A bactéria Pseudomonas aeruginosa já havia provocado, no início de maio, o recolhimento de determinados detergentes e sabões Ypê. Nesta quarta-feira (3), menos de um mês depois, ela voltou a ser protagonista de mais uma interdição da Anvisa: um lote de garrafas de água mineral da marca Crystal.

Quais as artimanhas desse micro-organismo que o fazem capaz de sobreviver até mesmo em produtos que serviriam para… limpar?

“As Pseudomonas têm uma combinação de estratégias biológicas que diminuem a ação do produto de limpeza”, afirma Perrenoud, professor de biologia do Curso Anglo.

Em resumo, é um kit de sobrevivência que envolve:

  • Estrutura de Membrana Dupla: As Pseudomonas são classificadas como Gram-negativas, o que significa que possuem uma membrana adicional externa. Essa estrutura é pouco permeável, funcionando como um "escudo químico" que dificulta a entrada das substâncias do detergente na célula.
  • Formação de Biofilmes: As bactérias aderem a superfícies e produzem uma “geleia” composta por açúcares, proteínas e até DNA. Essa estrutura vira uma "fortaleza", criando uma barreira física que protege as bactérias localizadas nas camadas mais profundas.
  • Bombas de efluxo: Proteínas na membrana identificam e expulsam substâncias tóxicas (como detergentes) de dentro da célula antes que atinjam concentrações letais. São um sistema de drenagem: como marinheiros usando baldes para tirar água de um barco furado e evitar que ele afunde. No gênero Pseudomonas, existem mais de 12 tipos dessas bombas.

“Apesar da resistência, essas bactérias não são indestrutíveis. Processos adequados de desinfecção, esterilização e saneamento conseguem eliminá-las. Produtos utilizados em ambiente hospitalar, por exemplo, costumam empregar combinações químicas específicas e protocolos rigorosos justamente para evitar esse tipo de sobrevivência bacteriana”, diz Perrenoud.

Para entender os detalhes de cada um dos três itens acima e os riscos à saúde dos imunossuprimidos, o g1 entrevistou cinco especialistas em biologia e em infectologia. Entenda a seguir.

🛡️ESCUDO QUÍMICO (membrana dupla)

Na microbiologia, as bactérias são divididas em dois grandes grupos baseados na estrutura de suas paredes externas: as gram-positivas e as gram-negativas.

As gram-positivas possuem uma parede celular mais simples, com uma camada espessa de açúcares e proteínas. Já as gram-negativas — grupo do qual a Pseudomonas faz parte — são estruturadas como se fossem um "sanduíche": elas têm uma membrana celular interna, a parede celular no meio e, por cima de tudo, uma membrana externa.

É justamente essa película extra que funciona como um verdadeiro "escudo químico", bloqueando e rejeitando substâncias que tentam invadir a célula. A estrutura ainda é rica em LPS (lipopolissacarídeos) — moléculas formadas por gorduras que têm propriedades semelhantes às do próprio detergente.

Por causa desse "escudo", a Pseudomonas consegue criar uma resistência química que impede o sabão comum de destruí-la. Em vez de romper a célula, o produto de limpeza corre o risco de “patinar” nessa capa de gordura protetora.

"A parede celular destas bactérias é composta por proteínas e carboidratos (peptídeosglicanos) e apresenta baixa permeabilidade, dificultando a entrada de determinadas substâncias", aponta Perrenoud.

🏰FORTALEZA DE GUERRA (biofilme)

Quando essas bactérias colonizam uma superfície, não ficam isoladas. Elas se unem e começam a secretar uma matriz gelatinosa e espessa, composta por açúcares, proteínas, água e até pedaços de DNA. Essa estrutura formada nesse “trabalho em equipe” é o chamado biofilme.

Ele funciona como uma “fortaleza”: a "geleia" desempenha a função de uma barreira física espessa. Enquanto o produto químico tenta penetrar nas camadas externas, as bactérias mais internas permanecem intactas e protegidas contra desinfetantes, variações de temperatura e células do nosso sistema imunológico.

No caso de pessoas imunossuprimidas, o biofilme agrava o quadro de infecção e dificulta que medicamentos e células do sistema imune cheguem até a Pseudomonas (leia mais abaixo).

“Ele cria uma resistência aos antibióticos. Isso pode causar infecções gravíssimas de difícil tratar, como pneumonia, infecções sanitárias, infecções em feridas cirúrgicas e até sepsis, que é a infecção generalizada”, afirma o infectologista Julio Croda, pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

💣BOMBAS DE EXPULSÃO (efluxo)

Se o detergente conseguir romper a fortaleza do biofilme e atravessar a membrana externa da bactéria, ela ainda aciona uma última linha de defesa: as bombas de efluxo.

São proteínas transportadoras localizadas na membrana que identificam as substâncias tóxicas invasoras e as jogam ativamente para fora da célula, antes que atinjam uma concentração letal. Esse processo de expulsão gasta energia, mas garante a sobrevivência do micro-organismo.

Imagine um barco com um furo por onde a água (o detergente) entra sem parar. A bomba de efluxo é como se fosse um marinheiro com um balde, jogando a água de volta para o mar, para evitar que o barco afunde (ou seja, que a bactéria morra).

“A Pseudomonas, por exemplo, possui mais de 12 tipos de bombas de efluxo, e algumas ficam ligadas o tempo todo, funcionando como sistema de segurança de altíssima eficiência”, diz Croda.

Detergente diluído também aumenta risco

O uso do produto fora das recomendações do fabricante reduz drasticamente sua eficácia antimicrobiana. Quando o detergente é excessivamente diluído, perde a força para matar a colônia de bactérias. E não para por aí: ainda aplica o que os cientistas chamam de “pressão seletiva”.

Na prática, a dose fraca serve como um verdadeiro "treinamento": mata apenas as bactérias mais fracas e permite que as mais resistentes sobrevivam, se multipliquem e transmitam essa habilidade genética para as gerações seguintes.

Resistência Genética e Adaptativa:

  • Resistência intrínseca: Muitas bactérias já nascem com genes de resistência em seu DNA (como a membrana dupla e as bombas de efluxo).
  • Mutações e seleção natural: Mutações aleatórias podem gerar linhagens mais resistentes. Quando expostas ao detergente, as mais fortes sobrevivem e se reproduzem, transmitindo essa característica aos seus descendentes.
  • Transferência horizontal de genes: Elas conseguem trocar material genético entre si, "compartilhando" a resistência com outras bactérias como se estivessem passando um "pendrive" com instruções de defesa.

Quais os riscos para a saúde?

A capacidade que a bactéria tem de sobreviver dentro de um frasco de sabão ou de uma garrafa de água é completamente diferente da sua capacidade de enfrentar o corpo humano. Em pessoas saudáveis, o sistema imunológico age rápido e, em geral, destrói o invasor antes que ele se prolifere.

“Elas terão células de defesa suficientes para combater essa quantidade de invasores”, afirma Filippo Giovanelli, autor de Biologia do Sistema de Ensino pH.

O ser humano ainda conta com uma microbiota rica e equilibrada — uma colônia de bactérias "boas" no organismo que competem por espaço e nutrientes com os germes ruins, impedindo que eles se instalem.

➡️O cenário muda drasticamente para indivíduos imunossuprimidos ou com sistema imunológico mais frágil (como bebês ou idosos acima dos 80 anos). É o caso de transplantados, pessoas em tratamento contra o câncer e pacientes que usam medicamentos imunossupressores para doenças reumatológicas ou inflamatórias intestinais.

Segundo Jessica Ramos, infectologista do Hospital Sírio-Libanês, nesses grupos, a bactéria Pseudomonas pode causar infecções pulmonares, urinárias e dermatológicas.

"Dentro do hospital, ela é uma causa importante de mortalidade porque é uma bactéria não só muito resistente aos tratamentos, mas também muito virulenta", afirma a médica.

Ou seja: a Pseudomonas não apenas consegue sobreviver no organismo, mas também tem mecanismos que a ajudam a escapar das defesas do corpo e provocar infecções graves.