O avanço brasileiro no desenvolvimento de vacinas com RNA mensageiro (mRNA) pode representar, no futuro, uma mudança importante na capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de responder a novas emergências sanitárias — inclusive em estados como Alagoas.

O Ministério da Saúde anunciou nesta quarta-feira (2) que o país já conta com três importantes frentes nacionais de pesquisa na área: Fiocruz, Instituto Butantan e Centro de Competência em Vacinas e Terapias com RNA da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Juntos, os projetos recebem R$ 210 milhões em investimentos federais.

O movimento ganhou novo impulso após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar os testes clínicos da primeira vacina brasileira contra a Covid-19 desenvolvida integralmente com tecnologia de RNA mensageiro pela Fiocruz.

O início do recrutamento de voluntários para a primeira fase do estudo está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Nesta etapa, os pesquisadores vão avaliar principalmente a segurança e a capacidade do imunizante de provocar resposta do sistema imunológico.

E o que isso significa para Alagoas?

Na prática, o avanço ainda não significa que uma nova vacina de RNA mensageiro estará disponível imediatamente nos postos de saúde de Alagoas. O imunizante da Fiocruz ainda precisa passar pelas etapas de pesquisa clínica, análise dos resultados e, posteriormente, pelas avaliações regulatórias necessárias.

Mas a tecnologia pode ter importância estratégica para o estado.

Alagoas depende do sistema nacional de produção e distribuição de imunobiológicos para manter a vacinação da população. Somente em 2026, segundo o Ministério da Saúde, o estado recebeu mais de 2,7 milhões de doses de vacinas que integram o Calendário Nacional de Vacinação.

Com uma capacidade maior de produção nacional, a expectativa é de que o Brasil consiga diminuir gradualmente a dependência de tecnologias e fornecedores externos, especialmente em situações de emergência.

Para Alagoas, isso pode significar maior segurança no abastecimento do SUS em futuras campanhas de vacinação, desde que os novos produtos sejam aprovados e incorporados ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Estado ainda enfrenta desafio para ampliar cobertura

O avanço tecnológico ocorre ao mesmo tempo em que Alagoas continua enfrentando o desafio de manter as coberturas vacinais elevadas.

Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau), em relatório de avaliação da vigilância em saúde, mostram que algumas vacinas destinadas às crianças apresentaram cobertura abaixo da meta de 95% estabelecida para grande parte dos imunizantes do calendário infantil.

Em uma das avaliações divulgadas pela secretaria, Alagoas registrou cobertura de 91,1% para a pentavalente, 88,5% para a pneumocócica 10-valente, 91,1% para a poliomielite e 93,4% para a tríplice viral. O documento também apontou que 32 municípios não haviam atingido a meta nas vacinas avaliadas naquele período.

O cenário mostra que, além de desenvolver novas tecnologias, o desafio continua sendo fazer com que as vacinas já disponíveis cheguem ao braço da população.

Tecnologia pode acelerar resposta a novas doenças

Uma das principais características do RNA mensageiro é funcionar como uma plataforma tecnológica. Em vez de desenvolver uma estrutura completamente nova para cada vacina, os pesquisadores podem modificar as informações utilizadas para estimular o sistema imunológico de acordo com o agente infeccioso que se pretende combater.

Isso abre possibilidades para o desenvolvimento de vacinas contra diferentes doenças.

No Centro de Competência em Vacinas e Terapias com RNA da UFMG, por exemplo, existem projetos relacionados a dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose visceral e influenza, além de pesquisas envolvendo terapias contra o câncer.

A possibilidade é especialmente relevante para regiões que enfrentam doenças infecciosas de forma recorrente. No Nordeste, e particularmente em Alagoas, arboviroses como dengue e chikungunya representam desafios permanentes para a vigilância epidemiológica.

No entanto, é importante destacar: não há, neste momento, anúncio de uma vacina de RNA mensageiro específica contra dengue ou chikungunya disponível para a população alagoana. Os projetos citados ainda fazem parte do processo de pesquisa e desenvolvimento.

Butantan e Fiocruz ampliam estrutura nacional

Além da Fiocruz, o Instituto Butantan está implantando uma unidade para desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro, inicialmente com foco em Covid-19 e raiva.

O projeto da Fiocruz recebeu R$ 77 milhões, enquanto o Butantan conta com R$ 73 milhões. O Centro de Competência da UFMG recebeu R$ 60 milhões.

Segundo o Ministério da Saúde, os investimentos fazem parte da estratégia de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e buscam aproximar pesquisa científica, produção e necessidades do SUS.

Para o alagoano, mudança pode vir no futuro

Se os projetos avançarem nas pesquisas e obtiverem as autorizações necessárias, o principal efeito para estados como Alagoas poderá ser percebido não apenas na chegada de novos imunizantes, mas na capacidade brasileira de reagir rapidamente a novas ameaças à saúde pública.

Durante a pandemia de Covid-19, a dependência internacional por insumos, vacinas e tecnologias expôs a importância de possuir capacidade própria de pesquisa e produção.

Agora, a estratégia brasileira busca justamente criar essa estrutura.

Para Alagoas, que possui uma população estimada em 3,22 milhões de habitantes, segundo o IBGE, uma rede nacional mais robusta de produção de vacinas pode representar maior capacidade de abastecimento e resposta em futuras campanhas de imunização.

O avanço, porém, precisa caminhar lado a lado com outro desafio: aumentar a adesão da população às vacinas que já estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.

A tecnologia pode mudar a velocidade com que novos imunizantes são desenvolvidos. Mas, para que isso se transforme em proteção efetiva em Alagoas, será necessário garantir também logística, distribuição, estrutura nos municípios e adesão da população.