As chamadas canetas emagrecedoras ganharam espaço no Brasil e também passaram a fazer parte da rotina de muitos alagoanos que buscam controlar o peso. Ao mesmo tempo em que medicamentos como semaglutida e tirzepatida apresentam resultados importantes no tratamento da obesidade, especialistas alertam que o uso sem acompanhamento profissional pode provocar perda de massa muscular e deficiências nutricionais.
O alerta ganhou força justamente em um momento em que o acesso a esses medicamentos começa a se ampliar no país, com a chegada de novos produtos e a redução de preços em alguns casos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou novas opções à base de semaglutida, enquanto o mercado também registra a entrada de versões sintéticas e genéricas.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) destaca que o emagrecimento proporcionado pelos medicamentos precisa estar associado a mudanças no estilo de vida. Quando a redução do peso ocorre acompanhada de ingestão insuficiente de proteínas e pouca atividade física, parte da massa perdida pode ser muscular.
Por que a massa muscular preocupa?
Os medicamentos que atuam sobre os receptores de GLP-1 e, no caso da tirzepatida, também sobre GIP, reduzem o apetite e podem contribuir para uma perda significativa de peso.
O problema ocorre quando o paciente passa a comer muito menos sem orientação nutricional adequada.
A redução da ingestão de alimentos pode significar também menor consumo de proteínas, vitaminas e minerais, nutrientes importantes para a manutenção dos músculos e para o funcionamento adequado do organismo.
Estudos recentes também apontam preocupação com deficiências nutricionais durante o tratamento. Uma análise com centenas de milhares de usuários de medicamentos da classe GLP-1 identificou casos de deficiência de nutrientes, principalmente vitamina D, ferro e vitaminas do complexo B.
Por isso, especialistas defendem que o tratamento seja individualizado e acompanhado por profissionais de saúde.
Exercício e alimentação fazem parte do tratamento
A utilização da medicação não deve ser encarada como substituta da alimentação equilibrada ou da atividade física.
A recomendação é que pacientes em tratamento tenham atenção especial à ingestão de proteínas e pratiquem exercícios, principalmente atividades de resistência, que ajudam na preservação da massa muscular.
O acompanhamento pode envolver médico, nutricionista e profissional de educação física, de acordo com as necessidades de cada paciente.
Outro ponto importante é que a obesidade é considerada uma doença crônica. Estudos recentes mostram que parte dos pacientes pode recuperar peso após a interrupção do tratamento, reforçando a necessidade de acompanhamento médico e de uma estratégia de longo prazo.
Impacto já aparece em Alagoas
O crescimento do uso dessas medicações já provoca mudanças no comportamento dos consumidores alagoanos.
Levantamentos publicados por veículos locais mostram alterações nos hábitos de consumo em bares e restaurantes do estado, com empresários relatando redução na procura por bebidas alcoólicas, sobremesas e petiscos entre parte dos clientes que utilizam medicamentos dessa classe.
Outro levantamento realizado em Maceió identificou ofertas de produtos à base de tirzepatida comercializados de forma irregular, inclusive por meio de anúncios distribuídos em grupos de WhatsApp. Em alguns casos, os produtos eram oferecidos sem informações adequadas sobre fabricante, registro sanitário ou responsável técnico.
A situação preocupa porque medicamentos sem procedência podem apresentar riscos diferentes daqueles observados em produtos registrados e submetidos ao controle sanitário.
Alagoas discute fornecimento pelo SUS
O tema ganhou ainda mais relevância no estado nesta semana.
A Assembleia Legislativa de Alagoas aprovou, em segundo turno, um projeto de lei que cria uma política estadual para o fornecimento gratuito de medicamentos derivados de tirzepatida e semaglutida.
De autoria do deputado Delegado Leonam (União Brasil), o projeto prevê o acesso aos medicamentos para pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade graus 2 ou 3, desde que as condições sejam comprovadas clinicamente.
O texto estabelece exigências como prescrição médica, laudo que justifique o tratamento e comprovação de insuficiência financeira para aquisição dos medicamentos.
A aprovação, porém, não significa que os medicamentos já estejam sendo distribuídos automaticamente pela rede pública estadual. A proposta ainda precisa cumprir as etapas necessárias para entrar efetivamente em vigor e ser regulamentada.
Mercado cresce e preços começam a mudar
A expansão do mercado também tem relação com a chegada de novas opções.
Em maio deste ano, a Anvisa registrou o Ozivy, primeira caneta de semaglutida sintética análoga ao medicamento biológico de referência liberada para comercialização no Brasil. Em julho, a agência aprovou outras cinco canetas de semaglutida.
Em agosto, a Anvisa também aprovou o primeiro genérico de semaglutida do país. O produto ainda dependia da definição de preço para chegar às farmácias, mas a expectativa é de aumento da concorrência e possibilidade de redução dos custos para os consumidores.
Apesar disso, o tratamento continua sendo caro para grande parte da população.
Anvisa reforça fiscalização
Com o aumento da procura, também crescem as preocupações com produtos manipulados ou vendidos fora dos canais regulares.
A Anvisa anunciou medidas para ampliar a fiscalização sobre a importação e manipulação de substâncias utilizadas nas chamadas canetas emagrecedoras. Em 2026, a agência realizou inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, com interdições decorrentes de problemas técnicos e de controle de qualidade.
A agência também vem alertando para produtos que tentam reproduzir os efeitos das canetas. Recentemente, determinou a proibição de determinados chás comercializados com alegações de efeito semelhante ao de medicamentos injetáveis para emagrecimento.
Entidades médicas também já alertaram para o risco de medicamentos falsificados contendo semaglutida e tirzepatida.
Quem usa deve ter acompanhamento
Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida podem ser importantes ferramentas no tratamento de doenças como obesidade e diabetes, mas não devem ser utilizados por conta própria.
A recomendação dos especialistas é que a indicação, a dose, a duração do tratamento e eventuais mudanças na medicação sejam definidas por profissional habilitado.
Também é importante que o paciente informe ao médico todos os medicamentos e suplementos utilizados e procure orientação caso apresente efeitos adversos.
Alerta para quem busca emagrecer rapidamente
A popularização das canetas criou a expectativa de resultados rápidos, mas especialistas reforçam que a perda de peso não deve ser analisada apenas pelo número mostrado na balança.
A preservação da massa muscular, a qualidade da alimentação, a prática de atividade física e o acompanhamento contínuo são partes importantes de um tratamento seguro.
Em Alagoas, onde o debate sobre o acesso desses medicamentos pelo SUS acaba de avançar na Assembleia Legislativa, a discussão tende a ganhar ainda mais espaço. O desafio será conciliar acesso ao tratamento, segurança, acompanhamento profissional e uso responsável.
