O custo do crédito para as famílias brasileiras voltou a subir e atingiu um dos níveis mais elevados dos últimos meses. Dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (30) mostram que a taxa média de juros das operações de crédito livre para pessoas físicas chegou a 64% ao ano em junho, alta de 1,2 ponto percentual em relação a maio.
Na comparação com junho de 2025, o avanço foi de 4,6 pontos percentuais. Segundo o Banco Central, um dos principais fatores para a elevação foi o aumento dos juros cobrados no crédito pessoal não consignado, cuja taxa subiu 7 pontos percentuais no período.
O cenário aumenta a preocupação para consumidores que dependem de empréstimos, financiamentos ou do cartão de crédito para equilibrar as contas. Com juros elevados, uma dívida que inicialmente parece pequena pode crescer rapidamente quando é parcelada ou refinanciada.
Inadimplência também permanece elevada
Os números do Banco Central mostram que o problema não está apenas no custo dos empréstimos. A inadimplência entre as pessoas físicas também continua pressionada.
Em junho, 5,6% da carteira de crédito destinada às famílias estava inadimplente, considerando o sistema financeiro como um todo. O índice ficou estável em relação a maio, mas aumentou 1,2 ponto percentual em 12 meses.
No chamado crédito livre, que inclui modalidades como empréstimos e financiamentos negociados diretamente pelas instituições financeiras, a inadimplência das famílias chegou a 7,6%, alta de 1,1 ponto percentual em um ano.
Famílias comprometem quase 30% da renda
Outro indicador chama atenção: o percentual da renda das famílias destinado ao pagamento de dívidas chegou a 28,5% em maio.
O número representa crescimento de 0,1 ponto percentual em relação a abril e de 1,3 ponto percentual na comparação com maio do ano passado.
O endividamento das famílias ficou em 49,8%, com pequena redução mensal, mas alta de 0,9 ponto percentual em 12 meses.
Na prática, quase metade das famílias brasileiras tinha algum tipo de dívida dentro do conceito utilizado pelo Banco Central, enquanto uma parcela significativa da renda mensal já estava comprometida com o pagamento dessas obrigações.
Impacto pode ser sentido em Alagoas
O cenário nacional merece atenção em Alagoas, principalmente porque as famílias do estado também convivem com níveis elevados de endividamento.
Em Maceió, levantamento divulgado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Alagoas (Fecomércio-AL), em parceria com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), apontou que 80,1% das famílias estavam endividadas em março de 2025. Naquele período, 39,2% também estavam inadimplentes.
Embora os números sejam de períodos diferentes e não possam ser comparados diretamente com os dados mais recentes do Banco Central, o indicador ajuda a mostrar a dimensão do problema no mercado consumidor da capital alagoana.
Com juros mais altos, famílias que já possuem parcelas, empréstimos ou faturas acumuladas podem encontrar mais dificuldade para reorganizar o orçamento.
O impacto também pode chegar ao comércio. Quando uma parcela maior da renda é direcionada para o pagamento de dívidas, sobra menos dinheiro para compras, lazer e outros gastos, o que pode reduzir o ritmo do consumo.
Crédito pessoal é um dos pontos de maior pressão
Entre as modalidades acompanhadas pelo Banco Central, o crédito pessoal não consignado aparece como um dos principais responsáveis pelo aumento da taxa média.
Diferentemente do consignado, o empréstimo não consignado não possui desconto automático das parcelas no salário ou benefício do tomador. Por isso, as instituições financeiras costumam considerar maior o risco da operação e podem cobrar taxas mais elevadas.
O próprio Banco Central mantém uma ferramenta que permite consultar as taxas praticadas pelas instituições financeiras em diferentes modalidades de crédito. Os dados mostram, por exemplo, que as taxas do consignado podem ser significativamente inferiores às de outras linhas de crédito, dependendo do banco e do perfil do cliente.
Saldo de crédito das famílias cresce
Mesmo com o encarecimento das operações, o volume de crédito destinado às famílias continua avançando.
O estoque de crédito para pessoas físicas chegou a R$ 4,6 trilhões em junho, crescimento de 0,2% no mês e de 10,8% em 12 meses.
No crédito livre destinado às pessoas físicas, o saldo ficou em R$ 2,5 trilhões. O montante cresceu 11,2% em um ano, embora tenha recuado 0,1% na comparação com maio.
Os números mostram, portanto, uma combinação de expansão do mercado de crédito com custo elevado para o consumidor.
Cenário exige cuidado antes de contratar empréstimos
Para quem precisa recorrer ao crédito, especialistas em educação financeira costumam recomendar atenção ao custo efetivo da operação, e não apenas ao valor da parcela.
Uma prestação aparentemente baixa pode representar um custo total muito maior quando o prazo é longo e a taxa de juros é elevada.
Antes de contratar um empréstimo ou parcelar uma dívida, o consumidor deve verificar o valor total que será pago, comparar diferentes instituições financeiras e avaliar se a nova parcela realmente cabe no orçamento.
Em um cenário de juros médios de 64% ao ano no crédito livre para pessoas físicas, a escolha da modalidade e das condições do contrato pode fazer uma diferença significativa no valor final da dívida.
Para as famílias alagoanas, especialmente aquelas que já estão endividadas, o momento reforça a importância de evitar o efeito conhecido como “bola de neve”: contratar uma nova dívida para quitar outra sem que haja redução efetiva do comprometimento da renda.
