A decisão da Braskem de avançar com um pedido de recuperação extrajudicial coloca novamente a empresa no centro do noticiário nacional e também reacende, em Alagoas, a discussão sobre um dos maiores desastres socioambientais já registrados no estado.
O Conselho de Administração da petroquímica aprovou nesta segunda-feira (24) o pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas, valor equivalente a cerca de R$ 56 bilhões pela cotação considerada nas reportagens desta segunda. A companhia busca criar um ambiente protegido para negociar com os credores.
A medida é essencialmente financeira e, segundo a própria Braskem, não inclui obrigações com fornecedores, clientes e demais partes relacionadas às operações da empresa.
Mas, para os alagoanos, o nome Braskem carrega uma história que vai muito além dos números da dívida.
Como a mineração mudou Maceió
A exploração de sal-gema em Maceió começou em 1976, inicialmente pela Salgema Indústrias Químicas. A empresa passou por mudanças societárias até chegar à denominação Braskem, em 2002.
O sal-gema é utilizado na produção de produtos químicos, entre eles soda cáustica e PVC.
O problema que transformaria a paisagem da capital alagoana começou a ficar evidente em 2018, quando moradores do Pinheiro passaram a conviver com rachaduras em casas, ruas e imóveis.
Em março daquele ano, um tremor de magnitude 2,5 foi registrado em Maceió e aumentou a preocupação com a instabilidade do solo.
Nos meses seguintes, as rachaduras apareceram também em Mutange e Bebedouro, enquanto estudos passaram a investigar a relação entre a atividade mineradora e o fenômeno.
Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) apontou a relação entre a exploração de sal-gema e a instabilidade do terreno.
A partir daí, a retirada de moradores das áreas consideradas de risco se intensificou.
Mais de 60 mil pessoas foram afetadas
O desastre provocou uma das maiores transformações urbanas da história recente de Maceió.
Mais de 14 mil imóveis foram desocupados, afetando aproximadamente 60 mil pessoas, segundo levantamentos citados pelo g1 e estudos sobre o processo de subsidência.
Bairros inteiros perderam moradores e atividades comerciais. Ruas que antes tinham intenso movimento ficaram vazias.
O cenário deu origem ao que passou a ser chamado de “bairros fantasmas”.
A desocupação atingiu principalmente áreas do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e posteriormente setores de outros bairros próximos.
A dimensão humana do problema permanece até hoje: famílias foram obrigadas a abandonar casas onde viveram durante décadas, comerciantes perderam pontos de trabalho e comunidades foram desestruturadas.
Mina 18: o momento mais crítico
Um dos momentos de maior tensão ocorreu em dezembro de 2023, quando uma das minas de sal-gema, a Mina 18, apresentou risco de colapso na região próxima à Lagoa Mundaú.
Moradores de áreas próximas foram retirados preventivamente.
Em 10 de dezembro de 2023, parte da estrutura da Mina 18 se rompeu. A Defesa Civil informou posteriormente que a cavidade havia sido preenchida por material proveniente da própria lagoa e que a situação havia se estabilizado.
O episódio provocou repercussão nacional e levou autoridades a reforçarem o monitoramento da região.
Indenizações e acordos
A Braskem criou um programa de compensação financeira para moradores e proprietários atingidos.
A empresa também firmou acordo com a Prefeitura de Maceió para pagamento de R$ 1,7 bilhão relacionado aos prejuízos provocados pela subsidência e pelo processo de desocupação. A própria companhia informa que o acordo foi firmado em 2023.
Em 2025, outro acordo de grande repercussão foi anunciado entre a Braskem e o Governo de Alagoas, envolvendo R$ 1,2 bilhão, com previsão de pagamento ao longo de dez anos.
Mesmo com os acordos, a discussão sobre valores de indenização, danos individuais e coletivos e impactos que ultrapassam as áreas originalmente delimitadas permanece na Justiça.
Justiça tornou Braskem ré em ação penal
A questão também avançou na esfera criminal.
Em junho deste ano, a Justiça Federal em Alagoas recebeu parcialmente a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a Braskem, ex-dirigentes e técnicos ligados à atividade de mineração.
A decisão abriu uma nova etapa da ação penal que apura responsabilidades pelo desastre socioambiental.
Segundo informações da Justiça Federal, a denúncia apresenta acusações relacionadas à atividade minerária e aos danos provocados na capital.
A Braskem passou, portanto, a responder como ré no processo criminal, juntamente com pessoas ligadas à gestão e à operação da mineração.
É importante ressaltar que o recebimento da denúncia não significa condenação. A responsabilidade dos acusados ainda será analisada durante o processo judicial.
Impactos continuam além das áreas desocupadas
Um dos pontos que mais preocupam moradores e órgãos de defesa dos direitos da população é a possibilidade de que os impactos sejam mais amplos do que a área inicialmente considerada de risco.
A Defensoria Pública de Alagoas já apontou problemas relacionados ao chamado isolamento ou “ilhamento socioeconômico” em regiões como os Flexais, além de áreas do Bom Parto.
Esses locais permaneceram habitados, mas sofreram impactos decorrentes da desocupação das áreas vizinhas, como perda de comércio, circulação de pessoas e serviços.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre casas atingidas diretamente pelo afundamento e passou a envolver também os efeitos econômicos, sociais e urbanos provocados pela transformação de toda a região.
O que a recuperação da Braskem significa para Alagoas?
É justamente nesse ponto que o pedido de recuperação extrajudicial ganha importância para o estado.
A Braskem afirma que o processo possui escopo estritamente financeiro e que suas obrigações com clientes e fornecedores continuam normalmente.
Ainda assim, a situação financeira da companhia passa a ser acompanhada de perto em Alagoas porque a empresa continua envolvida em compromissos relacionados ao caso Maceió.
A recuperação extrajudicial busca reorganizar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas e prevê uma janela de proteção para que a empresa avance nas negociações com os credores. Para aprovação do plano definitivo, será necessário alcançar o apoio exigido entre as classes de credores.
Na prática, o grande questionamento para Alagoas é se a reestruturação financeira terá algum impacto sobre os compromissos assumidos pela companhia relacionados ao desastre.
Até o momento, não há indicação de que os acordos e obrigações com moradores, poder público ou demais envolvidos no caso Maceió estejam automaticamente suspensos pela recuperação extrajudicial. A própria empresa afirma que o processo está limitado às obrigações financeiras abrangidas pela reestruturação.
Braskem tenta superar crise financeira
A crise atual da petroquímica não tem uma única causa.
A companhia enfrenta um período prolongado de dificuldades no mercado petroquímico, com margens pressionadas, elevado endividamento e problemas também envolvendo sua operação no México.
A subsidiária Braskem Idesa entrou recentemente com pedido de proteção pelo mecanismo Chapter 11 nos Estados Unidos para reestruturar uma dívida superior a US$ 920 milhões. A Braskem prevê aporte de US$ 476 milhões na operação mexicana.
No Brasil, a dívida da companhia alcança aproximadamente US$ 10,9 bilhões.
Mesmo tendo registrado lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, a empresa continua sob forte pressão financeira.
A agência Fitch chegou a rebaixar a classificação da Braskem para “RD” (inadimplência restrita) após atrasos relacionados ao pagamento de juros.
Uma crise financeira com uma história que Alagoas não esquece
Para o mercado, a recuperação extrajudicial representa uma tentativa de reorganizar as finanças da petroquímica.
Para Alagoas, entretanto, o episódio traz de volta uma questão muito mais profunda.
O caso Braskem deixou marcas permanentes na geografia de Maceió, retirou milhares de pessoas de suas casas, alterou comunidades inteiras e ainda produz consequências jurídicas, ambientais, econômicas e sociais.
Enquanto a empresa tenta reorganizar uma dívida bilionária, moradores atingidos continuam acompanhando os desdobramentos dos processos de indenização e das ações judiciais.
O desafio para Alagoas é garantir que a reestruturação financeira da companhia não se transforme em um obstáculo para o cumprimento das obrigações relacionadas aos danos provocados pela mineração.
E, principalmente, que a história de bairros como Pinheiro, Mutange e Bebedouro não seja reduzida a números em balanços financeiros.
