A Polícia Federal (PF) solicitou à Agência Nacional do Cinema (Ancine) informações sobre o filme “Dark Horse”, produção que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A solicitação faz parte da investigação aberta para esclarecer a origem e a destinação de recursos utilizados na realização do longa.
A Ancine terá prazo de 10 dias para apresentar informações à PF, incluindo dados sobre o registro da produção, as condições em que o filme foi realizado no Brasil e eventual utilização de recursos públicos.
O longa, dirigido pelo cineasta Cyrus Nowrasteh, tem o ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. A história acompanha principalmente a ascensão política do ex-presidente durante a campanha eleitoral de 2018 e o atentado sofrido por ele em Juiz de Fora, em Minas Gerais.
Investigação mira financiamento do filme
A apuração ganhou força após informações sobre recursos que teriam sido destinados à produção por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar os repasses relacionados ao projeto. A medida ocorreu após pedido da própria PF e manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Um dos pontos investigados é o repasse de aproximadamente R$ 61 milhões relacionado ao financiamento do filme. A PF busca esclarecer a origem do dinheiro e como os valores foram efetivamente utilizados.
A investigação também apura se parte dos recursos destinados ao projeto teria sido empregada em outras finalidades. Até o momento, não há conclusão da PF sobre eventual crime, e os fatos permanecem sob investigação.
Ancine já havia identificado irregularidades
Além da investigação financeira, a produção enfrenta questionamentos na esfera regulatória.
A Ancine abriu processo administrativo contra a Go Up Entertainment, responsável pela produção, por suspeitas de descumprimento das regras para filmagens de obras estrangeiras no território brasileiro.
De acordo com a regulamentação da agência, produções estrangeiras que realizam gravações no Brasil precisam fazer comunicação prévia às autoridades competentes. Segundo a Ancine, esse procedimento não teria sido cumprido pela produção de “Dark Horse”.
A eventual infração pode resultar em sanções administrativas, incluindo multa.
Posteriormente, a produção recebeu o Registro de Obra Estrangeira (ROE), etapa necessária para a tramitação do filme com vistas à exibição comercial no Brasil. O registro, porém, não encerra as demais apurações relacionadas à produção e ao financiamento.
Filme ganhou repercussão no cenário político
O caso passou a ter peso também no cenário eleitoral de 2026 porque o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, aparece associado às negociações envolvendo o financiamento da produção e é pré-candidato à Presidência da República.
Flávio afirmou que não houve irregularidade e que a prestação de contas relativa aos recursos seria apresentada. Até agora, entretanto, a discussão sobre a origem e a aplicação do dinheiro continua sendo alvo de investigação.
O episódio também provocou reação de adversários políticos. O PT vem cobrando explicações do senador sobre os recursos relacionados ao filme, enquanto aliados de Flávio sustentam que as acusações precisam ser analisadas dentro do devido processo legal.
Produção ainda não chegou aos cinemas
“Dark Horse” é uma produção internacional e foi gravado parcialmente no Brasil. O filme tem previsão de lançamento após o período eleitoral de outubro.
A obra apresenta uma versão cinematográfica da trajetória de Bolsonaro, com foco em sua campanha presidencial de 2018, no atentado à faca sofrido durante a disputa e na chegada ao Palácio do Planalto.
A escolha de Jim Caviezel para interpretar Bolsonaro também chamou atenção internacionalmente. O ator é conhecido principalmente por interpretar Jesus no filme “A Paixão de Cristo”, de 2004.
O que a PF quer esclarecer
Com o pedido de informações à Ancine, os investigadores buscam reunir dados que possam ajudar a reconstruir a trajetória financeira e administrativa da produção.
Entre os pontos de interesse estão:
- como o filme foi registrado perante a Ancine;
- quais empresas participaram oficialmente da produção;
- onde e em quais condições as gravações foram realizadas no Brasil;
- quais recursos foram declarados para a realização do longa;
- se houve utilização de dinheiro público;
- e quais informações financeiras foram apresentadas às autoridades responsáveis pela fiscalização do setor audiovisual.
A solicitação à Ancine não significa que a Polícia Federal tenha concluído pela existência de irregularidades no financiamento. O objetivo da investigação é justamente reunir elementos para esclarecer a origem dos recursos, a movimentação financeira e a eventual existência de ilícitos.
O caso agora envolve diferentes frentes de apuração, com a PF investigando a movimentação dos recursos, o STF acompanhando o inquérito e a Ancine analisando aspectos regulatórios relacionados à produção.
