A expansão da inteligência artificial (IA) está mudando a forma como as pessoas estudam, trabalham e se relacionam com a tecnologia. Diante desse cenário, especialistas defendem que garantir acesso à internet e a equipamentos não é mais suficiente: é necessário preparar crianças, jovens e adultos para utilizar as ferramentas digitais de maneira crítica, segura e consciente.
A discussão ganhou destaque em meio ao avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de produzir textos, imagens, códigos e outros conteúdos em poucos segundos. Para educadores, o desafio das escolas passou a ser também ensinar os estudantes a compreender como essas tecnologias funcionam, reconhecer seus limites e avaliar criticamente as informações produzidas por elas.
A preocupação tem reflexos importantes em Alagoas, onde a educação digital passou a integrar formalmente as discussões curriculares do sistema de ensino.
Alagoas estabelece novas diretrizes
Em abril de 2026, o Conselho Estadual de Educação de Alagoas aprovou a Resolução nº 10/2026, que estabelece diretrizes para a implementação da Educação Digital e da Computação na Educação Básica do estado.
A norma prevê a integração das competências da BNCC Computação aos currículos e destaca três eixos: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. A regulamentação também determina que as propostas pedagógicas considerem a idade dos estudantes, seu desenvolvimento e os recursos tecnológicos disponíveis em cada escola.
A mudança ocorre em um momento em que a inteligência artificial começa a fazer parte cada vez mais cedo da rotina dos estudantes. Ferramentas de IA podem auxiliar em pesquisas e atividades escolares, mas também levantam questões relacionadas à autoria, privacidade, desinformação, dependência tecnológica e desigualdade de acesso.
Inclusão digital não termina com o acesso
O conceito de inclusão digital vem mudando. Se antes o principal desafio era colocar o cidadão diante de um computador ou garantir conexão à internet, atualmente a preocupação é também desenvolver competências para que essa pessoa consiga utilizar a tecnologia de maneira produtiva e responsável.
Isso significa saber pesquisar, verificar informações, proteger dados pessoais, reconhecer conteúdos manipulados e compreender que uma resposta produzida por uma ferramenta de inteligência artificial nem sempre está correta.
No ambiente escolar, a presença da IA também exige mudanças na relação entre professores e alunos. Em vez de simplesmente proibir o uso das ferramentas, especialistas defendem que elas sejam discutidas e utilizadas dentro de critérios pedagógicos, com acompanhamento dos educadores.
Impacto para os estudantes alagoanos
Para os alunos da rede pública de Alagoas, a discussão ganha importância diante das diferenças de acesso à tecnologia existentes entre famílias, escolas e municípios.
A política estadual de educação digital estabelece que a formação deve contemplar não apenas o uso de equipamentos, mas também competências relacionadas à cultura digital, pensamento computacional e compreensão do mundo tecnológico.
O objetivo é evitar que a inteligência artificial amplie desigualdades já existentes. Um estudante que possui internet de qualidade, computador, orientação familiar e contato frequente com ferramentas digitais parte de uma condição diferente daquele que depende exclusivamente dos recursos disponibilizados pela escola.
Por isso, a escola passa a ter um papel ainda mais importante na democratização do conhecimento tecnológico.
Maceió amplia formação em tecnologia
Na capital alagoana, iniciativas de formação tecnológica também vêm ganhando escala.
O programa Tech Massa, da Prefeitura de Maceió, alcançou em 2026 a marca de 19 mil alunos atendidos nas duas fases do projeto, oferecendo formação gratuita em tecnologia e empreendedorismo em diferentes bairros da cidade.
A estrutura municipal também conta com a Maceió Digital, empresa pública criada para atuar com tecnologia e inclusão digital. Entre os objetivos estão a ampliação do acesso gratuito à internet, a promoção da educação digital e a redução de barreiras para o acesso da população às novas tecnologias.
Essas iniciativas mostram que a discussão sobre inteligência artificial não está restrita às universidades ou às grandes empresas de tecnologia. Ela já chegou às políticas públicas de educação e inclusão digital.
Projeto prevê Escola de Tecnologia e IA para jovens
Outro movimento que repercutiu em Alagoas ocorreu na Assembleia Legislativa. Em maio deste ano, os deputados aprovaram em primeiro turno um projeto que propõe a criação da Escola de Tecnologia e Inteligência Artificial para Jovens.
A proposta prevê cursos de programação, inteligência artificial, robótica e segurança digital destinados a estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública estadual.
A iniciativa evidencia uma preocupação crescente: preparar os jovens não apenas para consumir tecnologia, mas também para compreender e desenvolver soluções dentro da chamada economia digital.
Professor continua no centro do processo
Mesmo com o avanço da IA, a tecnologia não substitui o papel do professor no processo de aprendizagem.
A tendência apontada por especialistas é que o educador passe a atuar cada vez mais como mediador, ajudando o aluno a formular perguntas, avaliar respostas e desenvolver autonomia intelectual.
Em uma atividade escolar, por exemplo, utilizar uma ferramenta de IA para produzir um texto pode ser apenas o ponto de partida. O aprendizado acontece quando o estudante consegue analisar o conteúdo, identificar possíveis erros, comparar fontes, argumentar e produzir conhecimento próprio.
Essa mudança também exige investimento na formação dos professores. Sem profissionais preparados para lidar com as novas ferramentas, a tecnologia corre o risco de ser incorporada às escolas apenas como mais um recurso, sem transformar efetivamente o processo educacional.
Desafio também envolve segurança
Outro ponto que ganhou importância com a popularização da inteligência artificial é a proteção de dados.
Crianças e adolescentes precisam aprender que informações pessoais, fotografias, documentos, senhas e outros dados não devem ser compartilhados indiscriminadamente com plataformas digitais.
A educação para o uso da IA envolve, portanto, uma combinação de conhecimento tecnológico, ética, cidadania digital e segurança.
O futuro da educação já começou
A discussão sobre inclusão digital chega a uma nova etapa. O desafio agora não é apenas garantir que o estudante tenha internet ou um dispositivo eletrônico, mas assegurar que ele tenha conhecimento para utilizar a tecnologia a seu favor.
Em Alagoas, as novas diretrizes estaduais, os programas de capacitação em Maceió e as propostas voltadas à formação em inteligência artificial mostram que o estado já começa a adaptar sua educação a essa realidade.
A principal preocupação, porém, permanece: fazer com que a revolução tecnológica seja acompanhada por uma revolução no conhecimento.
Na era da inteligência artificial, incluir digitalmente significa também ensinar a questionar, verificar, criar, proteger-se e pensar por conta própria.
