A intensificação do fenômeno El Niño pode trazer impactos para além das condições climáticas e chegar ao bolso dos consumidores brasileiros. Projeções de economistas indicam que, em um cenário de forte atuação do fenômeno, os preços de alimentos in natura podem subir até 19,9% em 12 meses, aumentando a pressão sobre a inflação.
O efeito não deve ser uniforme entre os produtos ou regiões do país. Culturas como milho, café, frutas, hortaliças, arroz e trigo estão entre as que podem sofrer alterações na produção em razão da mudança no regime de chuvas e das temperaturas.
Segundo análises divulgadas recentemente, um cenário de El Niño moderado poderia provocar alta de aproximadamente 13,4% nos alimentos in natura. Já em uma situação mais intensa, a elevação poderia chegar perto de 20%.
O impacto sobre a alimentação consumida dentro de casa, porém, seria menor. A estimativa é de avanço de cerca de 2% em um cenário moderado e de aproximadamente 6,3% caso o fenômeno seja forte. Como os alimentos in natura representam apenas uma parcela da composição do índice oficial de inflação, o reflexo sobre o IPCA também é diluído.
Clima pode afetar produção em diferentes regiões
O El Niño provoca alterações nos padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo. No Brasil, historicamente, o fenômeno costuma estar associado a chuvas mais intensas no Sul e a condições mais secas em áreas do Centro-Norte.
Esse cenário pode prejudicar diferentes etapas do calendário agrícola. Atrasos na colheita, por exemplo, podem comprometer o plantio da cultura seguinte e reduzir a produtividade.
O milho aparece entre os produtos que despertam maior preocupação. Além de ser consumido diretamente, o cereal é utilizado na produção de ração animal e de etanol. Uma eventual redução da oferta pode aumentar os custos de criação de aves e suínos e, consequentemente, provocar reflexos também nos preços das proteínas animais.
Frutas e hortaliças também são consideradas vulneráveis porque respondem rapidamente às mudanças de temperatura e umidade. Excesso de chuva, estiagens prolongadas ou temperaturas fora do padrão podem provocar perdas e reduzir a oferta nos mercados.
Café, arroz e trigo também estão no radar
O café é outro produto que pode sofrer influência do fenômeno. A ocorrência de chuvas durante períodos importantes para a florada pode ser benéfica quando acontece na intensidade adequada, mas excesso de precipitação ou temperaturas desfavoráveis podem comprometer a produção.
No Sul, o excesso de chuva representa uma preocupação adicional para culturas como trigo e para a produção de leite. No caso do trigo, entretanto, uma eventual redução da produção brasileira pode ter parte do impacto compensado pelas importações, principalmente da Argentina.
O arroz também está entre os produtos que podem ser afetados pelas mudanças no regime climático, especialmente em regiões onde a produção depende de condições específicas de chuva e disponibilidade de água.
Efeito pode chegar ao supermercado
A relação entre clima e preços ocorre principalmente por meio da oferta. Quando uma lavoura é afetada e a quantidade disponível diminui, os preços tendem a subir caso a demanda permaneça elevada.
Esse movimento pode chegar ao consumidor de maneira gradual. O impacto dos eventos climáticos nem sempre aparece imediatamente nas prateleiras, já que existe um intervalo entre a ocorrência do problema no campo, a redução da oferta e a formação dos preços ao longo da cadeia.
Estimativas citadas em análises econômicas apontam que um El Niño forte poderia acrescentar aproximadamente 0,83 ponto percentual ao IPCA por meio do impacto dos alimentos. Em um cenário moderado, o efeito estimado seria de cerca de 0,36 ponto percentual.
Economistas também alertam que o fenômeno pode dificultar o processo de desinflação, justamente em um momento no qual os preços dos alimentos têm peso importante no orçamento das famílias.
Fenômeno ganha força no segundo semestre
O El Niño de 2026 vem sendo acompanhado com atenção por instituições meteorológicas e pelo mercado. Previsões recentes apontam para a possibilidade de um episódio de forte intensidade entre o fim deste ano e o início de 2027.
A Reuters informou que o fenômeno deve alterar padrões de chuva em várias regiões produtoras do mundo, aumentando os riscos para as cadeias globais de alimentos. No Brasil, uma das principais preocupações está relacionada à combinação de chuvas excessivas no Sul e condições mais secas em outras áreas do território.
Os impactos, entretanto, não serão necessariamente negativos para todas as culturas. Algumas regiões podem se beneficiar das condições climáticas enquanto outras enfrentam perdas. Por isso, especialistas ressaltam que o efeito sobre os preços dependerá da intensidade, duração e distribuição regional do fenômeno.
Consumidor deve ficar atento
Caso as previsões de um El Niño forte se confirmem, os efeitos podem aparecer de maneira diferente entre os produtos. Alimentos mais sensíveis às condições climáticas tendem a responder mais rapidamente às alterações na produção, enquanto outros podem sofrer impactos indiretos por meio do aumento dos custos de ração, transporte e insumos.
Para o consumidor, a principal consequência pode ser uma nova pressão sobre o orçamento doméstico, especialmente caso a alta dos alimentos ocorra simultaneamente ao aumento de outros custos da cadeia produtiva.
O cenário ainda depende da evolução do fenômeno nos próximos meses. Por isso, produtores, empresas e autoridades acompanham os boletins meteorológicos e as projeções para avaliar possíveis perdas e adotar medidas preventivas.
