O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à segunda metade de 2026 com dificuldades para avançar sua agenda no Congresso Nacional. A articulação política entre o Palácio do Planalto e as lideranças da Câmara dos Deputados e do Senado tem enfrentado obstáculos, enquanto o ambiente eleitoral aumenta a resistência dos parlamentares em torno de temas considerados prioritários pelo Executivo.

Dos projetos definidos pelo governo como parte de sua agenda legislativa para este ano, apenas uma parcela conseguiu avançar pelas duas Casas do Congresso. A situação evidencia a dificuldade do Planalto em construir uma base suficientemente estável para garantir votações de interesse do Executivo em um ano marcado pela disputa eleitoral.

A relação entre governo e Congresso se tornou ainda mais complexa com a proximidade das eleições. Deputados e senadores passaram a concentrar esforços em suas próprias campanhas e nas articulações políticas nos estados, reduzindo o espaço para negociações de projetos considerados mais sensíveis.

Entre os temas que enfrentaram resistência estão propostas relacionadas à regulamentação da inteligência artificial e à atuação econômica das grandes empresas de tecnologia. As matérias são consideradas estratégicas pelo governo, mas dependem de acordos entre diferentes correntes políticas para avançar no Legislativo.

Agenda travada

A dificuldade de articulação também atingiu outras propostas que estavam no radar do Congresso. Projetos relacionados à misoginia, combustíveis, renegociação de dívidas rurais e mudanças nas regras para Microempreendedores Individuais (MEIs) estiveram entre as matérias que encontraram obstáculos para avançar antes do recesso parlamentar.

A falta de consenso entre líderes partidários é apontada como um dos principais fatores para o ritmo mais lento das votações. Em alguns casos, o governo precisa negociar não apenas com partidos da oposição, mas também com integrantes de legendas que formalmente fazem parte da base aliada, mas mantêm autonomia em relação às orientações do Planalto.

O cenário é agravado pela disputa em torno do controle da pauta legislativa. A relação entre Executivo e Legislativo tem sido marcada por negociações sobre emendas parlamentares, vetos presidenciais e prioridades de votação, criando um ambiente em que cada projeto exige uma articulação específica.

Duas pautas conseguem avançar

Apesar das dificuldades, duas iniciativas apontadas como prioritárias pelo governo conseguiram aprovação nas duas Casas legislativas ao longo de 2026. O avanço, no entanto, ficou abaixo das expectativas estabelecidas no início do ano, quando o Executivo projetava uma agenda mais ampla de votações.

Uma das matérias que avançaram no período foi a regulamentação do critério de relevância para a admissão de recursos especiais no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O texto foi aprovado pelo Senado e posteriormente pela Câmara, seguindo para sanção presidencial. A proposta regulamenta uma exigência constitucional relacionada à demonstração da relevância das questões de direito federal para que determinados recursos sejam analisados pelo tribunal.

Outro exemplo de medida que avançou no Congresso foi a Medida Provisória 1.343/2026, que trata de regras relacionadas ao transporte rodoviário de cargas e à Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas. A matéria foi aprovada e encaminhada para a etapa de sanção presidencial.

Governo tenta recuperar espaço

Diante do cenário, a equipe de articulação política do governo tem buscado ampliar o diálogo com presidentes das Casas legislativas e líderes partidários. A estratégia é reduzir conflitos e garantir a votação de matérias consideradas prioritárias antes que o calendário eleitoral limite ainda mais a atividade do Congresso.

Em julho, o governo já havia intensificado as conversas para tentar destravar sessões e organizar a apreciação de pautas pendentes. Entre os assuntos que exigiam negociação estavam vetos presidenciais e matérias com impacto direto sobre setores da economia.

O desafio para o Planalto é conciliar a agenda do governo com os interesses dos parlamentares e, ao mesmo tempo, evitar que temas considerados polêmicos sejam utilizados como instrumentos de disputa política durante o período eleitoral.

Com o calendário de 2026 avançando, a tendência é de que o espaço para grandes votações diminua. A prioridade dos parlamentares passa a ser cada vez mais a construção de alianças e estratégias para as eleições, enquanto o governo terá de selecionar quais projetos ainda podem ser aprovados e concentrar esforços nas matérias com maior possibilidade de consenso.

O resultado é um cenário de baixa previsibilidade para a agenda legislativa do Executivo. Para avançar, o governo precisará intensificar as negociações e encontrar pontos de convergência com um Congresso que, em ano eleitoral, demonstra maior resistência a pautas que possam gerar desgaste político ou dividir suas próprias bases.