Uma operação deflagrada pela Polícia Civil de Pernambuco colocou Alagoas no centro de uma investigação sobre fraude em concursos públicos. Batizada de Operação Fora de Forma, a ação cumpriu um dos 12 mandados de busca e apreensão no município de União dos Palmares, na Zona da Mata alagoana, nesta quarta-feira (26).
A investigação apura a existência de uma associação criminosa especializada em fraudar concursos públicos, especialmente o certame da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE). Segundo as autoridades, o grupo utilizava pessoas com aparência semelhante aos candidatos inscritos para realizar provas e outras etapas no lugar deles — prática conhecida como “dublê”.
As diligências foram realizadas simultaneamente em Pernambuco, Paraíba, Ceará e Alagoas. Além de União dos Palmares, houve cumprimento de ordens judiciais em municípios como Jaboatão dos Guararapes, Santa Cruz do Capibaribe, Floresta, Mirandiba e Petrolina, em Pernambuco; São José de Piranhas e Princesa Isabel, na Paraíba; e Porteiras, no Ceará.
Como funcionava o esquema
De acordo com as informações divulgadas pela Polícia Civil de Pernambuco, a organização teria desenvolvido uma estrutura para permitir que candidatos fossem substituídos durante etapas do concurso.
As investigações começaram em setembro de 2025 e identificaram, até o momento, dez pessoas diretamente relacionadas ao mecanismo de substituição. Segundo informações divulgadas pela imprensa alagoana, cinco delas seriam os chamados “clones” ou “dublês”, responsáveis por realizar as provas, enquanto outras cinco seriam candidatos que teriam contratado ou se beneficiado do esquema.
Um dos casos investigados envolve um soldado da Polícia Militar de Pernambuco, apontado como beneficiário do esquema. Segundo as informações divulgadas, ele teria ingressado na corporação após utilizar um “dublê” no concurso realizado em 2024.
A investigação ainda está em andamento e a condição dos envolvidos é de investigados, não havendo, até o momento, condenação judicial pelos fatos apurados.
Agentes públicos estão entre os investigados
O caso ganhou ainda mais repercussão porque a investigação identificou indícios de participação de agentes estatais na execução das fraudes.
Segundo a Polícia Civil de Pernambuco, entre os investigados estão servidores ligados às Polícias Militares de Pernambuco, Paraíba e Ceará, além de servidores do Ministério Público da Paraíba.
A presença de agentes públicos entre os investigados amplia a preocupação das autoridades, já que o esquema teria como alvo concursos destinados ao preenchimento de cargos públicos e, em especial, uma seleção para ingresso na Polícia Militar.
O que foi apreendido
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam diversos materiais que podem ajudar a esclarecer o funcionamento da organização.
Entre os itens recolhidos estão:
- celulares;
- tablets;
- notebooks;
- computadores e CPUs;
- documentos;
- identidades e CPFs;
- cartões de crédito;
- câmeras de segurança;
- munições.
O material será submetido à análise e poderá fornecer novas informações sobre a participação de suspeitos e a extensão do esquema.
União dos Palmares entra no mapa da investigação
A presença de um mandado em União dos Palmares coloca Alagoas diretamente na investigação interestadual.
Embora a operação tenha como principal foco o concurso da Polícia Militar de Pernambuco, a participação de pessoas localizadas em outros estados mostra que a estrutura investigada teria atuação além das fronteiras pernambucanas.
Para Alagoas, o caso também chama atenção porque ocorre em um momento de forte procura por concursos públicos e de crescente preocupação das instituições com mecanismos utilizados para tentar burlar processos seletivos.
A participação da Polícia Civil de Alagoas na operação demonstra o caráter integrado da apuração. A ação contou ainda com unidades especializadas e órgãos de inteligência de Pernambuco, Paraíba e Ceará, além da Rede Nacional de Unidades Especializadas de Enfrentamento das Organizações Criminosas (RENORCRIM).
Investigação começou em 2025
As primeiras informações que deram origem à Operação Fora de Forma surgiram em setembro do ano passado. Desde então, os investigadores passaram a levantar informações sobre uma possível associação criminosa especializada em fraudes em certames de interesse público.
O objetivo da operação realizada nesta semana foi avançar na coleta de provas, identificar os envolvidos e compreender a estrutura utilizada para substituir candidatos durante as etapas dos concursos.
Os mandados foram autorizados pelo Juízo da Vara dos Crimes Contra a Administração Pública e a Ordem Tributária do Recife.
Concurso da PM de Pernambuco é o principal alvo
O concurso investigado é o da Polícia Militar de Pernambuco, cujo edital foi publicado no fim de 2023 e teve provas objetivas realizadas em janeiro de 2024.
A suspeita é de que candidatos tenham recorrido ao esquema para obter vantagem indevida em diferentes etapas do processo seletivo.
A investigação busca determinar não apenas quem teria participado das substituições, mas também qual foi a extensão da fraude e se outros candidatos ou servidores podem estar envolvidos.
Repercussão
A Operação Fora de Forma repercutiu nos principais veículos de comunicação de Pernambuco e Alagoas justamente pela dimensão interestadual da investigação.
A operação também chama atenção para um problema que ultrapassa a realização de uma prova: fraudes em concursos podem comprometer a própria legitimidade dos processos de seleção para cargos públicos.
No caso das carreiras policiais, a preocupação é ainda maior, já que os concursos são utilizados para selecionar profissionais que exercerão funções diretamente relacionadas à segurança pública.
A descoberta de um esquema com candidatos substitutos reforça a necessidade de mecanismos de identificação e fiscalização cada vez mais rigorosos durante provas e demais etapas dos concursos.
Caso ainda pode ter novos desdobramentos
A Operação Fora de Forma não encerra as investigações. O material apreendido deverá passar por análise e poderá levar à identificação de novos envolvidos ou revelar outras etapas do suposto esquema.
Até o momento, as autoridades não divulgaram todos os detalhes sobre a participação de cada investigado nem informaram se haverá novas medidas judiciais.
Em Alagoas, o cumprimento do mandado em União dos Palmares mantém a atenção das autoridades locais sobre possíveis ramificações da organização criminosa no estado.
As investigações seguem sob responsabilidade da Polícia Civil de Pernambuco, com participação das forças de segurança dos estados envolvidos.
