Mais de 8 em cada 10 pacientes diagnosticados com câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS) chegam ao diagnóstico quando a doença já está em estágio avançado. O cenário chama atenção para as dificuldades de identificar o tumor nas fases iniciais, quando as possibilidades de tratamento tendem a ser maiores.
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com informações do Painel de Oncologia, analisou cerca de 49 mil registros de pacientes com câncer de pulmão diagnosticados entre 2020 e 2025 e que tinham o estadiamento informado.
Do total, 87,9% apresentavam a doença nos estágios 3 ou 4. Foram 31.467 registros no estágio 4, considerado metastático, e outros 11.704 no estágio 3. Apenas cerca de 3% dos casos estavam no estágio 0.
O diagnóstico tardio é uma das principais preocupações relacionadas à doença, que frequentemente evolui sem provocar sinais claros nas fases iniciais.
Alagoas tem mais de 93% dos casos em estágios avançados
O cenário também preocupa em Alagoas.
De acordo com levantamento do Radar do Câncer, baseado em dados do SUS, 93,59% dos casos de câncer de pulmão registrados no estado com estadiamento preenchido estavam nos estágios 3 ou 4.
Alagoas aparece na quinta posição entre os estados com maior percentual de diagnósticos avançados, atrás de Rondônia, Acre, Piauí e Espírito Santo.
O levantamento reforça a dimensão do problema no estado e mostra que a identificação tardia da doença não é uma realidade restrita a determinadas regiões do país.
Doença pode permanecer silenciosa
Um dos fatores que dificultam a descoberta precoce é que o câncer de pulmão pode não provocar sintomas evidentes no começo.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), manifestações como tosse persistente, rouquidão, falta de ar, dor no peito, cansaço, perda de peso sem causa aparente e presença de sangue no escarro devem ser investigadas, principalmente quando persistem ou representam uma mudança no padrão habitual de saúde.
O INCA ressalta que esses sintomas não significam necessariamente a presença de câncer, mas precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
Tabagismo é o principal fator de risco
O tabagismo continua sendo o principal fator associado ao câncer de pulmão. Segundo o INCA, aproximadamente 85% dos casos diagnosticados estão relacionados ao consumo de derivados do tabaco.
A exposição passiva à fumaça também aumenta o risco. Outros fatores associados incluem exposição ocupacional a determinadas substâncias, poluição do ar, doenças pulmonares crônicas, histórico familiar e fatores genéticos.
Parar de fumar é uma das principais medidas de prevenção. Evitar o tabagismo passivo e reduzir a exposição ocupacional a agentes cancerígenos também fazem parte das estratégias recomendadas.
Brasil deve registrar mais de 35 mil novos casos por ano
A estimativa do INCA aponta que o Brasil deverá registrar 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano durante o triênio 2026-2028. Desse total, são estimados 18.730 casos entre homens e 16.650 entre mulheres.
A doença também apresenta elevada mortalidade. Dados do INCA apontam 32.555 mortes por câncer de pulmão em 2024.
O câncer de pulmão está entre os tumores mais frequentes no país e ocupa posição de destaque entre as causas de morte por câncer.
Rastreamento não é indicado para toda a população
Apesar da importância do diagnóstico precoce, o INCA esclarece que não há recomendação para rastreamento do câncer de pulmão na população em geral, porque não existem evidências suficientes de que os benefícios superem os riscos.
Em alguns países, a tomografia computadorizada de baixa dose é utilizada para rastrear pessoas consideradas de alto risco, principalmente fumantes ou ex-fumantes com histórico significativo de consumo de tabaco.
A realização desse tipo de exame, entretanto, deve ser avaliada individualmente com um médico, considerando idade, histórico de tabagismo e outros fatores de risco.
Diagnóstico pode fazer diferença no tratamento
Quando existe suspeita da doença, exames de imagem, como radiografia e tomografia computadorizada do tórax, podem ser utilizados na investigação. A confirmação do câncer normalmente depende de análise de material obtido por biópsia.
Depois da confirmação, é necessário determinar o estágio da doença e verificar se o tumor está restrito ao pulmão ou se atingiu outros órgãos. Essa avaliação ajuda a equipe médica a definir a estratégia de tratamento mais adequada para cada paciente.
O alto percentual de diagnósticos em estágios avançados reforça, portanto, a importância de ampliar o acesso aos serviços de saúde, agilizar a investigação de sintomas suspeitos e fortalecer ações de prevenção ao tabagismo.
