Um dos filmes mais controversos e simbólicos de Glauber Rocha ganhará uma nova versão para o público. Cabeças Cortadas, lançado originalmente em 1970, será restaurado em 4K e deverá retornar às telas em 2027, em um projeto conduzido pela indústria cinematográfica espanhola.
A restauração prevê tratamento digital da imagem, correção de cores e recuperação do som. O trabalho reúne a Escola de Cinema de Madrid (Ecam), a Vídeo Mercury Films e a plataforma FlixOlé, especializada em cinema espanhol.
A iniciativa pretende recuperar uma obra que, apesar de sua importância para a cinematografia de Glauber, permaneceu por décadas sem uma restauração contemporânea.
Filme foi produzido durante o exílio de Glauber
Cabeças Cortadas é uma coprodução hispano-brasileira rodada em 1970 na Catalunha, no norte da Espanha, durante o período em que Glauber Rocha estava fora do Brasil em razão da perseguição promovida pelo regime militar.
Segundo registros da Cinemateca Brasileira, o longa foi produzido em 35 mm, em cores, e tem aproximadamente 90 minutos de duração. O lançamento comercial no Brasil ocorreu em 1979.
A história acompanha Diaz II, interpretado pelo ator espanhol Francisco Rabal, um governante autoritário que vive cercado por lembranças, delírios e sinais de decadência.
O personagem reúne características associadas a diferentes ditadores latino-americanos e também referências ao regime de Francisco Franco, que governou a Espanha por décadas.
Uma obra marcada por metáforas políticas
O longa utiliza uma narrativa pouco convencional para abordar temas como autoritarismo, dominação política e relações de poder.
A decadência do personagem central funciona como metáfora para o enfraquecimento dos regimes autoritários. Em uma das cenas mais conhecidas, Diaz II aparece ao telefone discutindo fenômenos climáticos e fazendo afirmações grandiosas sobre seus supostos poderes.
A obra também apresenta elementos ligados à exploração econômica e à influência estrangeira, temas recorrentes na produção de Glauber Rocha.
Na avaliação de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o filme permanece relevante justamente pela combinação entre crítica política e ruptura com os padrões tradicionais do cinema comercial.
Estética rompe com modelo tradicional
Cabeças Cortadas não segue uma narrativa convencional. O filme mistura elementos de teatro, poesia, alegoria e referências políticas, característica que pode tornar a experiência mais desafiadora para espectadores acostumados ao cinema tradicional.
A linguagem adotada pelo diretor fazia parte de sua proposta estética, ligada ao movimento do Cinema Novo brasileiro, que buscava produzir filmes com forte conteúdo social e político e romper com modelos comerciais predominantes.
A produção também incorporou improvisações durante as filmagens, uma das características do método de trabalho de Glauber.
Para o diretor e crítico de cinema Cavi Borges, a importância do longa está justamente na capacidade de discutir temas como fascismo, racismo e dominação estrangeira ao mesmo tempo em que desafia os padrões estéticos do cinema convencional.
Restauração pretende aproximar obra de novas gerações
Com a digitalização em 4K, a expectativa dos responsáveis pelo projeto é recuperar detalhes visuais e sonoros da produção original e facilitar o acesso de novos espectadores ao filme.
A restauração também deverá contribuir para a preservação de uma obra considerada importante dentro da trajetória internacional de Glauber Rocha.
As instituições envolvidas classificaram Cabeças Cortadas como uma obra singular, situada entre a cinematografia espanhola, a experiência latino-americana e a vanguarda europeia.
Além da restauração, o projeto prevê uma plataforma digital com informações sobre o filme, depoimentos de integrantes da produção e registros dos bastidores das filmagens.
Um dos últimos filmes de Glauber sem restauração
A recuperação de Cabeças Cortadas ganha importância também porque o longa está entre os últimos trabalhos de Glauber Rocha que ainda não haviam recebido uma restauração desse porte.
O cineasta baiano morreu em 1981, aos 42 anos, deixando uma filmografia que se tornou referência no cinema brasileiro e internacional.
Entre seus trabalhos mais conhecidos estão Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) e A Idade da Terra (1980).
A Cinemateca Brasileira registra Cabeças Cortadas como uma produção de ficção dirigida por Glauber Rocha e realizada em coprodução entre Brasil e Espanha.
Nova versão chega em 2027
A restauração em 4K de Cabeças Cortadas está prevista para ser apresentada ao público em 2027. Além da melhoria técnica, o projeto representa uma tentativa de recolocar em circulação uma produção considerada fundamental para compreender a fase internacional e experimental da carreira de Glauber Rocha.
