As candidaturas de pessoas pretas e pardas avançaram nas eleições de 2026 e já representam 49,8% do total de registros válidos, aproximando-se da composição racial da população brasileira. O dado faz parte de levantamento realizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em parceria com a consultoria CommonData, com base em informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
De acordo com o estudo, foram analisadas 20.448 candidaturas válidas, das quais 10.191 foram registradas por pessoas que se declararam pretas ou pardas. Em 2022, esse grupo correspondia a 35,5% das candidaturas, o que mostra um crescimento expressivo em quatro anos.
Apesar do avanço na quantidade de candidatos negros, o percentual ainda está abaixo da participação desse grupo na população brasileira, estimada em 55,5%.
Homens brancos continuam maioria entre os candidatos
O levantamento mostra que o crescimento da participação negra não eliminou a desigualdade na composição das candidaturas.
Os homens brancos continuam sendo o grupo predominante entre os concorrentes, especialmente nas disputas por cargos de maior projeção política.
A diferença entre a quantidade de candidatos e a efetiva ocupação de espaços de poder também permanece como um dos principais desafios.
Um estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, divulgado recentemente, mostrou que a proporção de pessoas negras eleitas para o Congresso Nacional ainda não chega a 30%. Na Câmara, a participação negra passou de 19,9% em 2014 para 26,5% em 2022. No Senado, avançou de 18,5% para 22,2% no mesmo período.
Mais candidaturas não significam igualdade de recursos
Um dos principais pontos de atenção apontados pelo levantamento é o financiamento eleitoral.
Embora as candidaturas negras tenham aumentado, mudanças recentes nas regras de distribuição de recursos fizeram com que o percentual destinado a esse grupo não acompanhasse necessariamente sua participação entre os candidatos.
A Emenda Constitucional nº 133/2024 alterou as regras relacionadas à distribuição de recursos para candidaturas negras. Especialistas ouvidos na análise defendem que a representatividade deve ser avaliada não apenas pela quantidade de nomes inscritos, mas também pelo acesso efetivo a dinheiro, estrutura de campanha e tempo de propaganda.
A especialista do Inesc Carmela Zigoni também destaca a importância de mecanismos de fiscalização e das bancas de heteroidentificação para evitar possíveis fraudes nas autodeclarações raciais.
Cenário representa mudança em relação a eleições anteriores
O salto registrado entre 2022 e 2026 indica uma mudança importante no perfil racial das disputas eleitorais brasileiras.
Em eleições anteriores, embora o número de candidaturas negras já apresentasse crescimento, a distância em relação à composição da população permanecia maior.
Agora, com quase metade dos candidatos declarados pretos ou pardos, a diferença caiu para cerca de 5,7 pontos percentuais em relação à participação desse grupo na população.
O avanço, porém, ainda não se traduz automaticamente em maior presença nos parlamentos e nos cargos executivos.
E como fica Alagoas?
Em Alagoas, onde a população negra representa uma parcela significativa da sociedade, a discussão sobre representatividade eleitoral também ganha importância durante as eleições de 2026.
O debate envolve não apenas a quantidade de candidaturas negras registradas, mas principalmente as condições para que esses candidatos tenham estrutura, financiamento e espaço suficiente para disputar votos em igualdade de condições.
Em 2025, o Instituto do Negro de Alagoas (INEG/AL) apresentou ao Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) propostas relacionadas à promoção da igualdade racial nas eleições, incluindo sugestões para fortalecer candidaturas negras e garantir financiamento mais equilibrado.
A discussão ganha ainda mais relevância porque o aumento de candidaturas precisa ser acompanhado de resultados nas urnas para que haja uma mudança efetiva na representação política do estado.
Representatividade vai além do registro
O levantamento mostra que o cenário eleitoral brasileiro está mudando, mas também evidencia que estar na disputa não significa necessariamente ter as mesmas condições para vencer.
Para especialistas, fatores como financiamento, tempo de propaganda, estrutura partidária, exposição pública e capacidade de organização eleitoral influenciam diretamente as chances de eleição.
Assim, o crescimento das candidaturas negras em 2026 representa um avanço na participação política, mas ainda existe uma distância entre o perfil racial dos candidatos, o perfil da população e a composição dos espaços de poder.
Repercussão
Os dados reforçam a importância do debate sobre diversidade e representação na política brasileira. Pela primeira vez, as candidaturas de pretos e pardos se aproximam de metade do total, mas o desafio agora é transformar o aumento da participação eleitoral em maior presença efetiva nos cargos públicos.
Para Alagoas, a discussão acompanha uma realidade nacional: ampliar a presença de candidatos negros nas urnas é apenas uma etapa. O acesso a recursos, estrutura partidária e condições competitivas será decisivo para saber quanto dessa mudança chegará, de fato, às casas legislativas e aos governos.
