O impacto do uso de celulares, computadores, tablets e outros dispositivos eletrônicos sobre a saúde mental de crianças e adolescentes já faz parte das discussões em 80% das escolas brasileiras, segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil nesta terça-feira (4).

O avanço do debate ocorre em meio a uma preocupação crescente de educadores, famílias e especialistas com a relação entre o tempo de exposição às telas, bem-estar emocional, sono, atenção e convivência social de estudantes.

O assunto também tem relevância para Alagoas, onde o uso de dispositivos por crianças e adolescentes já entrou na agenda de órgãos públicos e instituições ligadas à educação e à proteção da infância.

Em 2025, representantes do Governo de Alagoas e da Presidência da República participaram de discussões em Maceió e Arapiraca sobre os cuidados relacionados ao uso de celulares e outros dispositivos durante a infância e a adolescência.

Escolas passam a discutir efeitos das telas

O ambiente escolar se tornou um dos principais espaços para abordar o problema porque é justamente onde professores conseguem observar mudanças de comportamento, dificuldades de concentração e impactos na rotina dos estudantes.

A discussão, porém, não significa tratar a tecnologia como vilã.

O desafio está em encontrar um equilíbrio entre os benefícios pedagógicos dos recursos digitais e os possíveis prejuízos associados ao uso excessivo ou inadequado.

Especialistas defendem que a escola trabalhe educação digital, estabeleça limites claros e estimule atividades que favoreçam a convivência, a criatividade e o desenvolvimento emocional dos alunos.

Celular nas escolas ganhou novas regras

O debate ganhou força nacional após a entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que estabeleceu regras para o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nas escolas de educação básica.

A legislação restringe o uso desses dispositivos durante aulas, recreios e intervalos, com exceções previstas para situações específicas, como atividades pedagógicas, acessibilidade, inclusão e necessidades de saúde.

Em 2026, o Ministério da Educação passou a acompanhar os efeitos da legislação e anunciou uma pesquisa nacional para avaliar seus desdobramentos nas escolas.

A medida colocou no centro das discussões uma questão que vai além da sala de aula: como permitir que crianças e adolescentes tenham acesso à tecnologia sem transformar o celular em uma presença permanente na rotina?

Alagoas já debate proteção no ambiente digital

No estado, a preocupação com a relação entre crianças, adolescentes e tecnologia também vem sendo discutida por gestores públicos.

Em julho de 2025, um encontro realizado em Alagoas reuniu representantes para discutir a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, com foco na educação digital e midiática e na segurança das novas gerações na internet.

A discussão envolve não apenas o tempo de uso, mas também o tipo de conteúdo consumido, a exposição nas redes sociais, os riscos de violência digital e a necessidade de preparar estudantes para lidar de forma mais segura com o ambiente virtual.

Impactos podem aparecer na aprendizagem

A preocupação também está relacionada ao desempenho escolar.

Estudos sobre o uso excessivo de telas apontam associações com dificuldades de atenção, alterações no sono e prejuízos no desempenho acadêmico, embora os efeitos variem conforme idade, contexto familiar, tipo de conteúdo e padrão de utilização.

Uma revisão integrativa publicada em 2025 identificou, entre os efeitos associados ao uso prolongado de telas por crianças e adolescentes, sintomas visuais, distúrbios do sono e queda no desempenho escolar.

Pesquisa realizada com professores também apontou percepção de dificuldades de aprendizagem relacionadas ao uso excessivo de telas. No levantamento, 80% dos docentes entrevistados disseram perceber melhora no desempenho escolar quando o uso dos dispositivos era limitado.

Os dados, porém, não significam que toda utilização de tecnologia produza efeitos negativos. O contexto e a maneira como os dispositivos são utilizados são fatores importantes.

Saúde mental exige atenção

O alerta das escolas também está ligado ao bem-estar emocional dos estudantes.

A relação entre tecnologia e saúde mental é complexa e envolve fatores como sono, isolamento, relações familiares, exposição a conteúdos inadequados, cyberbullying e uso compulsivo de redes sociais.

Por isso, especialistas defendem que a discussão não seja reduzida apenas à quantidade de horas diante de uma tela.

A qualidade do conteúdo acessado, os horários de utilização, a presença de adultos responsáveis e a manutenção de atividades fora do ambiente digital também devem fazer parte da avaliação.

Família tem papel decisivo

Para especialistas, a escola sozinha não consegue solucionar os desafios relacionados ao excesso de telas.

A participação dos pais ou responsáveis é fundamental para estabelecer uma rotina equilibrada, acompanhar o conteúdo acessado pelos filhos e incentivar atividades que não dependam de aparelhos eletrônicos.

Brincadeiras, esportes, leitura, convivência familiar e interação presencial são exemplos de atividades que podem ajudar a equilibrar a rotina digital.

O diálogo também é considerado importante para que crianças e adolescentes entendam por que determinados limites são estabelecidos.

Tecnologia continua sendo ferramenta importante

Apesar dos alertas, especialistas não defendem a eliminação da tecnologia do cotidiano escolar.

Recursos digitais podem ampliar o acesso à informação, apoiar atividades pedagógicas e criar novas possibilidades de aprendizagem.

O desafio para as escolas é utilizar essas ferramentas de maneira planejada, evitando que o dispositivo passe a competir permanentemente com a atenção do estudante.

Em Alagoas, o debate ganha importância diante da necessidade de conciliar inclusão digital, aprendizagem e proteção de crianças e adolescentes.

Repercussão para Alagoas

A discussão nacional sobre saúde mental e telas reforça a necessidade de ampliar ações de educação digital e midiática nas escolas alagoanas, além de aproximar as redes de ensino das famílias e dos serviços de saúde.

O tema também pode ganhar espaço nas políticas públicas estaduais e municipais, principalmente em iniciativas de prevenção e identificação precoce de situações que afetem o bem-estar emocional de estudantes.

Mais do que proibir o celular, o desafio é construir uma relação mais saudável com a tecnologia — dentro e fora da escola.

Para pais, professores e gestores, a discussão deixa uma pergunta cada vez mais presente na rotina escolar: como preparar uma geração hiperconectada para usar a tecnologia sem deixar que ela ocupe o espaço da aprendizagem, do sono, das relações humanas e da saúde mental?