A gasolina comercializada no Brasil passa a contar, a partir deste sábado (1º), com 32% de etanol anidro em sua composição. A mudança eleva em dois pontos percentuais a mistura obrigatória, que até então era de 30%, e já provoca discussão entre órgãos públicos, representantes do setor de combustíveis e especialistas sobre possíveis efeitos nos veículos.
A chamada gasolina E32 foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em julho e terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a medida busca ampliar o uso de biocombustível produzido no país e reduzir a necessidade de importação de gasolina.
Governo diz que mistura foi testada
O governo federal afirma que a adoção do E32 foi respaldada por estudos coordenados pelo MME e executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). Os ensaios avaliaram veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina, considerados mais sensíveis à elevação da participação do etanol.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que os testes não identificaram impactos relevantes relacionados ao desempenho, consumo, dirigibilidade, partida a frio ou funcionamento dos veículos. A avaliação envolveu 16 automóveis produzidos entre 1994 e 2024 e 13 motocicletas.
O MME também sustenta que a nova composição é tecnicamente viável e adequada à frota brasileira. A decisão, de acordo com o governo, considera ainda o histórico de utilização de misturas com percentuais elevados de etanol no país.
MPF questiona segurança da mudança
Apesar dos argumentos apresentados pelo governo e pelo setor sucroenergético, o Ministério Público Federal (MPF) levou o caso à Justiça. O órgão ajuizou ação civil pública para tentar suspender a implementação do E32 até que sejam apresentados estudos específicos capazes de demonstrar a segurança da mistura para a diversidade da frota nacional.
Na avaliação do MPF, ainda existem dúvidas sobre os efeitos do aumento do etanol na durabilidade de componentes, emissões, autonomia e compatibilidade com diferentes veículos. O órgão também cita possíveis preocupações envolvendo corrosão, bombas de combustível, sistemas de injeção e componentes de veículos mais antigos, importados e motocicletas.
O questionamento não significa que o uso de etanol na gasolina tenha sido considerado inadequado pelo MPF. A discussão apresentada na ação está concentrada, principalmente, na suficiência dos estudos utilizados para embasar especificamente a elevação para 32% e na necessidade de transparência e avaliação dos impactos da medida.
Quais carros podem sentir mais a mudança?
Os veículos flex são considerados menos suscetíveis à alteração porque seus sistemas de gerenciamento do motor foram desenvolvidos para trabalhar com diferentes proporções de gasolina e etanol.
A maior preocupação está relacionada a veículos exclusivamente a gasolina, especialmente modelos antigos, importados e determinadas motocicletas. Nesses casos, a compatibilidade dos componentes e a calibração dos sistemas podem variar conforme o projeto e o ano de fabricação.
Isso não significa, porém, que um veículo mais antigo necessariamente terá problemas com o E32. Os próprios testes utilizados pelo governo incluíram modelos fabricados em diferentes períodos, inclusive veículos mais antigos, e a Unica afirma que não foram observados impactos relevantes nos parâmetros avaliados.
E o consumo de combustível?
Outra dúvida entre motoristas diz respeito ao consumo. O etanol possui menor densidade energética do que a gasolina, mas o impacto efetivo na autonomia depende de diversos fatores, como tecnologia do motor, calibração, condições de tráfego e estilo de condução.
Os estudos citados pelo governo e pela Unica não identificaram alterações relevantes de consumo decorrentes da utilização do E32 nos veículos avaliados. Ainda assim, o comportamento pode variar de acordo com o modelo e as condições de uso.
Mudança também tem impacto no mercado
Além da questão automotiva, o governo relaciona o aumento da participação do etanol à segurança energética. Segundo o MME, a adoção do E32 poderá reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina.
A estratégia também amplia o espaço de um combustível renovável produzido no Brasil e reduz a exposição do mercado nacional às oscilações internacionais do petróleo e dos combustíveis.
O que o motorista deve fazer?
Para quem possui veículo flex e segue as especificações previstas pelo fabricante, não há indicação oficial de mudança no procedimento normal de abastecimento por causa da entrada em vigor do E32.
Já proprietários de veículos antigos, importados ou movidos exclusivamente a gasolina devem consultar o manual do fabricante e, em caso de dúvida sobre a compatibilidade do modelo, procurar uma oficina especializada antes de fazer qualquer alteração na manutenção ou no combustível utilizado.
Enquanto a nova gasolina começa a chegar aos postos, o debate permanece aberto. De um lado, governo e setor produtivo sustentam que os testes realizados demonstraram a viabilidade da mistura. Do outro, o MPF defende que sejam apresentados estudos adicionais e mais abrangentes antes da consolidação da medida.
