A crise financeira do Grupo Casas Bahia ganhou novos contornos nesta segunda-feira (17) e passou a preocupar também o varejo em Alagoas. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, declarou R$ 17,3 bilhões em dívidas e informou que adotou uma forte redução da operação, com o fechamento de 298 lojas e cortes que podem alcançar cerca de 3 mil funcionários.

As lojas foram fechadas principalmente entre quinta (13) e sexta-feira (14). O número representa aproximadamente 29% da rede física que a companhia mantinha no fim de junho. O grupo informou ter pouco mais de 1 mil unidades antes da nova rodada de cortes.

Em Alagoas, a situação chama atenção porque a rede possui presença comercial em Maceió e em outras áreas do estado. Levantamentos locais indicam que Alagoas tinha 13 unidades antes da nova onda de fechamento, mas a companhia ainda não divulgou uma relação oficial detalhando quais lojas do estado foram atingidas.

Recuperação judicial

O pedido de recuperação judicial foi protocolado no domingo (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

A medida envolve dez empresas do grupo, entre elas as responsáveis pelas marcas Casas Bahia e Ponto Frio, além de operações de comércio eletrônico, fabricação de móveis, logística e tecnologia. Dos R$ 17,3 bilhões declarados em dívidas, aproximadamente R$ 16,4 bilhões são com credores sem garantia, R$ 754 milhões correspondem a credores trabalhistas e R$ 154 milhões a micro e pequenas empresas.

A companhia afirma que pretende utilizar o processo para reorganizar sua estrutura financeira, renegociar dívidas e concentrar os negócios em operações consideradas mais rentáveis.

Quase 300 lojas deixam de funcionar

O fechamento de 298 unidades representa uma das maiores reduções da rede nos últimos anos.

A estratégia faz parte do plano de transformação da empresa e prioriza pontos de venda considerados menos rentáveis. A intenção é diminuir despesas com aluguel, condomínio, pessoal e outros custos operacionais.

Antes da nova rodada de cortes, o grupo possuía cerca de 1.034 lojas, segundo dados do balanço financeiro.

Demissões atingem milhares de trabalhadores

A crise também provocou uma onda de desligamentos.

O número informado na documentação da recuperação judicial chega a aproximadamente 3 mil funcionários, de um quadro de pouco mais de 30 mil trabalhadores. Outras informações sobre a execução dos cortes apontam que cerca de 1,9 mil demissões ocorreram inicialmente, com possibilidade de o número total chegar a 3 mil.

O movimento provocou repercussão entre trabalhadores nas redes sociais. Ex-funcionários publicaram relatos emocionados sobre os desligamentos, incluindo profissionais com décadas de trabalho na empresa.

A situação também provocou reação sindical. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo anunciou que pretende recorrer à Justiça para questionar as demissões em massa e afirma que não teria sido comunicado previamente sobre os cortes.

E as lojas de Alagoas?

Esse é um dos pontos que ainda aguardam esclarecimento.

A Casas Bahia mantém presença em Alagoas, inclusive em estabelecimentos comerciais de Maceió. Há registros recentes da operação da marca no Maceió Shopping, por exemplo.

No entanto, não há, até o momento, uma lista oficial divulgada pela empresa com todas as unidades alagoanas que foram fechadas ou que permanecerão abertas.

Dessa forma, não é possível afirmar que determinada loja do estado tenha sido encerrada apenas com base no anúncio nacional.

O impacto para Alagoas pode ocorrer em duas frentes: diretamente, com eventuais demissões e fechamento de pontos de venda; e indiretamente, pela redução da circulação de consumidores, fornecedores e trabalhadores ligados ao varejo.

Prejuízo bilionário agravou crise

A recuperação judicial acontece depois de um resultado financeiro extremamente negativo.

No segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões. Segundo informações divulgadas sobre o balanço, aproximadamente R$ 9,1 bilhões desse resultado tiveram relação com efeitos contábeis não recorrentes.

Mesmo desconsiderando esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em aproximadamente R$ 978 milhões, acima dos R$ 555 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.

A empresa acumula agora oito trimestres consecutivos de perdas, de acordo com os dados apresentados no pedido de recuperação judicial.

Juros e falta de crédito pesam

A deterioração financeira é atribuída a uma combinação de fatores, entre eles o elevado custo financeiro, restrição de crédito, aumento das despesas operacionais e dificuldades enfrentadas pelo varejo.

A empresa já havia passado por uma recuperação extrajudicial em 2024, quando renegociou cerca de R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras.

Agora, a situação é considerada mais grave.

Na petição apresentada à Justiça, a companhia afirma que existe risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. Segundo a empresa, a retenção de garantias relacionadas a cartões e Pix poderia comprometer até 60% da entrada mensal de caixa.

Impacto no comércio alagoano

Para Alagoas, o caso merece atenção principalmente pelo peso do comércio e dos serviços na economia estadual.

O fechamento de lojas de uma grande rede pode atingir não apenas os funcionários diretamente contratados, mas também trabalhadores terceirizados, empresas de transporte, fornecedores, prestadores de serviços e atividades instaladas nos centros comerciais onde essas unidades funcionavam.

Além disso, a redução da presença física da marca diminui a oferta de emprego e pode afetar a movimentação econômica em determinadas regiões.

Por outro lado, o grupo afirma que a recuperação judicial tem justamente o objetivo de preservar a continuidade das operações, reduzir custos e criar condições para que a empresa volte a ter uma estrutura financeira sustentável.

Empresa tenta evitar paralisação

No pedido apresentado à Justiça, a Casas Bahia solicitou medidas urgentes para impedir que a crise financeira provoque uma interrupção das atividades.

A companhia pretende manter suas operações enquanto negocia com os credores e busca reorganizar a estrutura de capital.

O processo também deverá definir como serão tratados os débitos com fornecedores, instituições financeiras e trabalhadores.

Cenário ainda é de incerteza

Para consumidores alagoanos, a princípio, a recuperação judicial não significa o fim das operações da Casas Bahia no estado.

A empresa continua funcionando e afirma que pretende preservar as atividades consideradas estratégicas. O que ainda não está definido é quais unidades permanecerão abertas após a reestruturação.

A confirmação de eventuais novos fechamentos em Alagoas dependerá da divulgação do plano detalhado pela companhia e das decisões tomadas ao longo do processo de recuperação judicial.

A crise, porém, já produz efeitos concretos: centenas de lojas foram fechadas em todo o país, milhares de trabalhadores perderam os empregos e uma das maiores redes varejistas brasileiras agora busca na Justiça uma saída para uma dívida de R$ 17,3 bilhões.

O Alagoas Alerta acompanha os desdobramentos e a eventual divulgação da lista de unidades atingidas em Alagoas.