O governo brasileiro decidiu manter uma postura de cautela diante das novas medidas adotadas pelos Estados Unidos e, por enquanto, não pretende responder com uma retaliação tarifária imediata. A avaliação dentro do Planalto é de que uma reação direta poderia ampliar o conflito comercial e reduzir o espaço para negociações entre os dois países.

A estratégia adotada é considerada pelo governo uma resposta calculada à escalada promovida pela administração de Donald Trump. A prioridade, segundo interlocutores do governo, é preservar canais de diálogo e buscar alternativas que reduzam os impactos das medidas norte-americanas sobre empresas e setores da economia brasileira.

As novas medidas se somam ao conjunto de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Parte das cobranças entrou em vigor ao longo de julho, enquanto Washington também manteve medidas relacionadas à declaração de emergência envolvendo o Brasil. A renovação da emergência, no entanto, não representa, por si só, a criação de uma nova tarifa ou sanção.

Governo evita ampliar confronto

A avaliação de integrantes do governo é que o atual cenário já impõe um nível elevado de pressão comercial sobre as exportações brasileiras. Por isso, uma resposta imediata com tarifas contra produtos norte-americanos não é considerada, neste momento, a melhor alternativa.

O Brasil já indicou que pretende utilizar mecanismos previstos na legislação nacional e recorrer a instrumentos internacionais para contestar as medidas adotadas pelos Estados Unidos. Entre as alternativas estão a Lei da Reciprocidade Econômica e os mecanismos de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A orientação é evitar uma escalada que possa provocar novas barreiras comerciais e aumentar ainda mais os custos para empresas brasileiras que dependem do mercado norte-americano.

Pressão permanece sobre relação entre os países

Apesar da tentativa de manter uma postura diplomática, a relação entre Brasília e Washington continua marcada por tensão.

O governo brasileiro contestou publicamente os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para justificar a manutenção do estado de emergência relacionado ao Brasil. Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência classificou como infundadas as alegações de que o país representaria uma ameaça à segurança nacional ou à política externa norte-americana.

A Casa Branca, por sua vez, mantém a possibilidade de endurecer as medidas caso o Brasil adote ações consideradas retaliatórias. Em uma ordem executiva anterior, o governo Trump estabeleceu que poderia ampliar as tarifas caso o governo brasileiro respondesse com aumento das taxas sobre produtos norte-americanos.

Disputa também envolve questões políticas

Além da questão comercial, o conflito entre os dois governos ganhou uma dimensão política e diplomática. Autoridades norte-americanas têm feito críticas a decisões de instituições brasileiras, enquanto o governo Lula afirma que questões relacionadas ao funcionamento das instituições e ao processo eleitoral brasileiro são assuntos internos do país.

Nos últimos dias, a tensão também aumentou após o Brasil negar vistos a funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que planejavam visitar o país. O episódio passou a ser acompanhado com atenção por Brasília diante da possibilidade de novas medidas diplomáticas por parte de Washington.

Mesmo diante desse cenário, a avaliação no governo brasileiro é de que uma resposta precipitada poderia favorecer uma escalada do conflito.

Próximos passos

A estratégia do Planalto é ganhar tempo para avaliar os efeitos concretos das tarifas sobre os diferentes setores da economia e ampliar as negociações antes de adotar medidas adicionais.

O governo também trabalha para identificar os segmentos mais afetados e buscar mecanismos de proteção para empresas brasileiras que possam sofrer perdas com a redução das exportações para os Estados Unidos.

A aposta, neste momento, é em uma combinação de negociação diplomática, instrumentos comerciais e ações internacionais, mantendo aberta a possibilidade de novas medidas caso o cenário se agrave.