A política externa ganhou espaço na disputa presidencial de 2026 e expõe diferenças importantes entre os candidatos que pretendem comandar o Brasil a partir do próximo ano. As propostas apresentadas nas campanhas passam por temas como relação com os Estados Unidos, aproximação com países asiáticos, fortalecimento do Mercosul, participação no BRICS e posicionamento do país diante das disputas geopolíticas internacionais.

O debate ocorre em um momento de forte instabilidade nas relações internacionais. As tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, a crescente influência econômica da China e as mudanças na composição do BRICS fizeram com que a posição brasileira no cenário internacional se tornasse também uma questão com impacto direto sobre comércio, investimentos e geração de empregos.

Levantamento sobre os programas de governo mostra que os presidenciáveis apresentam estratégias bastante diferentes para lidar com esse cenário.

Relação com os Estados Unidos divide candidatos

Um dos principais pontos de divergência é a relação com Washington.

Enquanto parte dos candidatos defende uma aproximação maior com os Estados Unidos e com países ocidentais, outros apostam na manutenção de uma política externa considerada mais autônoma, evitando que o Brasil se alinhe exclusivamente a qualquer uma das grandes potências.

A discussão ganhou ainda mais importância diante das medidas comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump e das tensões recentes entre os dois países.

O governo brasileiro tem defendido a negociação para resolver os conflitos comerciais, ao mesmo tempo em que afirma que o país precisa manter relações econômicas com diferentes parceiros. O vice-presidente Geraldo Alckmin, por exemplo, afirmou recentemente que o Brasil deve manter boas relações tanto com Estados Unidos quanto com China.

Para os candidatos, portanto, a questão vai além da diplomacia: envolve exportações, tarifas, investimentos e acesso a mercados.

BRICS também aparece no debate eleitoral

A participação brasileira no BRICS é outro dos temas que mais diferenciam as propostas.

Enquanto candidatos ligados a uma visão mais alinhada ao Ocidente defendem uma revisão da participação brasileira no grupo ou até a saída do bloco, outros consideram o BRICS uma ferramenta importante para ampliar a autonomia do país e fortalecer relações com economias emergentes.

O debate ocorre em um momento em que o grupo ganhou novos integrantes e passou a ocupar espaço maior nas discussões sobre comércio internacional, financiamento e reforma das instituições multilaterais.

A eventual saída do Brasil, portanto, teria consequências diplomáticas e econômicas que ultrapassariam o debate ideológico.

China é peça central

A China também aparece como um dos principais pontos de atenção dos planos presidenciais.

O país asiático é um dos maiores parceiros comerciais do Brasil e tem participação relevante na compra de produtos brasileiros, principalmente commodities.

Uma mudança brusca na política externa brasileira poderia, portanto, produzir efeitos sobre setores como agronegócio, mineração e indústria, além de influenciar investimentos chineses no país.

A discussão ganha importância para estados exportadores, já que mudanças nas relações comerciais podem afetar cadeias produtivas inteiras.

Mercosul aparece como estratégia de integração

O Mercosul é outro eixo presente nos programas apresentados pelos candidatos.

Há propostas de fortalecimento do bloco como instrumento de integração econômica da América do Sul, enquanto outros candidatos defendem maior liberdade para o Brasil negociar acordos comerciais diretamente com outros países.

A discussão não é apenas diplomática. A ampliação de mercados para produtos brasileiros pode influenciar diretamente empresas exportadoras, produtores rurais e indústrias.

Documentos analisados pela imprensa mostram que o Mercosul aparece como uma das principais plataformas de inserção internacional defendidas por diferentes candidaturas, ainda que com estratégias distintas.

O que isso pode significar para Alagoas?

Embora política externa pareça distante do cotidiano dos eleitores alagoanos, as decisões tomadas em Brasília podem produzir efeitos diretamente no estado.

Alagoas possui uma economia que depende de diferentes cadeias produtivas ligadas ao comércio, à indústria, ao agronegócio e ao turismo. Mudanças nas relações comerciais do Brasil podem afetar empresas que compram insumos importados ou vendem produtos para o exterior.

O setor sucroenergético é um dos exemplos mais evidentes.

Açúcar e outros produtos relacionados à cadeia sucroalcooleira dependem do mercado internacional. Alterações em tarifas, acordos comerciais ou condições de acesso a mercados podem influenciar preços e competitividade.

O mesmo raciocínio vale para produtos industriais e para o setor químico, além de segmentos ligados à fruticultura e à produção de alimentos.

Turismo também pode sentir efeitos

As relações internacionais também podem influenciar o turismo em Alagoas.

Uma política externa que facilite a entrada de brasileiros em determinados mercados, amplie conexões aéreas ou fortaleça relações comerciais pode contribuir para o fluxo de visitantes e para investimentos no setor.

Maceió, Maragogi e outros destinos alagoanos dependem fortemente do turismo nacional, mas também possuem potencial para ampliar a presença de visitantes estrangeiros.

Nesse cenário, relações diplomáticas e acordos internacionais podem funcionar como instrumentos de promoção econômica.

Eleição coloca dois modelos em disputa

De maneira geral, os programas dos presidenciáveis revelam dois grandes caminhos.

De um lado, aparecem propostas que defendem uma aproximação mais intensa com Estados Unidos e países ocidentais, acompanhada de uma revisão da relação com organismos e grupos considerados mais próximos da China e da Rússia.

Do outro, estão candidaturas que defendem uma política externa mais independente e diversificada, mantendo relações simultâneas com Estados Unidos, China, Europa, países do Sul Global e integrantes do BRICS.

Há ainda candidatos que apresentam propostas mais radicais, incluindo mudanças profundas na orientação econômica e diplomática do país.

Cenário internacional será desafio para próximo presidente

Independentemente de quem vencer a eleição, o próximo governo terá de administrar uma política externa em um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, conflitos geopolíticos e competição entre grandes potências.

O desafio será equilibrar interesses econômicos e políticos sem comprometer a capacidade brasileira de negociar com diferentes parceiros.

Uma pesquisa recente com formuladores de política externa de países considerados potências médias apontou aumento da percepção positiva sobre a atuação internacional brasileira e uma tendência de defesa de maior autonomia diante da disputa entre grandes potências.

Para Alagoas, a discussão interessa principalmente porque decisões sobre comércio exterior, tarifas, investimentos e acordos internacionais podem chegar ao estado por meio de empresas, empregos, preços e oportunidades de exportação.

Repercussão

A presença mais forte da política externa na campanha de 2026 mostra que o tema deixou de ser restrito aos círculos diplomáticos. As escolhas feitas pelo próximo presidente poderão definir a posição do Brasil diante dos Estados Unidos, China, BRICS e Mercosul durante um período de profundas transformações na economia mundial.

Para o eleitor, a principal diferença entre as candidaturas está na estratégia: aproximar-se mais dos Estados Unidos, ampliar relações com China e países emergentes ou tentar manter uma posição independente entre os diferentes polos de poder.

A resposta para essa escolha estará nas urnas em outubro.