O governo brasileiro deve intensificar, a partir desta terça-feira (21), as reuniões com representantes de setores da economia que podem ser afetados pela nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
A movimentação ocorre após o governo de Donald Trump anunciar uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos provenientes do Brasil. A medida foi adotada no âmbito de uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que apontou supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses comerciais americanos.
A decisão elevou a preocupação entre empresas brasileiras que dependem do mercado norte-americano e levou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a discutir alternativas para reduzir os impactos da medida sobre a economia nacional.
Segundo o USTR, a investigação considerou questões relacionadas a comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas ambientais e outras práticas comerciais. O órgão informou que recebeu mais de 360 manifestações durante o processo e realizou audiências públicas antes da decisão.
Governo avalia resposta ao tarifaço
A equipe econômica e integrantes da área diplomática do governo brasileiro vêm analisando os possíveis efeitos das novas tarifas e as alternativas de resposta.
Entre as possibilidades está o uso da chamada Lei da Reciprocidade Econômica, mecanismo aprovado pelo Congresso Nacional que permite ao Brasil adotar medidas contra países que imponham barreiras consideradas injustificadas às exportações brasileiras.
O governo, porém, também busca preservar o canal de diálogo com Washington. Reuniões de alto nível entre autoridades brasileiras e representantes comerciais dos Estados Unidos já ocorreram nos últimos meses, enquanto as duas partes tentam encontrar uma saída para o impasse.
A estratégia de Brasília é avaliar os efeitos da tarifa setor por setor antes de definir eventuais medidas de retaliação.
Setores produtivos acompanham negociações
Representantes da indústria, do agronegócio e de empresas que mantêm negócios com os Estados Unidos estão entre os segmentos que acompanham com maior atenção os desdobramentos.
O temor é que o aumento das tarifas reduza a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano, afetando contratos, exportações e investimentos.
O governo pretende ouvir as empresas para identificar quais cadeias produtivas estão mais expostas e quais produtos podem sofrer maior impacto com a nova política comercial.
A avaliação também considera a possibilidade de redirecionar parte das exportações para outros mercados, caso a permanência das tarifas torne menos vantajosa a venda de determinados produtos para os Estados Unidos.
Estados Unidos justificam medida por questões comerciais
O governo Trump afirma que as novas tarifas são uma resposta a práticas brasileiras consideradas desleais ou prejudiciais ao comércio americano.
Na decisão publicada pelo USTR, o governo dos Estados Unidos citou, entre outros pontos, questões relacionadas ao comércio digital e aos serviços de pagamentos, tratamento tarifário preferencial concedido pelo Brasil a alguns países, proteção de propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e combate ao desmatamento ilegal.
A administração americana considera que essas políticas restringem ou prejudicam interesses comerciais dos Estados Unidos e, por isso, justificariam a adoção de medidas de resposta.
Brasil tenta evitar agravamento da crise
Apesar da possibilidade de adoção de medidas de reciprocidade, o governo brasileiro sinaliza interesse em manter as negociações diplomáticas.
A preocupação é evitar uma escalada da disputa comercial entre os dois países, que poderia elevar custos para empresas e consumidores e afetar cadeias produtivas dos dois lados.
O governo também avalia que uma solução negociada pode reduzir os impactos sobre setores que dependem do comércio bilateral.
Nos últimos meses, autoridades brasileiras e americanas mantiveram uma série de contatos para discutir as divergências comerciais. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que reuniões de alto nível foram realizadas com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, além de encontros técnicos entre as equipes dos dois países.
Próximos passos
A partir das reuniões com os setores produtivos, o governo brasileiro deverá reunir informações para definir quais medidas poderão ser adotadas diante das novas tarifas.
A prioridade é identificar os segmentos mais vulneráveis e avaliar alternativas para reduzir os prejuízos às empresas brasileiras.
Enquanto isso, as negociações com Washington continuam. O governo brasileiro trabalha para encontrar uma solução diplomática, mas mantém aberta a possibilidade de recorrer aos mecanismos previstos na legislação nacional caso não haja avanço nas conversas.
O episódio representa mais um capítulo da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos e coloca o governo Lula diante do desafio de equilibrar a defesa dos interesses dos exportadores brasileiros com a tentativa de preservar a relação econômica e diplomática com o governo Trump.
