Na manhã desta quinta-feira (20), o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Bebedouro recebeu uma roda de conversa do projeto Ciclo de Cuidados, que reuniu adolescentes, mães e profissionais para um momento de informação e conscientização sobre a saúde feminina. A atividade abordou temas como higiene íntima, dignidade menstrual, autocuidado, prevenção à violência contra a mulher e acesso aos direitos.
A iniciativa integra as ações realizadas durante o Agosto Lilás e visa ampliar o acesso à informação sobre os cuidados com a saúde feminina, além de fortalecer, desde a adolescência, o respeito às mulheres e a prevenção às diferentes formas de violência. A programação também contou com orientações sobre o Programa Dignidade Menstrual e a distribuição de absorventes.
Segundo a coordenadora de Enfrentamento à Violência e Acolhimento às Mulheres da Secretaria Municipal da Mulher, Pessoas com Deficiência, Idosos e Cidadania (Semuc), Mariana Alves, a atividade foi realizada a partir do apoio do Cras e de outras instituições da região, levando em consideração situações vivenciadas pelas adolescentes no ambiente escolar.

“O objetivo central está inserido nas ações do Agosto Lilás. Decidimos trazer o projeto Ciclo de Cuidados para esta unidade após a assistente social nos relatar uma forte parceria com a escola da região. Identificamos que muitas dessas adolescentes sofrem bullying no ambiente escolar, devido ao período menstrual, seja por episódios de vazamento ou por alterações comportamentais comuns à fase, o que gera preconceitos. Portanto, unimos a campanha do Agosto Lilás ao programa de Dignidade Menstrual”, explicou Mariana.
A coordenadora também destacou a importância de levar informações sobre o funcionamento do próprio corpo para as adolescentes e transformar assuntos que ainda são considerados tabus em temas de diálogo e orientação.
“Observamos uma carência significativa de conhecimento sobre o funcionamento do próprio corpo. Elas têm dúvidas sobre a regularidade do ciclo menstrual, a normalidade das cólicas e os intervalos entre as menstruações. A saúde sexual e reprodutiva ainda é um tabu, e o projeto nos permite abordar esses temas de forma natural e educativa”, pontuou.
Educação e prevenção
Para a assistente social Elenilda Felizmino, do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da instituição Juvenópolis, localizada nas proximidades do Parque Municipal, em Bebedouro, incluir os adolescentes do sexo masculino nesse tipo de conversa também é uma forma de trabalhar a prevenção à violência desde cedo.
“O objetivo central é disseminar conhecimento sobre a realidade atual da violência contra a mulher, tanto em nosso município quanto em outras localidades. Reforçamos o debate durante o Agosto Lilás e consideramos fundamental incluir também os adolescentes do sexo masculino, pois acreditamos que a educação e a conscientização deles são medidas preventivas essenciais para a redução desses índices de violência”, destacou.
De acordo com Elenilda, o trabalho de orientação também é desenvolvido de forma contínua com crianças e adolescentes atendidos pela instituição, considerando as diferentes faixas etárias. As famílias também participam por meio de reuniões e grupos de acompanhamento.
“Temos contato constante por meio de grupos de WhatsApp e reuniões. Temos, inclusive, um grupo de mães que se reúne às quintas-feiras, onde trabalhamos temas como a violência doméstica, tanto com elas quanto com a equipe de educadores”, explicou.
A assistente social informou ainda que 17 adolescentes atendidos pelo serviço participaram da atividade no Cras Bebedouro. Além das ações educativas, os jovens podem receber atendimento individual e em grupo e, quando necessário, são encaminhados para a rede de saúde.

Respeito também se aprende
A roda de conversa também mostrou aos adolescentes que o respeito às meninas e às mulheres começa em atitudes simples do dia a dia, principalmente diante de situações que ainda podem gerar constrangimento, como a percepção por parte dos meninos de manchas de sangue na roupa, durante o período menstrual.
O educador social Aislan de Farias, 25 anos, participou da atividade e destacou a importância de combater brincadeiras e comentários que possam constranger as meninas.

“Estou achando bastante interessante. As informações são bem necessárias. É superimportante para aumentar o conhecimento. Acho que as pessoas deveriam ter mais respeito com as colegas quando elas estivessem nesse período, porque é uma coisa natural de todas as mulheres. Muita gente às vezes fica tirando sarro, fazendo brincadeiras que não convêm. É muito importante essa palestra para conscientizar o pessoal a ter mais respeito com elas”, afirmou.
Aluno da Escola Estadual Alberto Torres, o adolescente Israel Caetano, 14 anos, também participou da roda de conversa. Para ele, compreender melhor as situações vivenciadas pelas meninas é uma forma de contribuir para um ambiente mais respeitoso. “Eu acho que esse é um assunto muito importante, ter prevenção contra a violência contra a mulher. Sobre a menstruação, eu faço o que posso para ajudar, como oferecer um casaco para colocar na cintura caso a menina se suje”, contou.

Israel também destacou a importância de os meninos refletirem sobre comportamentos machistas. “Nem sempre nós, homens, devemos ter essa aparência de sermos violentos ou machistas. Temos que dar exemplo”, completou.
Informação que chega às famílias
A atividade também contou com a participação de mães e mulheres que estavam no Cras Bebedouro. Uma delas foi Juliana Santos, 27 anos, mãe de dois filhos. Ela soube da roda de conversa, enquanto levava o filho à creche e decidiu participar. “Me deu um grande interesse. Uma pessoa explicou que teria uma roda de conversa com mulheres, que seria importante e que eu iria gostar. Então eu vim”, relatou.
Para Juliana, o encontro foi uma oportunidade de conhecer melhor os serviços disponíveis e esclarecer dúvidas relacionadas à saúde feminina. “É muito interessante, porque fala sobre a saúde da mulher e sobre o acolhimento que eles dão para a gente. Tudo que a gente precisar, a gente pode contar com esse pessoal”, afirmou.
Durante o bate-papo, ela também conheceu melhor o funcionamento do Programa Dignidade Menstrual e descobriu que pode ter acesso gratuito aos absorventes, conforme os critérios do programa. “A grande descoberta foi que a gente pode pegar absorventes gratuitamente. Se você for ao posto de saúde, eles dão a orientação e a gente pode ir diretamente pegar o nosso kit”, contou.

Para Juliana, ter um espaço aberto para conversar sobre saúde feminina também contribui para que as mulheres se sintam mais seguras para tirar dúvidas e buscar ajuda. “É muito bom. Você começa a tirar dúvidas, fica mais à vontade e se sente mais apoiada, acolhida”, destacou.
Ao falar sobre o significado de cuidar de si mesma, Juliana resumiu o sentimento após participar da atividade. “Eu sou suspeita, porque eu amo ser mulher. E agora, principalmente, porque a gente é acolhida em relação até à proteção. Não é só a saúde. É o conjunto todo”, afirmou.
Dignidade menstrual
Durante a roda de conversa, as participantes também receberam orientações sobre o Programa Dignidade Menstrual, iniciativa que garante absorventes gratuitamente para pessoas que menstruam e que atendem aos critérios estabelecidos pelo Governo Federal.
O programa é destinado a pessoas de 10 a 49 anos inscritas no Cadastro Único e que estejam dentro dos critérios de vulnerabilidade definidos. Cada beneficiária pode retirar até 40 absorventes a cada 56 dias.
A autorização para retirada dos absorventes pode ser emitida pelo aplicativo ou pela versão web do Meu SUS Digital, utilizando a conta Gov.br. Quem tiver dificuldade pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber orientação.
Além das UBS, equipamentos da assistência social, como Cras, Creas e Centro Pop, também podem auxiliar no acesso às informações sobre o programa. Para retirar os absorventes em uma farmácia credenciada ao Programa Farmácia Popular, é necessário apresentar documento oficial com foto e CPF, além da autorização do Programa Dignidade Menstrual.
Ciclo de Cuidados
O projeto Ciclo de Cuidados é desenvolvido durante o mês de agosto por meio de rodas de conversa que promovem informação e diálogo sobre saúde feminina, higiene íntima, dignidade menstrual, autocuidado e direitos.
A proposta é aproximar as informações do público atendido pela rede socioassistencial e por instituições parceiras, criando espaços de escuta e orientação para mulheres, adolescentes e famílias.
Além das orientações, a ação também possibilita a distribuição de absorventes e materiais informativos, fortalecendo o acesso das participantes aos serviços e às políticas públicas voltadas à saúde e à proteção das mulheres.
