A possibilidade de um novo episódio de El Niño nos próximos meses colocou pesquisadores e órgãos de monitoramento climático em estado de atenção em Alagoas. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por meio do Sistema de Radar Meteorológico de Alagoas (Sirmal), acompanha diariamente a evolução do fenômeno e avalia seus possíveis reflexos sobre o regime de chuvas, as temperaturas e a disponibilidade hídrica em diferentes regiões do estado.

Os dados mais recentes divulgados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial já atingiu níveis compatíveis com o estabelecimento do El Niño. A agência estima 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre os meses de novembro e janeiro, além de apontar chances superiores a 97% de sua permanência ao longo dos próximos trimestres.

Embora o El Niño seja um evento de alcance global, seus efeitos variam conforme cada região. No Nordeste brasileiro, o comportamento histórico aponta para uma tendência de redução das chuvas e aumento das temperaturas, cenário que pode afetar diretamente a agricultura, o abastecimento de água, a pecuária e a gestão dos recursos hídricos.

O que pode mudar em Alagoas

Especialistas explicam que os impactos não devem ocorrer de maneira uniforme em todo o território alagoano. O Sertão aparece como a região mais vulnerável devido à forte dependência das chuvas para abastecimento dos reservatórios, produção agrícola e criação de animais.

No Agreste, os efeitos também podem ser sentidos, principalmente na agricultura familiar, enquanto o Litoral e a Zona da Mata tendem a sofrer influência menor por conta da atuação de sistemas meteorológicos associados ao Oceano Atlântico, que ajudam a manter parte das precipitações.

Além da possibilidade de estiagens mais prolongadas, um cenário de temperaturas acima da média pode aumentar a evaporação dos reservatórios, elevar o consumo de água e favorecer a ocorrência de queimadas em áreas de vegetação seca.

Ciência a serviço da prevenção

O acompanhamento realizado pela Ufal vai além da pesquisa acadêmica. O radar meteorológico instalado na universidade monitora, em tempo real, os sistemas de chuva que atuam sobre Alagoas e estados vizinhos, produzindo informações que auxiliam órgãos como a Defesa Civil, secretarias estaduais, gestores municipais e instituições responsáveis pela gestão dos recursos hídricos.

As informações geradas pelo sistema permitem antecipar cenários climáticos, apoiar a emissão de alertas e contribuir para o planejamento de ações preventivas em períodos de maior risco climático. A universidade também desenvolve projetos voltados ao aperfeiçoamento da previsão de eventos extremos e ao fortalecimento do Observatório Climático de Alagoas, ampliando o uso de tecnologias para monitoramento ambiental.

Reflexos para a economia alagoana

Caso o fenômeno se confirme com maior intensidade, especialistas avaliam que os setores mais sensíveis serão a agricultura, especialmente as lavouras dependentes das chuvas, a pecuária e o abastecimento de água nas regiões do semiárido.

Municípios do Sertão poderão exigir acompanhamento mais rigoroso dos níveis dos reservatórios e adoção de medidas para uso racional da água, enquanto produtores rurais deverão acompanhar atentamente as previsões meteorológicas para reduzir prejuízos.

Ao mesmo tempo, pesquisadores destacam que o monitoramento constante permite que o poder público planeje ações antecipadas, minimizando impactos econômicos e sociais caso o fenômeno avance nos próximos meses.

Monitoramento continuará nos próximos meses

A evolução do El Niño será acompanhada continuamente pelos centros meteorológicos nacionais e internacionais. Em Alagoas, a Ufal afirma que seguirá monitorando os indicadores climáticos e compartilhando informações com os órgãos responsáveis pela prevenção e resposta a eventos extremos.

Apesar dos alertas, os pesquisadores ressaltam que ainda é cedo para prever exatamente a intensidade dos impactos em cada município, uma vez que outros fatores atmosféricos também influenciam o comportamento das chuvas no estado. O consenso entre os especialistas, porém, é que o acompanhamento permanente será fundamental para orientar decisões e reduzir possíveis prejuízos para a população alagoana.