Um homem condenado por homicídio entregou à Polícia Federal um conjunto de documentos que, segundo sua defesa, podem ajudar a comprovar um suposto esquema envolvendo políticos e empresários no Maranhão. Entre os materiais apresentados estão uma etiqueta que acompanhava um maço de dinheiro em espécie, uma fotografia de um veículo e uma anotação manuscrita com números de processos.
O homem é Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato de um homem ocorrido em agosto de 2022, em um centro comercial de São Luís. A defesa apresentou os documentos à PF no contexto das investigações que passaram a relacionar o homicídio a uma possível disputa envolvendo dinheiro e contratos públicos.
Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira (21), a defesa afirma que Gilbson teria sido procurado para atuar na cobrança de valores de empresas que tinham créditos a receber do governo do Maranhão referentes a administrações anteriores. A suspeita apresentada aos investigadores é de que parte dos valores recebidos seria posteriormente devolvida em forma de propina.
A versão consta de uma petição encaminhada à Polícia Federal e ainda depende da apuração dos investigadores.
Documentos entregues aos investigadores
Entre os materiais entregues está uma folha com anotações de números de processos. Segundo a defesa, a relação teria sido repassada a Gilbson para que ele identificasse empresas com valores elevados a receber do governo.
Outro item apresentado é uma fotografia de um veículo que, de acordo com o relato da defesa, teria sido utilizado em uma ocasião relacionada ao transporte ou recebimento de dinheiro.
Também foi entregue uma etiqueta que acompanhava um dos maços de dinheiro recebidos. Conforme a defesa, a identificação permitiria aos investigadores tentar descobrir a agência bancária responsável pelo saque e, eventualmente, chegar à origem dos recursos.
O material inclui ainda registros de contatos telefônicos e um comprovante de pagamento relacionado a uma das empresas mencionadas no depoimento.
Homicídio passou a ser investigado sob outra perspectiva
O assassinato ocorreu em agosto de 2022, no centro comercial Tech Office, em São Luís. Inicialmente, a investigação da Polícia Civil tratou o crime como resultado de uma discussão de caráter pessoal.
Gilbson foi julgado em 2024 e condenado individualmente a 13 anos de prisão.
Posteriormente, a Polícia Federal passou a investigar uma possível relação entre o homicídio e um suposto esquema envolvendo cobrança de valores e distribuição de propinas relacionadas a contratos públicos. A nova linha de investigação levou o caso ao Supremo Tribunal Federal.
Em depoimento, Gilbson afirmou ter participado de reuniões com o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), no Palácio dos Leões, sede do governo estadual. Ele também relatou, segundo a defesa, ter transportado dinheiro em espécie para o local.
As acusações, contudo, são contestadas pelo governador.
Suspeita de pagamento para manter silêncio
Outro ponto apresentado pela defesa é a alegação de que Gilbson e familiares teriam recebido dinheiro para que ele não revelasse informações sobre o suposto esquema.
Segundo a versão apresentada à PF, teria sido combinado um pagamento mensal de R$ 30 mil, mas apenas metade desse valor teria chegado à família do condenado.
A defesa afirma que os pagamentos eram feitos em dinheiro vivo e que um dos registros fotográficos apresentados aos investigadores foi produzido durante um encontro relacionado a essa suposta entrega.
Cabe à Polícia Federal verificar a autenticidade dos documentos, a origem dos valores e a relação entre os elementos apresentados e os fatos investigados.
Sobrinho de Brandão foi afastado do TCE
O caso também envolve o presidente afastado do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão, sobrinho do governador.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento de Daniel Brandão da presidência do TCE-MA por 180 dias no âmbito das investigações. Ele é suspeito de participação no suposto esquema e estava presente na reunião ocorrida no Tech Office quando o homicídio foi cometido.
Daniel Brandão nega as acusações e afirma que demonstrará sua inocência. Ele também declarou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Governador nega acusações
Carlos Brandão também rejeitou as acusações apresentadas pelo condenado. Em manifestação divulgada após a divulgação do depoimento, o governador questionou a credibilidade de Gilbson, destacando que ele é um réu confesso condenado por homicídio.
Brandão afirmou ainda que não existem provas das acusações feitas contra ele e reclamou de não ter acesso integral aos autos da investigação.
A defesa do governador também destacou que a Procuradoria-Geral da República teria se manifestado contrariamente à tramitação do caso no Supremo Tribunal Federal.
As acusações apresentadas por Gilbson ainda são objeto de investigação e não representam, por si só, comprovação de crime por parte dos citados.
