As exportações brasileiras para os Estados Unidos registraram forte queda nos primeiros sete meses de 2026. Entre janeiro e julho, as vendas ao mercado norte-americano somaram US$ 21 bilhões, uma redução de 12,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
O recuo representa aproximadamente US$ 2,9 bilhões a menos em produtos vendidos aos Estados Unidos e levou o valor exportado pelo Brasil para o país ao menor nível para o período desde 2023.
Os números fazem parte da edição mais recente do Monitor do Comércio Brasil–Estados Unidos, produzido pela Amcham Brasil com base nos dados oficiais do Comex Stat, sistema do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O resultado acende um alerta para empresas brasileiras que dependem do mercado americano e ocorre em um cenário de maior tensão comercial entre Brasília e Washington, marcado pela aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Tarifaço aumenta pressão sobre empresas brasileiras
A retração nas exportações ocorre enquanto os Estados Unidos ampliam as barreiras comerciais contra produtos brasileiros.
Em julho, o governo norte-americano estabeleceu sobretaxas adicionais que incluem uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Paralelamente, uma tarifa de 12,5% passou a atingir parte das importações no âmbito de uma medida mais ampla dos Estados Unidos.
De acordo com o MDIC, as novas medidas combinadas alcançam 23,1% das exportações brasileiras, enquanto 52,7% permanecem sem tarifas adicionais setoriais ou específicas contra o Brasil.
O efeito é particularmente relevante para setores que possuem forte presença no mercado norte-americano, já que o aumento dos custos de entrada pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros diante de fornecedores de outros países.
Estados Unidos perdem espaço entre os compradores
A queda nas vendas acontece apesar de o comércio exterior brasileiro continuar encontrando alternativas em outros mercados.
Segundo o levantamento da Amcham, a retração das exportações para os Estados Unidos contrasta com o desempenho de outros parceiros comerciais. O movimento reforça a estratégia de empresas brasileiras de diversificar destinos para reduzir a dependência do mercado americano.
O cenário também é acompanhado pelo governo federal. O Comex Stat, administrado pelo MDIC, é a base oficial utilizada para acompanhamento detalhado das exportações e importações brasileiras e permite consultar os dados por produto, país e período.
Impacto chega a Alagoas
Para Alagoas, a notícia tem peso ainda maior porque o estado já vinha registrando uma retração expressiva nas vendas para os Estados Unidos.
Dados do comércio exterior mostram que as exportações alagoanas para o mercado americano despencaram 95,2% em janeiro de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Naquele período, os embarques somaram apenas US$ 1,5 milhão, segundo levantamento baseado em dados do MDIC.
A situação se agravou ao longo do ano. Em junho, as exportações de Alagoas para os Estados Unidos chegaram a registrar queda de 99,8%, segundo levantamento divulgado pela imprensa local.
O cenário é especialmente sensível para a cadeia sucroenergética alagoana, que possui histórico de vendas para o mercado americano.
Açúcar está no centro da preocupação
O açúcar é um dos principais produtos envolvidos nessa relação comercial.
Em janeiro, o produto respondeu por 95,4% das exportações totais de Alagoas, movimentando US$ 45,9 milhões. O dado mostra o peso da cadeia sucroenergética para o comércio exterior do estado.
Em 2025, o açúcar representou 50,6% das exportações alagoanas, enquanto as vendas do produto alcançaram US$ 56,8 milhões, segundo dados citados em levantamento sobre o comércio exterior do estado.
O aumento das tarifas americanas preocupa as usinas porque reduz a margem de comercialização e pode tornar mais difícil competir no mercado norte-americano.
Uma análise divulgada em julho apontou que as usinas nordestinas estão entre as empresas potencialmente mais afetadas pelas novas tarifas, mesmo diante da existência de cotas específicas para açúcar com tratamento diferenciado.
Alagoas busca outros mercados
A dependência do mercado americano, entretanto, não é a única alternativa para o setor produtivo alagoano.
Em 2025, as empresas do estado movimentaram US$ 821,8 milhões em exportações e ampliaram a presença em outros mercados internacionais. Singapura, por exemplo, passou a ocupar posição de destaque entre os compradores de produtos alagoanos.
A diversificação pode se tornar ainda mais importante diante da atual guerra tarifária.
Para produtores e empresas de Alagoas, encontrar novos destinos significa reduzir a exposição às decisões comerciais tomadas pelo governo dos Estados Unidos e preservar canais de venda para produtos como açúcar e derivados.
Queda nacional mostra dimensão da crise
O caso de Alagoas ocorre dentro de um movimento maior.
No acumulado até julho, o Brasil exportou US$ 21 bilhões para os Estados Unidos, contra um valor significativamente maior no mesmo período de 2025. A perda de US$ 2,9 bilhões evidencia o tamanho do impacto sobre o comércio bilateral.
A participação americana nas exportações brasileiras também vem diminuindo. No primeiro semestre, os Estados Unidos responderam por 9,4% das exportações brasileiras, segundo dados do Monitor do Comércio Brasil-EUA. Foi a menor participação registrada para um primeiro semestre desde o início da série histórica, em 1997.
Governo tenta reduzir impactos
Diante da pressão sobre empresas exportadoras, o governo brasileiro vem adotando medidas para amenizar os efeitos das tarifas e, ao mesmo tempo, tenta negociar com Washington.
O Brasil também acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) para questionar as medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos.
A estratégia inclui ainda a busca por novos mercados e mecanismos de apoio às empresas afetadas pelas barreiras.
O objetivo é evitar que a redução das exportações resulte em perda prolongada de produção, empregos e investimentos em setores dependentes do comércio exterior.
O que isso significa para Alagoas?
Para o estado, a retração das vendas brasileiras aos Estados Unidos reforça um problema que já vinha sendo observado localmente.
Os principais efeitos possíveis são:
- pressão sobre a rentabilidade das usinas que dependem do mercado externo;
- necessidade de buscar compradores em outros países;
- maior exposição às oscilações do preço internacional do açúcar;
- risco de redução das receitas de empresas exportadoras;
- necessidade de diversificação da pauta e dos destinos das exportações;
- impacto indireto sobre emprego e atividade econômica nas regiões produtoras.
Apesar da forte queda nas vendas para os Estados Unidos, Alagoas ainda possui alternativas de mercado e vem ampliando a presença em outros países.
O desafio, agora, é acelerar essa diversificação enquanto o impasse comercial entre Brasil e Estados Unidos continua sem uma solução definitiva.
Comércio entre Brasil e EUA entra em nova fase
A queda de 12,2% nas exportações brasileiras para os Estados Unidos mostra que a disputa comercial já produz efeitos concretos sobre o fluxo de mercadorias.
Para Alagoas, o alerta é ainda mais significativo: o estado já registrou quedas superiores a 90% nas vendas ao mercado americano em determinados meses de 2026.
Com as tarifas adicionais em vigor, o desempenho dos próximos meses será decisivo para saber se a retração representa apenas uma mudança temporária na rota das exportações ou o início de uma transformação mais profunda na relação comercial entre empresas brasileiras — e alagoanas — com os Estados Unidos.
