A eleição presidencial de 2026 chega à reta final das convenções com um cenário pouco comum na política brasileira: entre as principais candidaturas oficializadas, apenas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) formou uma chapa presidencial com integrantes de partidos diferentes.
Lula terá novamente o vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, como companheiro de chapa. Do outro lado, Flávio Bolsonaro (PL) terá o deputado federal alagoano Alfredo Gaspar (PL) como vice — os dois pertencentes à mesma legenda.
O levantamento foi divulgado pelo R7, a partir das atas das convenções partidárias registradas no sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o levantamento, dez das 11 chapas presidenciais oficializadas são compostas por candidatos a presidente e vice do mesmo partido.
A configuração também chama atenção porque, historicamente, a escolha do vice costuma ser utilizada pelos partidos como instrumento para ampliar alianças, conquistar apoio regional e agregar diferentes setores políticos à candidatura presidencial.
Lula mantém aliança com o PSB
A composição entre PT e PSB foi mantida para a disputa deste ano. A convenção nacional do PSB confirmou Alckmin como candidato a vice-presidente na chapa de Lula e ratificou a aliança entre as duas siglas.
A chapa reúne dois partidos que integram o campo político governista e faz parte de uma estratégia mais ampla de articulação da esquerda para a campanha de reeleição do presidente.
Segundo o cientista político Antônio Lavareda, ouvido pelo R7, o campo governista conseguiu reunir praticamente as principais forças partidárias da esquerda em torno de Lula. Para ele, a capacidade de articulação contrasta com o desempenho da oposição na construção de alianças nacionais.
Flávio terá Alfredo Gaspar como vice
No campo bolsonarista, Flávio Bolsonaro oficializou Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente. O deputado federal por Alagoas foi escolhido às vésperas do encerramento das convenções e passou a integrar oficialmente a chapa presidencial do PL.
A escolha tem peso regional para a campanha. Gaspar é alagoano e possui trajetória ligada à segurança pública e ao Ministério Público antes de chegar à Câmara dos Deputados.
A dupla, entretanto, não representa uma aliança entre partidos diferentes: presidente e vice pertencem ao PL.
Por que a oposição não conseguiu ampliar as alianças?
Na avaliação de Antônio Lavareda, a dificuldade de Flávio Bolsonaro em atrair outras legendas está relacionada à percepção de incerteza sobre o desempenho eleitoral da candidatura.
O cientista político avalia que partidos que poderiam compor com o candidato do PL optaram por manter maior liberdade para disputar as eleições proporcionais e estaduais.
“O que precisa ser explicado é por que não houve processo semelhante no campo da direita”, afirmou Lavareda ao R7, ao analisar a ausência de alianças partidárias mais amplas em torno da candidatura de Flávio.
Para o especialista, as dificuldades enfrentadas pelo senador ao longo do ano teriam aumentado a cautela de outras siglas, que passaram a priorizar estratégias próprias.
Centrão mira o Congresso
Outro fator apontado por Lavareda é o comportamento dos partidos do chamado Centrão.
Em vez de necessariamente aderirem a uma candidatura presidencial, essas legendas estariam concentrando esforços na eleição de deputados federais. A estratégia busca fortalecer as bancadas no Congresso Nacional, o que pode garantir maior influência política no próximo governo, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.
O raciocínio envolve também os recursos e o poder institucional vinculados ao tamanho das bancadas, incluindo participação no fundo partidário e no fundo eleitoral, além do peso nas negociações por espaços no governo.
Esse movimento ajuda a explicar por que partidos de centro optaram, em alguns casos, por preservar independência na disputa presidencial.
Cenário é diferente do de 2022
A comparação com a eleição anterior também ajuda a entender a mudança.
Em 2022, Jair Bolsonaro, então presidente e candidato à reeleição pelo PL, conseguiu reunir partidos como Republicanos e Progressistas em sua coligação presidencial.
Para Lavareda, a condição de presidente em exercício — o chamado incumbente — oferecia a Bolsonaro maior capacidade de atração política.
Agora, Flávio Bolsonaro disputa a Presidência como desafiante e não dispõe da mesma estrutura de poder de quem ocupa o Palácio do Planalto.
Outras chapas também são “puro-sangue”
A ausência de alianças partidárias não é exclusiva de Flávio Bolsonaro.
De acordo com o levantamento baseado nos registros do DivulgaCand, outras candidaturas também apresentam presidente e vice da mesma legenda.
É o caso, por exemplo, de Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab, ambos do PSD, e de Romeu Zema e Eduardo Girão, ambos do Novo.
A diferença é que, entre as 11 chapas oficializadas no levantamento citado pelo R7, somente Lula e Alckmin representam partidos diferentes.
Disputa entra em nova fase
Com as convenções partidárias encerradas, as candidaturas entram agora em uma nova etapa. A definição dos vices encerra uma fase importante das articulações nacionais e deixa mais claro o desenho das principais chapas que disputarão o Palácio do Planalto.
O cenário atual aponta para uma eleição marcada por forte polarização, mas também por uma particularidade: enquanto Lula conseguiu preservar uma composição entre PT e PSB, os demais principais candidatos chegam ao pleito com chapas formadas exclusivamente por integrantes de suas próprias legendas.
A estratégia, porém, ainda pode sofrer ajustes durante a campanha, principalmente diante das negociações regionais e da disputa pelas bancadas da Câmara e do Senado.
