Um projeto que começou a percorrer os nove estados do Nordeste para identificar oportunidades ligadas à economia verde pode ajudar a definir novos caminhos para o desenvolvimento de Alagoas. A iniciativa Futuros Verdes no Nordeste, realizada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com o Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR), pretende mapear setores produtivos, competências e necessidades de qualificação para uma economia de baixo carbono.

A proposta ganha relevância para Alagoas porque o estado está inserido em uma região que reúne, ao mesmo tempo, grande potencial para geração de energia renovável e desafios relacionados às mudanças climáticas.

O levantamento deverá ouvir especialistas e representantes do setor produtivo para entender as características de cada território e apontar oportunidades que possam ser transformadas em investimentos, novos negócios e empregos.

Alagoas já vive avanço da transição energética

O debate sobre economia verde não chega a Alagoas apenas como uma possibilidade futura. O estado já registra uma expansão de atividades relacionadas à energia solar, infraestrutura elétrica e fontes renováveis.

Levantamento divulgado neste ano aponta que mais de 82% da matriz elétrica alagoana é composta por fontes renováveis, enquanto empresas vêm ampliando investimentos em geração distribuída, gestão energética e infraestrutura.

Para o setor industrial, a transformação também representa uma oportunidade de reposicionamento diante das novas exigências ambientais dos mercados internacionais. A Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) tem defendido uma estratégia baseada em descarbonização, inovação, transição energética e competitividade.

Isso significa que a economia verde pode alcançar diferentes áreas da economia alagoana, indo muito além da produção de eletricidade.

Energia solar e eólica estão entre as oportunidades

O Nordeste já ocupa posição de destaque na produção brasileira de energia renovável. Segundo informações reunidas pelo projeto, 92% da geração eólica do país está concentrada na região, que também abriga cinco das dez maiores usinas solares brasileiras.

Para Alagoas, esse cenário abre espaço para negócios relacionados à instalação e manutenção de sistemas de geração de energia, armazenamento, eficiência energética e serviços especializados.

O avanço dessas atividades também aumenta a necessidade de trabalhadores capacitados para atuar em áreas técnicas e industriais.

O próprio governo federal mantém programas voltados à formação de profissionais para a economia verde, com atenção especial a jovens, mulheres e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Bioeconomia pode ser outro caminho para Alagoas

Além das energias renováveis, o projeto aponta a bioeconomia, a biodiversidade, a biomassa e o aproveitamento sustentável dos recursos naturais como áreas com potencial para gerar novas cadeias produtivas no Nordeste.

Em Alagoas, esse conceito pode envolver atividades relacionadas à agricultura, agroindústria, aproveitamento de resíduos, produtos da biodiversidade e tecnologias capazes de agregar valor à produção local.

O desafio é transformar recursos naturais e potencialidades em produtos e serviços com maior valor agregado, sem comprometer os ecossistemas.

Especialistas envolvidos no projeto alertam que ter potencial natural não é suficiente para gerar desenvolvimento. É necessário contar com infraestrutura, financiamento, regulamentação, mercado consumidor e capacidade técnica.

Turismo sustentável também entra no radar

Outro setor que pode se beneficiar da transição para uma economia de baixo carbono é o turismo.

Alagoas possui forte atividade turística, impulsionada principalmente pelo litoral e pelos atrativos naturais. A adoção de práticas sustentáveis pode aumentar a competitividade de empreendimentos do setor e atender a uma demanda internacional crescente por destinos com menor impacto ambiental.

A chamada economia verde também pode estimular investimentos em gestão de resíduos, saneamento, eficiência energética e conservação ambiental vinculados à atividade turística.

Empregos devem acompanhar transformação

Um dos pontos centrais do projeto é justamente identificar quais profissionais serão necessários para sustentar essa mudança.

A transição energética e a descarbonização já estão modificando o perfil de diversas ocupações. Técnicos, engenheiros, especialistas em eficiência energética, profissionais de tecnologia e trabalhadores ligados à gestão ambiental estão entre os que podem encontrar novas oportunidades.

Em Alagoas, a expansão do setor energético já vem aumentando a procura por qualificação profissional. O SENAI Alagoas, por exemplo, ampliou sua atuação em cursos ligados à infraestrutura elétrica, geração de energia e novas tecnologias.

A tendência é que a demanda cresça à medida que novos investimentos sejam anunciados.

O desafio é transformar potencial em desenvolvimento

Para especialistas ouvidos pelo projeto Futuros Verdes no Nordeste, a região precisa evitar que a transição ecológica fique apenas no discurso.

O gerente de Recursos Naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Cardoso, destaca que potencial energético ou ambiental, isoladamente, não garante desenvolvimento. São necessários planejamento, infraestrutura, regulamentação e condições para que empresas consigam transformar oportunidades em cadeias produtivas.

A questão é especialmente importante para estados como Alagoas, que precisam transformar vantagens naturais em investimentos permanentes, geração de renda e empregos qualificados.

Alagoas pode aproveitar uma janela de oportunidade

A transformação da economia mundial cria uma disputa por investimentos em energia limpa, tecnologias de baixo carbono e produtos sustentáveis.

O governo federal já trabalha com políticas de financiamento voltadas à transição ecológica. O programa Eco Invest Brasil, por exemplo, direciona recursos para áreas como combustíveis verdes, baterias, química verde, biomateriais, circularidade de resíduos e inovação tecnológica. As quatro primeiras rodadas do programa já mobilizaram volumes expressivos de recursos.

Para Alagoas, a oportunidade está em preparar empresas, trabalhadores e instituições para participar desse novo mercado.

O projeto Futuros Verdes no Nordeste pretende justamente identificar essas possibilidades nos nove estados e apontar caminhos para que o potencial existente seja transformado em desenvolvimento.

Se bem aproveitada, a transição para uma economia de baixo carbono pode representar para Alagoas não apenas uma agenda ambiental, mas também uma nova frente de investimentos, inovação, qualificação profissional e geração de empregos.