminho para que o Brasil avalie possíveis contramedidas comerciais contra o governo norte-americano.
Apesar do avanço do procedimento, a estratégia brasileira ainda prevê espaço para negociação. O Itamaraty deverá comunicar formalmente os Estados Unidos sobre a abertura das consultas diplomáticas, enquanto a Câmara de Comércio Exterior (Camex) analisa os impactos das medidas adotadas por Washington.
A informação foi divulgada inicialmente pelo G1 e confirmada por informações de outros veículos, incluindo Reuters e UOL.
O que prevê a Lei da Reciprocidade
A Lei nº 15.122, sancionada em abril de 2025, permite que o Brasil adote medidas de resposta quando outro país impõe ações unilaterais consideradas prejudiciais à competitividade brasileira.
Entre as possibilidades estão restrições comerciais, suspensão de concessões e medidas relacionadas a investimentos e direitos de propriedade intelectual.
A legislação determina que as eventuais contramedidas sejam proporcionais aos prejuízos provocados pela ação estrangeira.
Quais são os próximos passos
O procedimento começa com a análise do caso pela estrutura da Camex. O governo precisa detalhar quais medidas norte-americanas motivaram a reação, quais setores brasileiros foram atingidos e quais são os efeitos econômicos provocados pelas tarifas.
Caso seja reconhecida a possibilidade de aplicação da reciprocidade, poderá ser criado um grupo de trabalho para elaborar uma proposta de contramedidas.
Antes de uma eventual decisão, a proposta poderá passar por consulta pública de até 30 dias. Nesse período, empresas, setores econômicos e demais interessados poderão apresentar informações e sugestões sobre os possíveis impactos das medidas.
Depois dessa etapa, a proposta retorna à estrutura da Camex para avaliação. A decisão final cabe ao Conselho Estratégico da Camex, que também poderá adiar a aplicação das medidas caso as negociações diplomáticas com os Estados Unidos apresentem avanços.
Brasil também acionou a OMC
Paralelamente ao processo de reciprocidade, o Brasil levou a disputa à Organização Mundial do Comércio (OMC).
O governo brasileiro questiona duas medidas tarifárias norte-americanas: uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros e outra de 12,5%, relacionada à política dos Estados Unidos de combate ao trabalho forçado nas cadeias de produção.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as duas medidas atingem parcelas diferentes das exportações brasileiras e podem ser cumulativas em determinados produtos. O ministério estima que as novas sobretaxas alcancem cerca de 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos.
Os números também mostram impacto no comércio bilateral. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões, uma queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025, de acordo com dados do MDIC.
Governo evita retaliação imediata
A abertura do processo não significa que o Brasil já tenha decidido aplicar tarifas ou outras restrições contra produtos norte-americanos.
A estratégia adotada pelo governo busca manter aberta a possibilidade de um acordo com Washington antes da adoção de medidas de retaliação.
O governo brasileiro vem classificando as tarifas norte-americanas como injustificadas. Em reunião realizada em julho com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, integrantes do MDIC, do Ministério das Relações Exteriores e da Presidência reiteraram que as sobretaxas não seriam justificadas pelas razões apresentadas pelo governo norte-americano.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia afirmado que o Brasil poderia responder às medidas dos Estados Unidos caso as negociações não produzissem resultados.
O que pode acontecer daqui para frente
Com o processo agora aberto, o Brasil terá de avaliar quais setores foram mais prejudicados e quais medidas poderiam ser adotadas em resposta.
As alternativas não estão limitadas à criação de novas tarifas. A Lei da Reciprocidade também permite ações envolvendo comércio de bens e serviços, investimentos e propriedade intelectual, desde que respeitados os critérios estabelecidos pela legislação.
Ao mesmo tempo, o governo poderá utilizar o período de consultas para tentar chegar a um entendimento com os Estados Unidos.
Assim, a abertura do procedimento representa um avanço na preparação de uma possível resposta brasileira, mas não significa que uma retaliação comercial será aplicada imediatamente.
