A ampliação do atendimento especializado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 trouxe uma nova possibilidade para candidatos que enfrentam transtornos de ansiedade, mas também revelou uma dificuldade enfrentada por parte dos estudantes: conseguir comprovar a condição exigida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

A edição deste ano passou a prever, pela primeira vez, atendimento específico para situações relacionadas a transtornos mentais, como crises de ansiedade e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), além de fibromialgia. Candidatos que tiverem a solicitação aprovada podem contar com acompanhante ou cão de apoio emocional, conforme as regras do exame.

A mudança é considerada uma ampliação da política de acessibilidade do Enem, mas o acesso ao recurso depende da análise da documentação apresentada pelo participante. É justamente nessa etapa que surgem os relatos de estudantes que tiveram pedidos negados.

Laudo médico é exigido para comprovar a necessidade

De acordo com as regras do Enem, o candidato que solicita atendimento especializado precisa apresentar documentação que comprove a condição informada. O Inep analisa o material e pode solicitar documentos adicionais para comprovar a necessidade do atendimento.

No caso de solicitações relacionadas à ansiedade, a documentação médica precisa demonstrar a condição e justificar a necessidade do recurso solicitado.

A exigência tem como objetivo evitar que o atendimento especializado seja concedido sem comprovação, mas pode representar uma barreira para estudantes que enfrentam dificuldades de acesso a profissionais de saúde ou que possuem acompanhamento psicológico sem um diagnóstico formal emitido por médico.

Quando a documentação é considerada insuficiente, o pedido pode ser indeferido.

Candidato pode recorrer de decisão

O indeferimento, porém, não encerra necessariamente o processo.

O próprio Inep prevê a possibilidade de recurso administrativo para participantes que tiveram a solicitação de atendimento especializado recusada. Nesse caso, o candidato precisa apresentar nova documentação capaz de comprovar a necessidade do recurso.

No Enem 2026, o resultado das solicitações de atendimento especializado foi divulgado em junho, e o período para recursos ocorreu entre 29 de junho e 3 de julho. O resultado definitivo dos recursos foi disponibilizado pelo Inep em julho.

Quem teve o pedido aprovado deve consultar a Página do Participante para verificar exatamente quais recursos foram autorizados.

O que mudou no Enem deste ano

A principal novidade para candidatos com ansiedade e TOC é a possibilidade de contar com uma pessoa de apoio durante a realização do exame.

O acompanhante não fica junto ao estudante durante toda a prova. Conforme as regras divulgadas para o Enem, ele permanece em espaço reservado e sob supervisão de fiscais, podendo ser chamado quando houver necessidade de apoio ou estabilização do candidato.

Também existe a possibilidade de utilização de cão de apoio emocional, de acordo com a situação e com a autorização concedida pelo Inep.

A medida representa uma mudança importante porque reconhece que determinadas condições de saúde mental podem interferir diretamente na capacidade do candidato de realizar uma prova longa e de alta pressão.

Número de atendimentos especializados aumentou

A ampliação das regras ocorre em um momento de forte crescimento da demanda por recursos de acessibilidade no Enem.

Entre 2022 e 2025, o número de participantes que receberam atendimento especializado passou de 30.856 para 89.770, um crescimento de 191%. Em 2025, aproximadamente 116 mil participantes utilizaram algum tipo de atendimento, segundo dados divulgados por órgãos de educação.

Entre os recursos disponíveis estão tempo adicional, auxílio para leitura e transcrição, provas ampliadas, salas de fácil acesso e outros mecanismos de acessibilidade, de acordo com a necessidade de cada participante.

A expansão mostra que a discussão sobre acessibilidade no Enem deixou de estar concentrada apenas em deficiências físicas ou sensoriais e passou a considerar também condições que podem afetar a participação do estudante durante a prova.

Ansiedade pode afetar desempenho em uma prova decisiva

Para quem enfrenta crises de ansiedade, o Enem representa um desafio adicional. São dois dias de provas extensas, com grande quantidade de questões, redação e forte pressão por desempenho.

A nota do exame pode ser utilizada para ingresso em universidades públicas pelo Sisu, além de programas como Prouni e Fies, tornando a prova decisiva para milhares de estudantes que buscam uma vaga no ensino superior.

Nesse contexto, a possibilidade de receber suporte durante a aplicação busca reduzir barreiras que não estão necessariamente relacionadas ao conhecimento adquirido pelo candidato.

O objetivo não é facilitar a prova, mas oferecer condições para que o participante consiga demonstrar aquilo que sabe.

Alagoas também está diretamente envolvida

A discussão tem impacto direto sobre os estudantes alagoanos que farão o Enem 2026.

Em junho, candidatos de Alagoas também foram orientados a confirmar suas inscrições e indicar, quando necessário, a necessidade de atendimento especializado durante o exame.

Com a ampliação das regras, estudantes alagoanos diagnosticados com condições previstas no edital precisam ficar atentos à documentação e às decisões do Inep.

Para aqueles que tiveram o pedido indeferido e já passaram pelo período de recurso, é importante acompanhar a situação diretamente na Página do Participante e verificar as orientações oficiais do instituto.

Saúde mental também é uma questão dentro das universidades

O debate não termina no Enem. A ansiedade e outras questões relacionadas à saúde mental acompanham muitos estudantes durante a vida acadêmica.

Em Alagoas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) mantém serviços de acolhimento psicológico para estudantes, com escuta, orientação e, quando necessário, encaminhamento para a Rede de Atenção Psicossocial. O atendimento está disponível nos campi de Maceió, Sertão e Arapiraca/Palmeira dos Índios.

A universidade também desenvolve atividades coletivas de prevenção e promoção da saúde mental, como rodas de conversa, oficinas, palestras e ações de acolhimento.

A existência desses serviços reforça que o cuidado com a saúde mental precisa continuar depois da prova e fazer parte da trajetória educacional do estudante.

Desafio é garantir acesso sem criar novas barreiras

A ampliação do atendimento especializado é considerada um avanço, mas os relatos de pedidos negados mostram que ainda existe um desafio entre reconhecer a necessidade do estudante e comprovar essa condição dentro dos critérios administrativos estabelecidos.

Para especialistas e entidades ligadas à educação, o equilíbrio está em garantir que os recursos sejam concedidos a quem realmente necessita, sem transformar a documentação exigida em uma barreira para estudantes que enfrentam dificuldades de acesso ao diagnóstico e ao atendimento especializado.

No caso de Alagoas, o desafio pode ser ainda maior para estudantes de municípios do interior, onde o acesso a determinadas especialidades médicas e serviços de saúde mental pode ser mais limitado.

Provas serão realizadas em novembro

O Enem 2026 será aplicado nos dias 8 e 15 de novembro.

No primeiro domingo, os participantes farão as provas de Linguagens, Ciências Humanas e a redação. No segundo, serão aplicadas as provas de Ciências da Natureza e Matemática.

Os portões serão abertos ao meio-dia e fechados às 13h, no horário de Brasília. As provas começam às 13h30.

Repercussão

A mudança nas regras do Enem representa um avanço importante ao reconhecer oficialmente condições como ansiedade e TOC entre as situações que podem demandar atendimento especializado.

Ao mesmo tempo, os relatos de estudantes que tiveram laudos ou pedidos recusados mostram que inclusão não depende apenas de criar uma regra, mas também de garantir que o estudante consiga acessar o recurso previsto.

Para Alagoas, o tema ganha relevância diante do número de jovens que utilizam o Enem como caminho para universidades públicas e privadas. Garantir condições adequadas durante a prova significa permitir que o resultado reflita, o máximo possível, o conhecimento do candidato — e não uma barreira relacionada à sua condição de saúde.