O Grupo Casas Bahia informou nesta quarta-feira (19) que está negociando com diferentes agentes do mercado em busca de alternativas para enfrentar a atual situação financeira da companhia. A manifestação ocorreu após a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) questionar a empresa sobre notícias de que estaria negociando um financiamento de até R$ 1 bilhão.

A varejista, que entrou com pedido de recuperação judicial nesta semana, confirmou que avalia alternativas para obter recursos e reforçar o caixa, mas esclareceu que não existe, até o momento, nenhuma operação de financiamento aprovada ou acordo fechado nesse valor.

A possibilidade de um financiamento do tipo DIP (Debtor-in-Possession) — modalidade utilizada por empresas em recuperação judicial para obter recursos e manter as operações — vinha sendo divulgada como uma das alternativas em estudo.

Empresa busca recursos para atravessar crise

Em resposta à CVM, a Casas Bahia afirmou que mantém conversas com diversos agentes do mercado e avalia diferentes possibilidades de financiamento.

A companhia também analisa medidas para reforçar sua liquidez, incluindo renegociação de dívidas e tributos e recuperação de valores relacionados a depósitos judiciais trabalhistas e previdenciários.

A empresa, porém, não informou que tenha chegado a um acordo definitivo sobre valores, prazos ou condições de um eventual financiamento.

Recuperação judicial envolve R$ 17,3 bilhões

O pedido de recuperação judicial foi apresentado pela Casas Bahia em agosto e envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. A medida tem como objetivo reorganizar os compromissos financeiros e permitir que a companhia continue operando enquanto negocia com credores.

A crise se agravou após a empresa registrar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, resultado que incluiu impactos contábeis e custos relacionados à reestruturação do grupo. A companhia também passou por uma recuperação extrajudicial em 2024.

Como parte do processo de reorganização, a Casas Bahia já anunciou o fechamento de 298 lojas e promoveu milhares de demissões.

Demissões e fechamento de lojas aumentam preocupação

A reestruturação financeira também tem repercussão no mercado de trabalho.

Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira, cerca de 3 mil funcionários foram demitidos. A proposta apresentada no processo de recuperação judicial prevê mecanismos para reorganização dos pagamentos das verbas trabalhistas, assunto que já provoca preocupação entre trabalhadores e sindicatos.

A Justiça do Trabalho também passou a analisar questionamentos relacionados aos cortes de funcionários, com decisão provisória suspendendo determinadas demissões e novos cortes sem mediação sindical.

Consumidor continua podendo comprar

Apesar da recuperação judicial, a Casas Bahia informou que continua operando.

A situação financeira da empresa não significa, automaticamente, o encerramento das atividades ou a suspensão das vendas. As lojas físicas e os canais digitais permanecem como parte da operação enquanto o grupo busca reorganizar suas finanças.

Ao mesmo tempo, o momento delicado já vinha acompanhado de aumento nas reclamações de consumidores. Dados do Procon-SP apontam que as queixas contra a empresa cresceram 65% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Reclamações relacionadas à demora ou não entrega de produtos já superaram, nos primeiros sete meses deste ano, o total registrado durante todo 2025.

Fornecedores também acompanham a crise

A recuperação judicial não afeta somente bancos e investidores. Grandes fornecedores também aparecem entre os credores da companhia.

A lista inclui empresas como Samsung, Electrolux, LG, Motorola, Britânia e TCL/Semp. A situação já levou a Grupo Multi, antiga Multilaser, a informar uma provisão de aproximadamente R$ 20 milhões para possíveis perdas relacionadas a valores a receber da Casas Bahia.

O episódio evidencia como a crise de uma grande varejista pode atingir diferentes setores da economia, desde fabricantes e fornecedores até trabalhadores, investidores e proprietários de imóveis comerciais.

Impacto para Alagoas

Embora o centro das negociações esteja em São Paulo e a crise tenha abrangência nacional, a situação também pode ter reflexos em Alagoas.

A Casas Bahia possui presença histórica no mercado nordestino e mantém atuação por meio de lojas físicas e comércio eletrônico. Uma eventual redução da rede de estabelecimentos pode afetar empregos, fornecedores locais, prestadores de serviços e o movimento comercial em cidades onde a marca está presente.

Para os consumidores alagoanos, a principal recomendação é acompanhar os canais oficiais da empresa em caso de compras já realizadas, especialmente quando houver atraso na entrega, necessidade de troca, cancelamento ou reembolso.

O pedido de recuperação judicial, por si só, não elimina os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor.

Crise chama atenção para cenário do varejo

O caso da Casas Bahia ocorre em um período de forte pressão sobre o varejo brasileiro.

Economistas apontam que a combinação de juros elevados, custo do crédito, inadimplência das famílias e concorrência de grandes plataformas digitais dificulta a recuperação de empresas que dependem de financiamento e vendas parceladas.

A Casas Bahia também enfrenta o desafio de equilibrar sua extensa estrutura física com o crescimento do comércio eletrônico. Dados recentes mostram avanço do canal digital, enquanto a empresa reduz sua presença em lojas consideradas menos rentáveis.

O que acontece agora?

Com a recuperação judicial em andamento, a Casas Bahia deverá apresentar e negociar um plano com seus credores, enquanto busca preservar o caixa necessário para manter a operação.

A possibilidade de um financiamento DIP continua sendo avaliada, mas não há, até o momento, confirmação de um empréstimo de R$ 1 bilhão.

O futuro da companhia dependerá da capacidade de reorganizar suas dívidas, reduzir custos, manter o abastecimento das lojas e recuperar a confiança de consumidores, fornecedores, trabalhadores e investidores.

A resposta enviada à CVM deixa claro que a empresa está buscando alternativas, mas que as negociações ainda estão em andamento.