Um estudo publicado no Brazilian Journal of Nephrology acendeu um alerta para um problema que pode atingir milhares de brasileiros sem que eles saibam: o subdiagnóstico da doença renal crônica (DRC).
A pesquisa avaliou 14.239 adultos com diabetes e/ou hipertensão que não tinham diagnóstico prévio de doença renal e identificou a doença pela primeira vez em 19,6% dos participantes — praticamente um em cada cinco pacientes avaliados.
O levantamento também revelou uma lacuna importante no acompanhamento dessas pessoas. Embora a creatinina seja um exame conhecido para avaliação da função dos rins, a investigação de albuminúria, que ajuda a identificar lesões renais ainda em fases iniciais, foi pouco utilizada. O exame foi solicitado em menos de 5% dos casos antes de uma campanha de rastreamento e não chegou a 7% posteriormente.
O resultado chama atenção porque diabetes e hipertensão estão entre os principais fatores associados ao desenvolvimento da doença renal crônica.
Problema pode avançar sem sintomas
A DRC é considerada uma doença silenciosa. Na maioria das vezes, a pessoa não apresenta sintomas nas fases iniciais e pode descobrir o problema somente quando a função dos rins já está bastante comprometida.
O Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico tardio pode fazer com que o paciente chegue a estágios avançados da doença, nos quais tratamentos como a hemodiálise passam a ser necessários.
A Sociedade Brasileira de Nefrologia estima que mais de 20 milhões de brasileiros tenham doença renal crônica, aproximadamente 10% da população. A entidade ressalta que grande parte dessas pessoas desconhece a própria condição justamente por causa da evolução silenciosa.
O que o estudo encontrou
Entre os 14.239 participantes avaliados, 84% eram hipertensos e 37% tinham diabetes.
A pesquisa identificou:
- 19,6% dos participantes com DRC pela primeira vez;
- 11,3% com taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 60 mL/min;
- 11,1% com relação albumina/creatinina acima de 30 mg/g;
- menos de 5% haviam realizado investigação de albuminúria antes da campanha;
- mesmo após a campanha, o índice ficou abaixo de 7%.
Os pesquisadores também projetaram aproximadamente 169 mil novos casos de insuficiência renal em dois anos e cerca de 500 mil em cinco anos, considerando a população estudada e sem contabilizar o risco concorrente de mortalidade.
Os números não significam que essas projeções representem diretamente a população de Alagoas, mas ajudam a dimensionar o impacto que a identificação tardia pode produzir no sistema de saúde.
Por que diabetes e pressão alta preocupam?
A hipertensão e o diabetes estão entre os principais fatores de risco para doença renal crônica.
O Ministério da Saúde recomenda que pessoas com diabetes e hipertensão sejam acompanhadas regularmente. Na atenção primária, pacientes com essas condições devem realizar exames para avaliar a função renal e identificar possíveis sinais de lesão.
Para pessoas com diabetes, a orientação inclui avaliação anual da creatinina e da relação albuminúria/creatinúria. Para hipertensos, o acompanhamento também deve incluir avaliação da função renal e exame de urina, de acordo com o risco individual.
Alerta também vale para Alagoas
Embora o estudo tenha sido realizado com participantes do Sul do Brasil, o alerta sobre o diagnóstico precoce tem relevância para Alagoas porque o Estado também possui uma parcela da população exposta aos principais fatores de risco da DRC.
O Ministério da Saúde aponta diabetes, hipertensão, obesidade, doenças cardiovasculares, tabagismo, idade avançada e histórico familiar como fatores associados ao desenvolvimento da doença renal crônica.
O cenário também precisa ser observado diante da estrutura necessária para atender pacientes que chegam aos estágios mais avançados.
Em 2026, Alagoas ampliou a rede de atenção especializada. Uma resolução da Comissão Intergestores Bipartite aprovou, em janeiro, a habilitação da Clínica de Hemodiálise Sarah Bezerra, em São José da Tapera, como unidade de atenção especializada em doença renal crônica com hemodiálise para referência das 9ª e 10ª Regiões de Saúde.
A medida representa uma alternativa para descentralizar o atendimento e aproximar a terapia renal dos pacientes do interior.
Rede de saúde já oferece acompanhamento
A estrutura estadual também conta com atendimento especializado em nefrologia.
No Hospital do Coração Alagoano Professor Adib Jatene, em Maceió, há serviços de hemodiálise para pacientes internados com problemas renais agudos ou crônicos, além de ambulatório voltado a pacientes elegíveis para transplante renal. O atendimento envolve equipe multiprofissional.
O Hospital Metropolitano de Alagoas também oferece atendimento em nefrologia, incluindo avaliação e tratamento de doença renal crônica, hemodiálise, diálise peritoneal e acompanhamento relacionado ao transplante.
A rede alagoana, portanto, vem estruturando a assistência para os casos mais graves. O desafio apontado pelo estudo, entretanto, está justamente antes dessa etapa: identificar a doença enquanto ainda é possível retardar sua evolução.
Alagoas teve avanço nos transplantes renais
Outro dado que demonstra a dimensão da assistência renal no Estado é o crescimento dos transplantes.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), Alagoas registrou aumento de 107% nos transplantes renais em 2025. O avanço ocorreu no mesmo período em que o Estado ampliou as autorizações para doação de órgãos, que passaram de 39, em 2024, para 52, em 2025 — crescimento de 33,3%.
O resultado representa uma evolução importante para pacientes que chegam à fase em que o transplante passa a ser uma possibilidade terapêutica.
Ao mesmo tempo, reforça a importância de trabalhar na prevenção e no diagnóstico precoce para evitar que mais pessoas evoluam para a necessidade de terapia renal substitutiva.
Mais de 170 mil brasileiros dependem de diálise
O problema ultrapassa a questão do diagnóstico.
A Sociedade Brasileira de Nefrologia informa que mais de 170 mil brasileiros estão em tratamento dialítico, sendo que aproximadamente 79% dependem exclusivamente do SUS. A entidade também alerta para dificuldades financeiras e estruturais enfrentadas pelo setor de diálise.
Quanto mais tarde a DRC é identificada, maior pode ser a possibilidade de progressão para estágios avançados e, consequentemente, a necessidade de tratamentos de maior complexidade.
Por isso, especialistas defendem que o rastreamento seja fortalecido principalmente entre pessoas que já apresentam diabetes ou hipertensão.
Repercussão entre especialistas
A publicação do estudo repercutiu na comunidade nefrológica justamente por evidenciar uma diferença entre a existência dos exames e sua utilização na prática clínica.
Editorial publicado no Brazilian Journal of Nephrology classificou a detecção precoce da DRC entre pessoas de alto risco como uma lacuna importante no cuidado em saúde. A avaliação aponta que o problema não está necessariamente na falta de tecnologia, mas na dificuldade de incorporar o rastreamento sistemático à rotina dos serviços.
A mensagem é especialmente relevante para a atenção básica, considerada pelo Ministério da Saúde a principal porta de entrada para identificação dos fatores de risco e acompanhamento inicial desses pacientes.
O que a população pode fazer?
O alerta não significa que todas as pessoas precisam procurar um nefrologista imediatamente. A recomendação é manter acompanhamento regular na unidade de saúde, principalmente quem tem diabetes ou hipertensão.
Entre as medidas indicadas estão:
- controlar a pressão arterial;
- manter o diabetes sob controle;
- realizar os exames solicitados durante as consultas;
- verificar regularmente a função dos rins quando houver indicação;
- manter hábitos alimentares saudáveis;
- praticar atividade física;
- evitar o uso de medicamentos sem orientação profissional.
O Ministério da Saúde reforça que pessoas com diabetes e hipertensão devem conversar com o profissional responsável pelo acompanhamento sobre a necessidade de exames periódicos de creatinina e avaliação de proteínas na urina.
Alerta para Alagoas
O estudo não apresenta uma estimativa específica de quantos alagoanos convivem com DRC sem diagnóstico. Por isso, não é possível transportar diretamente os 19,6% encontrados na pesquisa para a população do Estado.
O que os dados mostram, porém, é um alerta para toda a rede de saúde: identificar a doença renal antes que ela avance pode significar menos complicações, menor necessidade de tratamentos de alta complexidade e melhor qualidade de vida para os pacientes.
Em Alagoas, onde a rede de hemodiálise e transplante vem recebendo novos investimentos e ampliando a assistência, o fortalecimento da prevenção e do diagnóstico na atenção básica pode ser uma das principais estratégias para reduzir a pressão sobre os serviços especializados.
A principal mensagem dos especialistas é simples: quem tem diabetes ou pressão alta deve manter o acompanhamento médico e perguntar sobre a avaliação da saúde dos rins. A doença renal crônica pode não dar sinais, mas exames simples podem ajudar a identificá-la antes que o problema avance.
