As urnas foram abertas no Peru neste domingo (7) no 2º turno eleitoral, em que os eleitores elegerão entre a direitista Keiko Fujimori e esquerdista Roberto Sánchez. Quem vencer o pleito se tornará, no dia 28 de julho, o nono presidente em dez anos.
👉O país vive uma década de instabilidade política graças, em parte, a um sistema unicameral que facilita processos de impeachments e destituições "express". O pleito deste ano, no entanto, resgatou o modelo bicameral, com Câmara e Senado, similar ao sistema brasileiro (leia mais abaixo).
O nome eleito deste domingo sucederá o presidente interino José María Balcázar Zelada, que não foi eleito, mas escolhido pelo Congresso para cumprir um mandato-tampão entre a destituição de José Jerí e as eleições.
A destituição de Jerí não foi um episódio isolado: desde Ollanta Humala, que deixou o poder em 28 de julho de 2016, ninguém conseguiu governar por um mandato completo.
Veja quanto tempo duraram os últimos presidentes do Peru:
- Pedro Pablo Kuczynski, de 28 de julho de 2016 a 23 de março de 2018 (1 ano e 238 dias)
- Martín Vizcarra, de 23 de março de 2018 a 9 de novembro de 2020 (2 anos e 231 dias)
- Manuel Merino, de 10 a 15 de novembro de 2020 (5 dias)
- Francisco Sagasti, de 17 de novembro de 2020 a 28 de julho de 2021 (253 dias)
- Pedro Castillo, de 28 de julho de 2021 a 7 de dezembro de 2022 (1 ano e 132 dias)
- Dina Boluarte, de 7 de dezembro de 2022 a 10 de outubro de 2025 (2 anos e 307 dias)
- José Jerí, de 10 de outubro de 2025 a 17 de fevereiro de 2026 (130 dias)
- José María Balcázar, de 18 de fevereiro até 28 de julho de 2026 (161 dias, considerando que termine seu mandato)

Kuczynski renunciou ao cargo após a divulgação de vídeos que mostravam uma tentativa de compra de votos de deputados para que ele sobrevivesse a uma votação de impeachment. Vizcarra, seu sucessor, caiu de fato por impeachment.
Merino entrou em seu lugar, mas figuras políticas questionaram sua legitimidade no cargo, o que precipitou sua renúncia em apenas 5 dias. Sagasti foi promovido como presidente do Congresso, por sucessão constitucional, levando o mandato-tampão sob intensas crises sociais e políticas até o final.
Pedro Castillo foi eleito em 2021. No ano seguinte, tentou dar um golpe e acabou preso e destituído do cargo. No final de 2025, Castillo foi condenado a 11 anos de prisão.
Após a queda de Castillo, o comando do país passou para a vice-presidente Dina Boluarte. Ela permaneceu no cargo até outubro do ano passado, quando sofreu impeachment por “incapacidade moral”.
Os processos de impeachment e destituição têm uma tramitação "express" justamente porque não existiam duas câmaras no Legislativo para debater e colocar entrave a tais decisões.
Sistema unicameral
As eleições deste ano no Peru também restabeleceram o sistema legislativo bicameral pela primeira vez em décadas. Desde a realização do primeiro turno do pleito, em abril, o país andito voltou a ter uma Câmara dos Deputados, de 130 cadeiras, e um Senado, 60 cadeiras.
Sob o novo sistema, a destituição de um presidente exigirá aprovação em ambas as Casas, cabendo ao Senado a instância final para determinar o futuro do presidente.
Diferentemente do Brasil, o Peru não tem o chamado sistema bicameral — em que o Poder Legislativo é exercido por Senado e Câmara dos Deputados. No Peru, o Congresso é composto por apenas uma delas, em que atuam 130 parlamentares.
Mas nem sempre foi assim. Até 1992, o país tinha Câmara de Deputados e Senado. Naquele ano, o então presidente Alberto Fujimori (1938 -2024) deu um “autogolpe”: entre outras medidas, fechou o Congresso, enviou militares às ruas e promulgou uma nova Constituição no ano seguinte.

No texto, que foi aprovado por um referendo, ficou determinado que o país não teria mais um Senado, e a regra vigora até hoje.
O governo de Vizcarra tentou recriar o sistema bicameral, enviando um projeto ao Congresso que previa a recriação do Senado. Quando o texto chegou ao Parlamento, foi modificado pelos congressistas. As alterações feitas “desvirtuavam o espírito da reforma, na opinião de Vizcarra, e por isso não passou”, explica Aragón.
Outras mudanças, entretanto, foram emplacadas: em dezembro de 2018, o país aprovou, por referendo, uma reforma que acabava com a reeleição para os parlamentares.
