Antes uma verdadeira sensação nas casas das famílias brasileiras entre as décadas de 1950 e 1990, as vitrolas e os discos de vinil estão retornando com força entre saudosistas e entusiastas daquele “chiadozinho” característico das agulhas deslizando sobre os sulcos dos LPs.
Em plena era da tecnologia, em que os streamings se consolidaram como os maiores difusores da música atual, os vinis reencontraram um novo momento cultural e vêm ressurgindo como uma verdadeira fênix, trazendo consigo clássicos da música nordestina, brasileira e internacional.
Na capital do Agreste alagoano, Arapiraca, não tem sido diferente. As feiras de discos têm acontecido com frequência pela cidade e os precursores desse movimento na Terra de Manoel André, Carlos Eduardo Santos e Geneton Araújo, conhecido por muitos como Júpiter, têm proporcionado aos fãs dos famosos “bolachões” um verdadeiro garimpo pelos grandes clássicos “das antigas”, ampliando o leque de opções artísticas.
São centenas de títulos e artistas, passando por diversas vertentes musicais: do Blues ao Baião, do Iê-Iê-Iê à Seresta, do Country ao Sertanejo, do Jazz à Bossa Nova, do Rock ao Axé, do Samba ao Forró e muito mais.

Garimpar discos tornou-se uma oportunidade única de encontrar verdadeiras relíquias, ou como diriam os mais antigos, “pedradas” musicais. Além disso, os encontros promovem trocas de experiências, despertam o interesse por novos sons e aproximam os jovens desse universo cultural.
Para a nova geração, o vinil representa também uma porta de entrada para o universo analógico, onde cada LP carrega uma história singular e as capas dos álbuns se transformam em verdadeiras obras de arte ao alcance das mãos e dos olhos.
Além da valorização da música analógica, as feiras de discos e os encontros promovidos em torno dos vinis têm proporcionado momentos marcados pela nostalgia, pela memória afetiva e pela conexão entre diferentes gerações.
Entre histórias de reencontros, colecionismo e descobertas musicais, o público transforma cada evento em uma verdadeira celebração cultural, na qual os LPs deixam de ser apenas objetos e passam a carregar lembranças, sentimentos e capítulos importantes da vida de muitos apaixonados pela música.
Foi justamente sobre essa relação emocional construída através dos discos que Carlos Eduardo Santos destacou experiências vividas durante as feiras e encontros realizados em Arapiraca.
“Uma das coisas mais bonitas que vemos nas feiras é justamente o encontro entre gerações. É muito comum aparecerem avós, pais e filhos garimpando juntos, trocando referências e compartilhando histórias através da música. Isso mostra como o disco acaba atravessando gerações”.
“Também tivemos uma situação muito marcante com um cliente que encontrou dois discos que havia vendido há mais de 20 anos, em Maceió, no início da vida adulta. Quando ele pegou os LPs, percebeu que eram exatamente os dele, porque estavam assinados com o nome e a data da época. Depois de mais de duas décadas, aqueles discos voltaram para o primeiro dono. São histórias assim que mostram a força afetiva que a mídia física carrega”, pontuou.
INFLUÊNCIA
Para muitos arapiraquenses, um dos grandes influenciadores culturais e dono de um dos maiores acervos de LPs do município, o saudoso Paulo Lourenço, conhecido como Paulo do Bar, foi quem ajudou a impulsionar e transformar o cenário musical da capital do Agreste alagoano.
Foram anos dedicados à boa música. Um ícone reverenciado por colecionadores de vinil de toda a região. As noites arapiraquenses eram embaladas pelos clássicos da Música Popular Brasileira (MPB) e por grandes obras internacionais, a exemplo de Queen, The Beatles, Rolling Stones, Black Sabbath e muitos outros artistas.
Uma dessas pessoas foi o poeta, jornalista e músico Breno Airan, que já havia ido ao saudoso Bar do Paulo, na esquina da Rua Ouro Preto com a Rua Dom Jonas Batingas, quando era ainda criança durante uma exposição de artes plásticas de seu pai Cícero Brito, figura conhecida no meio cultural local.
“Minha relação com o vinil vem de berço. Mas eu tinha esquecido disso. Meu pai era colecionador e tinha um ‘tesouro’ dentro da ‘Sala de Som’ na casa onde cresci. O lugar era — e ainda é — um templo musical. Todas as manhãs, meu irmão Victor Hugo e eu acordávamos com Rock no talo. Mas meu pai trocou o vinil pelo CD. Talvez por ocupar menos espaço e por ele achar mais moderno e elegante”, ressaltou.
Breno respeita Cícero, abrindo espaço para o pensamento contrário que naturalmente pode coexistir dentro de seu núcleo familiar.

“O vinil voltou para a minha vida por causa do Paulo do Bar. Minha vida mudou e minha relação com a música. Acredito que a graça do vinil é poder tocar na obra, colocá-la para girar, mudar o lado e apreciar hipnoticamente a agulha e aquele círculo de PVC escuro rodar, enquanto a gente se dá o prazer de não fazer nada e ficar simplesmente ali contemplando, apreciando aquilo que outros seres fizeram com tanto cuidado e carinho — de alguma forma, esses artistas estão se comunicando com a gente através dos sons e gerando emoções que nem sabíamos que íamos sentir. Parece algo poético e é. Porque o mundo está extremamente mergulhado em interações digitais e tudo parece menos palpável, tangível, ao alcance da mão. De forma inconsciente, isso tem gerado um descontentamento muito grande nas pessoas. Acho que a volta do vinil tem muito disso: precisamos de coisas reais de novo”, disse Breno.
Sua relação com Paulo do Bar foi intensa, ao ponto de ele fazer um trabalho acadêmico sobre ele e seu estabelecimento. “Paulo é figura central na minha vida. Sempre que coloco um disco para rodar, lembro dele. Ele me ensinou a ouvir a vida, a ser paciente, a ir atrás de quem toca em cada álbum. Não só a mim. Ele foi um verdadeiro professor para muitos apreciadores de música em Arapiraca. Devemos muito pela sua presença nas nossas vidas, eu e meu pai, que era frequentador de seu bar. Hoje, participo das feiras de vinil da cidade como expositor ao lado de meu pai — para, de alguma forma, levar a música à frente e o legado do Paulo do Bar”, refletiu.
Um dos organizadores das recentes feiras no interior alagoano também foi influenciado por ele, mesmo sem conhecer. “Paulo é referência máxima quando se fala em vinil em Arapiraca. Apesar de eu não ter convivido com ele, todos que gostam de vinil na nossa cidade o têm como referência. Ele estava muito à frente do seu tempo e teve uma contribuição enorme para a cultura do vinil em Arapiraca, com uma coleção invejável, além de ser um ser humano sensacional”, destacou Geneton Araújo.
COMÉRCIO CULTURAL
Em meio a esse retorno, Carlos Eduardo Santos e Geneton Araújo aproveitaram o momento de valorização dos vinis para abrir um ambiente multicultural: a Sonöra - Casa Multicultural, espaço voltado não apenas para a comercialização de discos de vinil, mas também de CDs e camisas de artistas e bandas, além de outros produtos ligados ao universo musical.

“A loja surgiu do desejo de dois amigos apaixonados por música. Sempre ouvimos das pessoas que Arapiraca merecia um espaço voltado para esse universo, mas queríamos ir além de uma loja apenas comercial. Por isso, nasceu a ideia da Sonöra - Casa Multicultural: um lugar para viver a música, trocar experiências, descobrir artistas e criar conexões através da arte. A recepção do público tem sido muito bonita e mostra que existia essa demanda reprimida na cidade”, destacou Eduardo.
Segundo ele, vender vinil atualmente deixou de ser apenas paixão e também passou a representar um mercado promissor.
“O vinil vive um momento muito forte e isso reflete diretamente no mercado. A procura cresceu bastante nos últimos anos e a loja vem acompanhando esse crescimento. Claro que existem diferenças: discos novos costumam ter preços mais tabelados e margens menores, enquanto os usados e raridades variam bastante. Mas, além do retorno financeiro, existe também um valor cultural muito grande nesse trabalho”.
“Aqui na Sonöra - Casa Multicultural, até brincamos com um slogan herdado da Júpiter Discos: ‘Temos a mania de vender barato’. A ideia sempre foi manter a música circulando e o colecionismo acessível para mais pessoas”, concluiu.
INCENTIVO PARA QUEM QUER INICIAR UMA COLEÇÃO

Para quem deseja iniciar no universo das vitrolas e dos discos de vinil, especialistas e colecionadores recomendam começar sem pressa, priorizando equipamentos de entrada com boa qualidade sonora e buscando discos que tenham ligação afetiva ou façam parte do gosto musical pessoal.
Segundo Geneton Araújo, feiras de vinil, sebos e lojas especializadas são ótimos espaços para aprender sobre conservação, limpeza e armazenamento correto dos LPs, além de possibilitarem trocas de experiências entre apaixonados pela música analógica.
Outro conselho importante é entender que ouvir vinil vai muito além do som. Trata-se de uma experiência marcada pelo ritual de escolher o disco, posicionar a agulha na faixa desejada e apreciar cada detalhe das capas, encartes e da sonoridade característica que atravessa gerações.
“Primeiro, é importante comprar uma vitrola de boa qualidade, porque isso vai refletir diretamente na experiência de ouvir os discos. Daí para frente, é só se esbaldar no vasto mundo da música e não se apegar apenas a discos raros ou muito conhecidos. Esse universo é amplo demais para se limitar a isso. Outra dica é pesquisar artistas alagoanos. Vocês vão se surpreender com a quantidade e a qualidade dos nossos artistas”, finalizou Geneton Araújo.
