A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master ganhou novos contornos nesta semana após a divulgação de documentos que detalham a relação do senador Jaques Wagner (PT-BA) com empresários ligados à instituição financeira.

Relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) apontam uma relação de proximidade entre Wagner e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. Segundo a PF, o relacionamento teria ultrapassado a esfera pessoal e alcançado discussões políticas e legislativas relacionadas aos interesses do banco.

Os documentos foram tornados públicos pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão em junho, durante a nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes e irregularidades envolvendo o Banco Master.

Relação pessoal chamou atenção dos investigadores

De acordo com a PF, Wagner e Augusto Lima mantiveram uma relação próxima durante anos. A análise dos dados telefônicos identificou 74 ligações entre os dois, realizadas entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversas.

Os investigadores também encontraram registros de encontros entre familiares. Um dos episódios citados ocorreu em outubro de 2023, quando Wagner e a mulher teriam aceitado um convite para passar um fim de semana em uma propriedade conhecida como Ilha da Paixão, então ligada a Augusto Lima. A viagem teria sido realizada em uma aeronave relacionada ao empresário.

A PF também identificou uma lista de pessoas que receberiam presentes de fim de ano, elaborada por uma secretária de Augusto Lima. Entre os nomes estavam Jaques Wagner, além de outras autoridades e políticos da Bahia e do cenário nacional.

PF investiga possível atuação em favor do banco

Outro ponto destacado nos documentos é o acompanhamento, por Wagner, de informações relacionadas aos negócios do Banco Master.

Segundo a investigação, Augusto Lima enviava ao senador notícias sobre mudanças na estrutura acionária do banco, melhora na classificação de risco, negociações envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB) e movimentações no Senado relacionadas à instituição.

A PF também identificou reações de Wagner às mensagens, incluindo o uso de emojis de aprovação e oração. Para os investigadores, o conjunto das conversas indica um padrão recorrente de interlocução sobre assuntos de interesse do Master.

A corporação também cita a chamada “Emenda Master”, relacionada à PEC 63/2023, que previa ampliar para R$ 1 milhão por pessoa física o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A proposta havia sido apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). De acordo com a PF, Wagner teria acompanhado diretamente a tramitação do tema, enquanto Vorcaro o consideraria um “aliado político” no Congresso.

Reunião no gabinete do Senado

Os relatórios ainda mencionam encontros entre Wagner e Augusto Lima no gabinete do senador.

Em abril de 2024, segundo a PF, Wagner teria sugerido que uma reunião ocorresse no próprio gabinete por considerar o local mais reservado. A conversa também mencionaria a possível participação do advogado-geral da União, Jorge Messias.

Messias, porém, negou ter participado de qualquer reunião com Augusto Lima no gabinete do senador.

Apartamento, viagens e ingressos

Entre os possíveis benefícios que estão sendo analisados pela Polícia Federal está a aquisição de um apartamento em Salvador avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões.

Os investigadores sustentam que Wagner teria encaminhado a Augusto Lima informações sobre um empreendimento imobiliário, incluindo dados da unidade e do responsável pela venda. A partir daí, operadores financeiros ligados ao grupo teriam participado das tratativas para estruturar a aquisição.

A PF também cita o uso de aeronaves, presentes e ingressos para eventos. Em um dos casos, investigadores identificaram a compra de ingressos para um show da cantora Taylor Swift, no valor total de R$ 63.339, por uma empresa ligada ao grupo investigado.

Em outra frente, a investigação aponta um pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Augusto Lima para pessoas do núcleo familiar de Jaques Wagner, informação também mencionada em decisões judiciais relacionadas ao caso.

O que Jaques Wagner diz

Jaques Wagner nega ter cometido irregularidades ou ter atuado de forma indevida em favor do Banco Master. Em manifestações anteriores, o senador também negou ter recebido vantagens ilícitas relacionadas à instituição.

A investigação, no entanto, permanece em andamento e os documentos divulgados pela PF apresentam elementos que ainda serão analisados pela Justiça. Até o momento, as suspeitas levantadas pelos investigadores não representam, por si só, uma condenação ou comprovação definitiva de crime.