O governo brasileiro trabalha com avaliações distintas sobre as duas novas sobretaxas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos nacionais e considera mais difícil reverter a cobrança adicional de 12,5% relacionada ao combate ao trabalho forçado. Nos bastidores, interlocutores do Palácio do Planalto entendem que a medida atinge dezenas de países simultaneamente, o que reduz a margem para uma negociação específica com o Brasil.
Por outro lado, a tarifa extra de 25%, anunciada após uma investigação comercial aberta exclusivamente sobre o Brasil por supostas práticas desleais contra os EUA, é vista como a principal frente de negociação até a primeira quinzena de julho, quando as novas cobranças poderão começar a entrar em vigor.
Segundo relatos de integrantes do governo, a avaliação é de que a sobretaxa de 12,5% funciona como uma alternativa encontrada pela administração de Donald Trump para retomar parte do tarifaço aplicado em 2025, mas que foi derrubado pela Justiça americana. O tema do trabalho forçado teria sido escolhido por reunir amplo consenso internacional e gerar menor resistência política.
Por atingir outras 59 economias além do Brasil, a medida é considerada mais difícil de ser revertida. A leitura no Planalto é que Washington tem menor incentivo para abrir exceções individuais, o que reduz o espaço para uma negociação bilateral.
O cenário é diferente na investigação conduzida sob a Seção 301 da legislação comercial americana, que resultou na proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Como o processo foi direcionado exclusivamente ao Brasil, o governo acredita haver mais espaço para uma negociação direta com os Estados Unidos.
A estratégia brasileira, entretanto, será concentrar as discussões em questões estritamente tarifárias. Segundo integrantes do governo, não há disposição para ampliar a negociação para temas como Pix, regulação das big techs ou exploração de terras raras, assuntos frequentemente mencionados por autoridades americanas.
A expectativa dentro do governo é de que Washington apresente demandas ligadas a setores específicos do comércio bilateral. Um dos temas observados pelos negociadores é o etanol, produto americano que hoje enfrenta tarifa de 18% para entrar no mercado brasileiro. Eventuais concessões, contudo, dependerão da avaliação sobre os impactos para os produtores nacionais.
Os negociadores brasileiros também acompanham os acordos já fechados pelos Estados Unidos com outros países e observam que nenhuma das economias que negociaram com Washington saiu completamente livre de algum tipo de taxação, fator que contribui para uma expectativa moderada sobre os resultados das conversas.
Na próxima semana, uma nova rodada de negociações poderá ocorrer entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
A expectativa dentro do governo é de que o grupo de trabalho criado após o encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, em maio, precise ser prorrogado. A avaliação predominante é de que dificilmente haverá um acordo definitivo antes de julho, o que deve manter as negociações em andamento até o prazo previsto para o início das tarifas ou até além dele, caso as partes estejam próximas de uma solução.
