O futuro das relações de trabalho está entre os temas que devem ganhar espaço na disputa pela Presidência da República em 2026. As propostas apresentadas pelos candidatos revelam diferenças importantes sobre a jornada de trabalho, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a atuação dos sindicatos, a contratação de trabalhadores e a regulamentação das atividades realizadas por meio de aplicativos.

Entre os principais pontos em discussão está o fim da chamada escala 6x1 — modelo no qual o trabalhador atua por seis dias consecutivos e tem apenas um dia de descanso. A pauta ganhou força no Congresso Nacional e também passou a integrar os programas de governo dos candidatos.

O atual cenário trabalhista estabelece, como regra geral, jornada de até oito horas diárias e 44 horas semanais, embora a legislação permita diferentes regimes mediante acordos e convenções coletivas, respeitados os limites previstos em lei.

Confira os principais pontos apresentados pelos cinco candidatos analisados:

Lula defende fim da escala 6x1 e regulamentação dos aplicativos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, coloca a redução da jornada entre as principais propostas para o mercado de trabalho.

O programa prevê o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal para 40 horas, sem diminuição dos salários. A proposta também inclui medidas para combater formas consideradas fraudulentas de terceirização e reforçar mecanismos de proteção aos trabalhadores.

Outro ponto de destaque é a regulamentação do trabalho por aplicativos. O programa petista prevê direitos trabalhistas e previdenciários para motoristas e entregadores, além de regras relacionadas à remuneração, segurança e transparência dos algoritmos utilizados pelas plataformas.

A proposta também prevê participação das empresas no financiamento da Previdência Social desses trabalhadores.

Na área de emprego e renda, Lula defende a continuidade da política de valorização real do salário mínimo, medidas para reduzir desigualdades salariais entre homens e mulheres e ações de combate à discriminação no ambiente profissional.

O plano ainda prevê reforço à fiscalização contra o trabalho infantil e o trabalho análogo à escravidão.

A regulamentação dos trabalhadores de plataformas já havia aparecido entre as propostas apresentadas por Lula em 2022, mas a legislação específica sobre o setor ainda não foi concluída. O tema voltou a aparecer no programa de 2026.

Flávio Bolsonaro propõe reduzir custos de contratação

O senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta uma abordagem diferente. O programa estabelece como uma das prioridades a redução do custo de contratação, sem retirada dos direitos trabalhistas previstos para os empregados.

A candidatura propõe modelos específicos para facilitar a entrada ou a volta de determinados grupos ao mercado de trabalho.

Um deles é o Contrato de Primeiro Emprego, destinado a jovens entre 18 e 24 anos. Outro é o Contrato de Reingresso, voltado a pessoas com 50 anos ou mais que estejam desempregadas há pelo menos um ano.

O programa também defende maior flexibilidade na organização das jornadas e a ampliação do espaço para acordos entre empregados e empregadores, respeitando os limites estabelecidos pela legislação.

Para aproximar trabalhadores e empresas, a candidatura prevê ainda a criação de um Banco Nacional de Vagas.

Em relação aos aplicativos, Flávio defende a manutenção das oportunidades de geração de renda oferecidas pelas plataformas, acompanhada de mecanismos de proteção social e previdenciária.

O programa, porém, adota posição contrária à participação obrigatória de entidades sindicais na formulação das regras para esse segmento.

Caiado aposta em qualificação e redução da informalidade

O governador de Goiás e candidato Ronaldo Caiado (PSD) apresenta uma proposta voltada à modernização do mercado de trabalho, com foco na redução da informalidade e na preparação profissional para novas tecnologias.

O programa prevê ampliar a oferta de ensino técnico integrado ao ensino médio e à educação de jovens e adultos. A ideia é aproximar a formação profissional das necessidades de cada região, com participação de governos estaduais, institutos federais e empresas.

Entre os setores citados estão inteligência artificial, automação, cibersegurança, análise de dados e manutenção preditiva.

Outra proposta é criar uma transição mais gradual para trabalhadores que recebem benefícios sociais e conseguem uma ocupação formal. Em vez de perder imediatamente o benefício, a redução ocorreria progressivamente conforme a renda aumentasse.

O plano também prevê iniciativas para ampliar a contratação de jovens, combater diferenças salariais entre homens e mulheres e enfrentar situações de assédio no trabalho, inclusive nas atividades realizadas por plataformas digitais.

Zema defende mudanças na CLT e maior liberdade de negociação

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), propõe uma alteração mais ampla na forma de organização das relações trabalhistas.

O programa considera que a legislação atual é excessivamente rígida e pode aumentar o custo das contratações. Como alternativa, a candidatura defende um modelo em que acordos entre empregados e empregadores tenham maior peso sobre determinadas regras gerais previstas na legislação.

Nesse sistema, poderiam ser negociados aspectos como remuneração variável, periodicidade dos pagamentos, jornada e distribuição das férias, dentro dos limites estabelecidos pela própria proposta.

Zema também defende a redução de encargos incidentes sobre a folha de pagamento e a simplificação de obrigações burocráticas para as empresas.

Na qualificação profissional, o programa prevê a utilização de vouchers para permitir que trabalhadores tenham acesso a cursos técnicos oferecidos em parceria com instituições privadas e o Sistema S.

A candidatura também propõe o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical e mudanças na atuação dos conselhos profissionais.

Renan Santos propõe "Frentes Cidadãs"

O empresário Renan Santos, candidato pelo Missão, apresenta uma proposta de maior flexibilização das relações trabalhistas.

O programa afirma que a legislação atual é rígida e pode dificultar adaptações das empresas. A candidatura propõe mudanças com o objetivo declarado de ampliar a flexibilidade e aumentar a segurança jurídica nas relações de trabalho.

Um dos principais pontos é a criação das chamadas Frentes Cidadãs, que substituiriam o Bolsa Família para pessoas em idade economicamente ativa.

Nesse modelo, beneficiários participariam de atividades remuneradas consideradas de utilidade pública. A proposta é apresentada como uma forma de aproximar os beneficiários do mercado formal de trabalho.

O programa também prevê mudanças na área de educação, com maior direcionamento de recursos para formação em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, além de incentivos para aproximar universidades, empresas e indústria.

Fim da 6x1 também está em discussão no Congresso

Enquanto os candidatos apresentam suas propostas, o Congresso Nacional discute uma mudança que pode alterar diretamente a jornada de milhões de trabalhadores.

A PEC que trata do fim da escala 6x1 já avançou na Câmara dos Deputados e está em tramitação no Senado. O relatório apresentado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM) mantém a proposta de redução gradual da jornada, com preservação dos salários e dois dias de descanso semanal.

A pauta ganhou novo impulso após um acordo político entre o presidente Lula e os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. A intenção é acelerar a análise da proposta durante o esforço concentrado do Congresso previsto para o início de setembro.

A discussão, portanto, pode chegar ao período eleitoral já como um dos principais temas relacionados ao emprego e à qualidade de vida dos trabalhadores.

O que está em jogo

As propostas apresentadas pelos presidenciáveis mostram dois caminhos principais para o futuro das relações de trabalho.

De um lado, estão propostas que priorizam a ampliação da proteção social, a redução da jornada e a criação de direitos específicos para trabalhadores de plataformas digitais. De outro, aparecem iniciativas voltadas à flexibilização das regras, redução dos custos de contratação e ampliação da autonomia para negociações entre empregados e empregadores.

Com a campanha eleitoral avançando, temas como fim da escala 6x1, salário mínimo, CLT, trabalho por aplicativos, sindicatos e informalidade devem ocupar espaço relevante no debate entre os candidatos e também na escolha do eleitor.