Sete em cada dez jovens brasileiros de 16 a 29 anos estão trabalhando, mas menos da metade deles possui carteira assinada. É o que mostra a pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva.
O levantamento, divulgado nesta sexta-feira (21), ouviu 1.816 jovens de todas as regiões do país entre os dias 11 e 23 de maio de 2026. Entre os entrevistados que trabalham, 44% têm carteira assinada, enquanto 15% são assalariados sem registro, 13% atuam como autônomos ou freelancers, 10% estão em trabalhos informais e 8% são estagiários ou aprendizes remunerados.
Os números revelam que a entrada da juventude no mercado de trabalho ocorre de maneiras bastante diferentes conforme a região, a renda, a escolaridade e a raça.
Nordeste tem uma das menores taxas de formalização
Um dos dados que mais chamam atenção é a diferença regional. Segundo a pesquisa, a formalização entre jovens chega a 58% no Sul e 55% no Sudeste, mas cai para 29% no Norte e apenas 20% no Nordeste.
O resultado coloca a região nordestina diante de um desafio maior para transformar a entrada dos jovens no mercado de trabalho em empregos com direitos trabalhistas e maior estabilidade.
Em Alagoas, o cenário merece atenção especial. Dados recentes da PNAD Contínua mostram que o estado apresentou o menor nível de ocupação do país no segundo trimestre de 2026, com 47,5%, enquanto também registrou a maior taxa combinada de desocupação e força de trabalho potencial, de 18,1%.
Embora os indicadores não sejam específicos para a faixa etária de 16 a 29 anos, eles ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pelo estado na geração de oportunidades de trabalho.
Desigualdade também aparece entre jovens negros e brancos
A pesquisa mostra ainda diferenças importantes relacionadas à raça.
Entre os jovens brancos entrevistados, 49% possuem emprego formal, contra 41% entre os jovens negros.
Na outra ponta, os chamados “bicos” informais atingem 12% dos jovens negros, mais que o dobro dos 5% registrados entre os brancos.
A escolaridade também influencia diretamente o tipo de ocupação. Entre os jovens que estudaram apenas até o ensino fundamental, 34% trabalham fazendo bicos. Entre aqueles com ensino superior, o percentual cai para apenas 3%.
Falta de experiência é principal barreira
Para quase metade dos jovens ouvidos, a falta de experiência profissional é o principal obstáculo para conseguir uma vaga. O problema foi apontado por 49% dos entrevistados.
A concorrência pelas oportunidades aparece em segundo lugar, citada por 39%.
Outro dado chama atenção: 96% dos jovens acreditam que conhecer alguém dentro de uma empresa ou receber indicação de familiares e amigos facilita a contratação.
A percepção aparece também na experiência pessoal. Segundo a pesquisa, 77% afirmaram ter conseguido o emprego atual por meio de uma indicação. Entre os jovens de 25 a 29 anos, o percentual chega a 81%.
Trabalho e estudo caminham juntos para parte da juventude
O levantamento também mostra como emprego e educação estão sendo conciliados.
Entre os jovens entrevistados:
- 48% estudam;
- 32% trabalham e estudam simultaneamente;
- 39% apenas trabalham;
- 13% não estudam nem trabalham.
A dupla jornada, porém, não termina no emprego e na escola. Metade dos entrevistados também afirmou ser responsável pelos cuidados da casa.
Essa carga é maior entre as mulheres: 60% delas disseram assumir responsabilidades domésticas, contra 40% dos homens. No cuidado com crianças, idosos e outras pessoas, a diferença também aparece: 28% das mulheres exercem essa função, contra 14% dos homens.
Jovens querem estabilidade agora, mas pensam em empreender no futuro
A pesquisa identificou uma mudança significativa nas expectativas profissionais.
Atualmente, 30% dos jovens dizem que gostariam de ter um emprego com carteira assinada. Quando questionados sobre os próximos cinco anos, porém, esse percentual cai para 16%.
Ao mesmo tempo, a preferência pelo trabalho autônomo sobe de 28% atualmente para 42% no futuro.
Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório da Fundação Itaú, os dados não significam necessariamente rejeição ao emprego formal. A avaliação é de que muitos jovens enxergam a experiência em uma empresa como uma etapa para posteriormente conquistar maior autonomia profissional.
Salário é prioridade, mas ambiente saudável também pesa
Quando precisam escolher um emprego, 64% dos jovens apontam o salário como principal fator.
Benefícios, plano de carreira e um ambiente de trabalho agradável aparecem logo depois, com 31% cada.
A preocupação com a qualidade do ambiente profissional também é expressiva: 62% afirmam que aceitariam ganhar um pouco menos para trabalhar em um local considerado mais saudável, com menos pressão e estresse.
Entre os jovens que trabalham ou já trabalharam, 69% afirmaram que já deixaram um emprego por iniciativa própria.
O principal motivo foi o desrespeito ou tratamento inadequado de chefes e líderes, apontado por 43%. Jornadas longas ou acúmulo de funções aparecem em seguida, com 36%, enquanto 32% citaram excesso de cobrança ou pressão por resultados.
Inteligência artificial preocupa nova geração
A transformação tecnológica também aparece entre as principais preocupações.
Segundo o levantamento, nove em cada dez jovens acreditam que a inteligência artificial vai eliminar muitas vagas de trabalho. Metade afirma ter medo de perder espaço no mercado por causa dos avanços tecnológicos.
O receio é maior entre jovens das classes D e E, chegando a 63%, e entre aqueles com apenas o ensino fundamental, com 62%. Entre os jovens das classes A e B, o percentual cai para 39%.
Ao mesmo tempo, a tecnologia já faz parte da preparação profissional dessa geração: 97% afirmaram utilizar inteligência artificial e internet para aprender e crescer profissionalmente.
Saúde e tecnologia estão entre as áreas mais desejadas
Quando perguntados sobre as áreas em que gostariam de trabalhar no futuro, saúde aparece na primeira posição, escolhida por 25% dos entrevistados.
Na sequência estão:
- Tecnologia: 22%;
- Comércio: 19%;
- Trabalho administrativo: 19%;
- Educação: 16%;
- Beleza e estética: 14%;
- Comunicação e redes sociais: 13%.
O resultado indica uma combinação entre profissões tradicionais, áreas ligadas ao cuidado e setores impulsionados pela transformação digital.
O impacto para Alagoas
Para Alagoas, os números reforçam a necessidade de ampliar as políticas de primeiro emprego, aprendizagem profissional, qualificação e educação profissional e tecnológica.
O estado enfrenta um mercado de trabalho com baixo nível de ocupação e elevada parcela da população fora da força de trabalho. Nesse contexto, a entrada dos jovens no mercado precisa ser acompanhada de oportunidades que permitam conciliar formação e geração de renda.
O Ministério do Trabalho e Emprego aponta, em levantamento específico sobre a juventude, que o Brasil tinha 13,9 milhões de jovens de 14 a 24 anos ocupados no primeiro trimestre de 2026, enquanto 6,2 milhões não estudavam nem trabalhavam.
A realidade alagoana torna ainda mais importante a ampliação de programas de aprendizagem e formação profissional. A modalidade de Jovem Aprendiz, por exemplo, permite combinar experiência prática e formação teórica e é considerada uma das portas de entrada para o mercado formal.
Além disso, estudos da Fundação Itaú apontam que a educação profissional e tecnológica pode aumentar as oportunidades de inserção no mercado e melhorar a renda dos trabalhadores.
Desafio é aproximar escola e mercado
Para a Fundação Itaú, os resultados mostram que a preparação para o mundo do trabalho precisa começar ainda durante a trajetória educacional.
A pesquisa aponta que muitos jovens sentem falta de orientação sobre como funciona o mercado e sobre quais competências são necessárias para conseguir e manter um emprego.
Nesse cenário, a aproximação entre escolas, instituições de ensino profissionalizante e empresas pode ajudar a reduzir uma das principais barreiras apontadas pelos próprios jovens: a falta de experiência.
Para Alagoas, esse debate ganha peso diante da necessidade de criar oportunidades especialmente para jovens de famílias de menor renda e moradores do interior, onde o acesso a empregos formais e cursos de qualificação pode ser mais limitado.
Repercussão
A pesquisa mostra uma juventude que não rejeita o trabalho formal, mas também não pretende necessariamente permanecer nele durante toda a carreira.
O emprego com carteira é visto por muitos como uma porta de entrada para conquistar experiência, renda e segurança. No longo prazo, porém, cresce o interesse pelo empreendedorismo e pelo trabalho autônomo.
Ao mesmo tempo, desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas continuam determinando quem consegue acessar as melhores oportunidades.
Para o Nordeste — e especialmente para estados como Alagoas, que apresentam indicadores de ocupação mais baixos — o desafio é transformar o potencial dessa população jovem em qualificação, emprego formal, renda e perspectivas de futuro.
