A produção brasileira de carne bovina deve terminar 2026 abaixo do volume registrado no ano passado, em um cenário marcado por barreiras comerciais, tarifas, mudanças nas regras de importação e incertezas sobre a demanda internacional.

O alerta ganha importância para a cadeia produtiva de Alagoas, que está inserida em um mercado nacional cada vez mais dependente do desempenho das exportações e da formação dos preços da arroba do boi.

A avaliação foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, em meio a um ambiente internacional considerado mais complexo para o setor. A informação foi divulgada pelo G1 e repercutida por veículos especializados em economia e agronegócio.

O cenário, entretanto, ainda não representa uma queda generalizada na atividade pecuária brasileira. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o país teve o melhor resultado para um primeiro trimestre de abate de bovinos desde o início da série histórica, em 1997.

Entre janeiro e março, foram abatidas 10,29 milhões de cabeças, alta de 3,3% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o último trimestre do ano passado, porém, houve redução de 6,9%.

O que está pressionando o mercado

O principal problema está no comércio exterior.

A indústria brasileira conseguiu ampliar fortemente suas exportações nos últimos anos, mas passou a enfrentar um conjunto de obstáculos em mercados estratégicos.

A China, principal destino da carne bovina brasileira, estabeleceu uma cota para as importações em 2026. O limite de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas levou frigoríficos brasileiros a reduzir ou interromper novos embarques quando a capacidade autorizada começou a se aproximar do fim.

A União Europeia também impôs novas restrições ao Brasil. A partir de setembro, o país deverá enfrentar dificuldades para exportar carnes ao bloco em razão de exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na pecuária. A UE representa cerca de 5,7% do valor exportado pelo Brasil em carnes e é um dos principais mercados para a proteína nacional.

O resultado é uma combinação que preocupa o setor: o Brasil continua produzindo em grande escala, mas encontra mais dificuldades para colocar toda essa produção nos mercados internacionais.

Efeito pode chegar ao preço pago ao produtor

Quando grandes mercados reduzem compras ou criam barreiras, parte da produção que seria destinada ao exterior pode permanecer no mercado interno.

Esse movimento pode aumentar a oferta doméstica e pressionar as cotações do boi gordo e da carne, dependendo do comportamento do consumo brasileiro.

Ao mesmo tempo, uma oferta internacional mais restrita pode produzir efeito contrário em determinados períodos, especialmente se outros países aumentarem a procura pela proteína brasileira.

É justamente essa combinação que torna o restante de 2026 mais imprevisível para produtores e frigoríficos.

Dados do setor mostram que o Brasil encerrou 2025 com exportações recordes de carne bovina, com receita de aproximadamente US$ 18 bilhões, o que elevou a exposição da cadeia brasileira às decisões tomadas por grandes compradores internacionais.

O que isso significa para Alagoas

Em Alagoas, o impacto tende a ser observado principalmente através da formação do preço do gado, dos custos de produção, da demanda por animais e do comportamento do mercado de carne.

Mesmo quando a carne produzida no estado é destinada prioritariamente ao consumo regional, o produtor alagoano não está isolado do mercado nacional. A cotação do boi gordo, o preço dos insumos e a movimentação dos frigoríficos sofrem influência das condições estabelecidas no mercado brasileiro.

Por isso, uma redução das exportações nacionais pode afetar indiretamente a cadeia alagoana, principalmente caso haja excesso de oferta no mercado interno e redução das margens para pecuaristas.

Por outro lado, a diversificação dos mercados compradores pode abrir oportunidades para a pecuária nordestina.

Nordeste teve avanço nas exportações

Os dados mais recentes mostram que existe uma particularidade importante para a região.

No primeiro trimestre de 2026, as exportações de carne bovina do Nordeste cresceram 51,38%, alcançando cerca de 9,4 mil toneladas. O avanço ficou bem acima da média nacional, de aproximadamente 17% no mesmo período.

O levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste, aponta que o desempenho regional foi favorecido pela abertura de novos mercados e por avanços na competitividade e nas condições sanitárias.

Pernambuco, Bahia, Ceará e Maranhão aparecem entre os estados que lideraram essa expansão.

Embora Alagoas não esteja entre os principais exportadores nordestinos de carne bovina apontados no levantamento, o resultado regional é relevante porque mostra que a pecuária do Nordeste vem ampliando sua participação no comércio exterior.

Para o setor alagoano, isso pode representar uma oportunidade de médio e longo prazo, principalmente com investimentos em sanidade, produtividade, rastreabilidade e acesso a mercados.

Brasil ainda tem força no mercado internacional

Apesar das dificuldades, o país continua sendo um dos principais protagonistas mundiais da pecuária.

Projeções do Ministério da Agricultura, com base em dados da Conab, indicam para 2026 produção de aproximadamente 11,3 milhões de toneladas equivalentes de carcaça, com exportações estimadas em cerca de 4,35 milhões de toneladas. A disponibilidade interna projetada é de aproximadamente 6,99 milhões de toneladas.

Ou seja: mesmo com a expectativa de recuo em relação a 2025, o Brasil permanece com uma produção expressiva e uma participação relevante no comércio internacional.

O desafio agora é encontrar compradores suficientes para absorver a produção em um cenário de maior protecionismo.

Cenário exige atenção dos produtores alagoanos

Para o pecuarista alagoano, o momento exige atenção principalmente a três fatores: preço do boi, custo dos insumos e comportamento da demanda dos frigoríficos.

Uma eventual redução das exportações pode aumentar a disponibilidade de carne no mercado brasileiro e pressionar preços. Já uma recuperação das compras de grandes mercados, combinada a uma oferta mais restrita de animais, pode sustentar as cotações.

O desempenho do Nordeste no primeiro trimestre mostra, contudo, que há espaço para expansão regional.

A capacidade de conquistar novos mercados, melhorar a sanidade dos rebanhos e elevar a produtividade pode ser decisiva para que estados como Alagoas aproveitem a crescente demanda internacional por carne brasileira.

O ano de 2026, portanto, não deve ser marcado apenas pela quantidade de carne produzida, mas principalmente pela capacidade do Brasil de manter mercados abertos e encontrar novos destinos para sua produção.

Para Alagoas, acompanhar esse movimento será fundamental: qualquer mudança na balança entre exportação, oferta interna e demanda pode chegar rapidamente ao campo e ao preço pago pelo produtor.