O avanço da desertificação no Brasil voltou a colocar o Semiárido nordestino no centro das discussões ambientais. O fenômeno, que está relacionado à degradação do solo em regiões secas, ameaça a disponibilidade de água, a produção de alimentos, a biodiversidade e a economia de comunidades que dependem diretamente da terra.
Em Alagoas, o alerta ganha uma dimensão ainda maior por causa da presença do Semiárido e da Caatinga em parte significativa do território. Estudos e levantamentos realizados ao longo dos últimos anos apontam áreas do interior alagoano submetidas a diferentes níveis de degradação, cenário que pode ser agravado pelas mudanças climáticas e pelo uso inadequado do solo.
Dados apresentados pela Agência Brasil mostram que cerca de 39 milhões de brasileiros vivem atualmente em áreas ameaçadas pela desertificação. Em todo o país, aproximadamente 18% do território está classificado como Área Suscetível à Desertificação (ASD).
Entre 2000 e 2020, a área afetada pelo processo passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados. O aumento de 170 mil km² equivale, aproximadamente, à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
Alagoas está entre os estados mais vulneráveis
O problema se concentra principalmente nos nove estados nordestinos. Em Alagoas, a preocupação é especialmente relevante no Sertão e em áreas do Agreste, onde as características climáticas, a disponibilidade de água e as atividades agropecuárias podem aumentar a vulnerabilidade do território.
Levantamento divulgado em junho deste ano apontou que cerca de 65 municípios alagoanos estão sujeitos à desertificação, abrangendo uma área estimada em aproximadamente 20 mil quilômetros quadrados. A informação foi apresentada pelo ecologista Ricardo Ramalho, especialista no tema.
Pesquisas acadêmicas também identificam sinais de degradação em áreas do Semiárido de Alagoas. Um estudo desenvolvido com imagens de satélite e observações de campo identificou regiões suscetíveis ao processo de desertificação na Bacia Leiteira alagoana, destacando a influência de fatores como o manejo do solo e a atividade pecuária.
O cenário preocupa porque a perda da qualidade do solo afeta diretamente atividades essenciais para a população do interior, como agricultura e criação de animais.
O impacto na água
A desertificação não significa apenas perda de vegetação. À medida que o solo se degrada, sua capacidade de armazenar água diminui, aumentando a vulnerabilidade das comunidades aos períodos de estiagem.
Esse processo pode comprometer nascentes, rios, reservatórios e a produção agrícola, criando um ciclo de degradação: menos vegetação, maior erosão, menor retenção de água e mais dificuldade para produzir alimentos.
A preocupação também ultrapassa o campo. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil destacam que os efeitos da desertificação chegam às cidades, afetando a economia, a disponibilidade de alimentos e a segurança hídrica.
Em Alagoas, o alerta ocorre em um momento no qual o estresse hídrico já produz reflexos sobre a agricultura. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), divulgados em julho, apontaram que o déficit de água poderia provocar perdas potenciais de aproximadamente 35,8% na produtividade do milho de terceira safra na região do Sealba, que reúne Sergipe, Alagoas e Bahia.
Caatinga é peça-chave no combate
A Caatinga é um dos principais biomas afetados pelo processo de degradação. Segundo dados apresentados na reportagem da Agência Brasil, 11% da Caatinga está em situação crítica ou severa de deterioração do solo, o equivalente a cerca de 100 mil quilômetros quadrados. Além disso, aproximadamente 42,6% da vegetação nativa do bioma já foi suprimida.
Apesar dos impactos, pesquisadores ressaltam que a Caatinga também é parte importante da solução para a crise climática.
Levantamentos citados pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) indicam que o bioma apresenta elevada capacidade de armazenamento de carbono. Segundo os pesquisadores, grande parte desse carbono permanece armazenada no próprio solo, reforçando a importância da conservação da vegetação e do manejo adequado da terra.
Recursos para recuperar áreas degradadas
O combate à desertificação também começa a ganhar novos instrumentos de política pública.
Em março deste ano, o governo federal lançou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), que prevê ações integradas envolvendo meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e tecnologia.
Outra iniciativa é o Programa Recaatingar, lançado em junho, que estabeleceu como meta recuperar produtivamente 10 milhões de hectares de terras degradadas da Caatinga nos próximos 20 anos. A proposta inclui recuperação do solo, segurança hídrica, restauração produtiva e adaptação às mudanças climáticas.
Em Alagoas, 29 municípios estão aptos a disputar recursos do Edital Recaatingar, que prevê R$ 60 milhões para projetos de recuperação de áreas degradadas da Caatinga e desenvolvimento sustentável de comunidades do Semiárido.
O desafio para o interior de Alagoas
Para o estado, o enfrentamento da desertificação representa uma questão que vai além da preservação ambiental. Está diretamente relacionado à permanência das famílias no campo, à produção de alimentos, à geração de renda e à disponibilidade de água.
A degradação do solo pode reduzir a capacidade produtiva das propriedades rurais e aumentar a vulnerabilidade das comunidades diante de períodos prolongados de seca. Ao mesmo tempo, técnicas de convivência com o Semiárido, recuperação da vegetação, manejo sustentável e armazenamento de água podem ajudar a interromper esse ciclo.
O Plano de Ação Estadual de Alagoas para o Combate à Desertificação já identificava, em levantamentos anteriores, a presença de áreas de Caatinga antropizadas em dezenas de municípios do estado, reforçando que o problema não é recente e exige acompanhamento permanente.
Repercussão nacional
O alerta ocorre às vésperas da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que será realizada na Mongólia entre 17 e 28 de agosto. O Brasil participa das discussões justamente em um momento de ampliação das preocupações sobre degradação da terra, segurança alimentar e mudanças climáticas.
A expectativa é que a Caatinga tenha espaço nas discussões internacionais. Pesquisadores defendem que o bioma seja reconhecido como parte importante da resposta brasileira às mudanças climáticas e não apenas como uma região afetada pela degradação.
Para Alagoas, a discussão internacional tem reflexos concretos: preservar a Caatinga significa também proteger água, solo, produção rural e o modo de vida de milhares de pessoas que vivem no interior.
O alerta dos especialistas é claro: combater a desertificação não significa apenas recuperar áreas que já foram degradadas, mas evitar que novas regiões entrem no mesmo processo. No Semiárido alagoano, preservar hoje pode significar garantir água, alimento e renda para as próximas gerações.
