A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes clínicos da primeira vacina contra a Covid-19 desenvolvida integralmente no Brasil com tecnologia de RNA mensageiro (RNAm). O avanço coloca o país em uma nova etapa na produção de imunizantes e pode fortalecer, no futuro, a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de responder a novas emergências sanitárias.

A autorização foi concedida pela Anvisa em agosto e divulgada nesta quarta-feira (2). O estudo de fase 1 será conduzido com adultos saudáveis e terá como principal objetivo avaliar a segurança e a capacidade de provocar resposta imunológica do imunizante quando utilizado como dose de reforço.

O recrutamento dos voluntários está previsto para o primeiro trimestre de 2027. Nesta primeira fase, serão incluídas 90 pessoas com idade entre 18 e 59 anos, que serão acompanhadas durante o desenvolvimento do estudo.

Os testes serão realizados no Rio de Janeiro, nos centros da Unidade de Ensaios Clínicos para Imunobiológicos e da Policlínica Lincoln de Freitas Filho. Portanto, Alagoas não está entre os locais previstos para essa primeira etapa da pesquisa.

O que muda para Alagoas

Embora os testes iniciais não sejam realizados em território alagoano, o avanço tem importância para o estado porque uma eventual vacina nacional baseada em RNA mensageiro poderá ampliar a autonomia brasileira na produção de imunizantes destinados ao SUS.

Na prática, a tecnologia representa a possibilidade de desenvolver ou adaptar vacinas com maior domínio nacional, reduzindo a dependência de plataformas e tecnologias estrangeiras em situações de emergência sanitária.

Para Alagoas, onde a vacinação é executada pela rede pública dentro das estratégias do Programa Nacional de Imunizações (PNI), uma maior capacidade brasileira de produzir vacinas pode significar mais segurança no abastecimento e maior capacidade de resposta diante de novas variantes ou de futuras epidemias.

A Secretaria de Estado da Saúde mantém acompanhamento e divulgação de informações relacionadas à Covid-19, incluindo boletins epidemiológicos e ações de vacinação. O novo projeto da Fiocruz, porém, ainda está distante de representar uma mudança imediata no calendário de vacinação utilizado em Alagoas.

Tecnologia já é usada no mundo

As vacinas de RNA mensageiro ganharam grande destaque durante a pandemia de Covid-19. A tecnologia utiliza instruções genéticas para orientar as células do organismo a produzir uma proteína capaz de estimular uma resposta do sistema imunológico.

O diferencial do projeto brasileiro é que a Fiocruz desenvolveu o imunizante dentro de uma plataforma própria de RNAm. Segundo o Ministério da Saúde, a estratégia não se limita à Covid-19: a mesma estrutura tecnológica poderá ser adaptada para o desenvolvimento de produtos contra outras doenças.

Entre as possibilidades estão pesquisas relacionadas à leishmaniose, tuberculose e aplicações terapêuticas, inclusive na área de câncer.

Investimento de R$ 210 milhões

O Ministério da Saúde informou que destinou R$ 210 milhões para o desenvolvimento de plataformas nacionais de RNA mensageiro.

Desse total, R$ 77 milhões foram destinados à plataforma da Fiocruz, enquanto outros recursos foram direcionados ao Instituto Butantan e ao Centro de Competência em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A estratégia faz parte do esforço do governo federal para ampliar a capacidade científica e produtiva brasileira e diminuir a dependência de tecnologias desenvolvidas no exterior.

Segundo o Ministério da Saúde, a plataforma da Fiocruz possui uma planta piloto considerada a primeira da América Latina com certificação de Boas Práticas de Fabricação.

Ainda não é uma vacina disponível

Apesar do avanço, a autorização da Anvisa não significa que a vacina já esteja aprovada para aplicação na população.

O imunizante precisa passar pelas etapas de pesquisa clínica. Na fase 1, os pesquisadores avaliarão principalmente segurança e resposta imunológica. Os participantes serão acompanhados durante o estudo, e novas etapas serão necessárias antes de qualquer eventual pedido de registro e disponibilização ampla.

A previsão é que os primeiros voluntários sejam recrutados somente no primeiro trimestre de 2027.

Repercussão

O avanço foi recebido como um marco para a ciência e a produção nacional de vacinas. Para o Ministério da Saúde, o domínio da tecnologia de RNA mensageiro amplia a capacidade brasileira de desenvolver respostas próprias para futuras crises sanitárias.

A Fiocruz também destaca que a consolidação da plataforma representa mais do que o desenvolvimento de um único imunizante: trata-se da criação de uma estrutura tecnológica que poderá ser utilizada em diferentes projetos de interesse do SUS.

Para os alagoanos, o principal impacto neste momento é indireto, mas estratégico: quanto maior a capacidade do Brasil de produzir seus próprios imunizantes, maior tende a ser a autonomia do sistema público de saúde para enfrentar futuras emergências sem depender exclusivamente de fornecedores externos.

O resultado dos testes, no entanto, ainda será determinante para saber se a nova vacina poderá avançar para as próximas fases de desenvolvimento e, posteriormente, chegar à população.