Os rebeldes Houthis, do Iêmen, afirmam ter atacado oito petroleiros ligados à Arábia Saudita desde o início do bloqueio marítimo anunciado pelo grupo contra embarcações sauditas no Mar Vermelho. A ofensiva ocorre em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e já provoca mudanças nas rotas de navegação e preocupações com o fornecimento internacional de petróleo.

O grupo, apoiado pelo Irã, declarou o bloqueio marítimo em 20 de julho e passou a ameaçar embarcações associadas à Arábia Saudita. Segundo análises de segurança e do setor marítimo, a estratégia busca pressionar Riad a interromper suas operações militares contra os Houthis e aceitar as exigências do grupo.

As informações sobre os oito petroleiros partem dos próprios Houthis e, por isso, não há confirmação independente de que todas as embarcações tenham sido atingidas. O cenário é agravado pelo fato de diversos navios estarem desligando seus sistemas de rastreamento para reduzir o risco de serem identificados.

Petroleiros passaram a navegar com rastreamento desligado

A ameaça levou parte das empresas de transporte marítimo a adotar medidas para reduzir a exposição das embarcações.

Segundo a Reuters, exportações de petróleo sauditas pelo porto de Yanbu passaram a ficar mais difíceis de acompanhar porque petroleiros estão desligando os transponders de identificação automática (AIS) durante operações de carregamento. Analistas apontam que praticamente todos os carregamentos recentes identificados em Yanbu foram realizados com as embarcações operando “no escuro”.

A situação dificulta o cálculo preciso do impacto do bloqueio sobre as exportações sauditas.

Dados da Lloyd's List Intelligence indicaram que o tráfego pelo estreito de Bab el-Mandeb caiu e permaneceu abaixo dos níveis considerados normais. Entre 3 e 9 de agosto, foram registrados 200 trânsitos rastreáveis, contra 226 na semana anterior.

Houthis ampliam ataques contra infraestrutura de petróleo

A ofensiva não está restrita aos navios.

Nas últimas semanas, os Houthis também reivindicaram ataques contra instalações de petróleo em território saudita. Em 13 de agosto, o grupo afirmou ter atingido com dois drones uma refinaria da Saudi Aramco em Jazan, no sudoeste da Arábia Saudita.

A informação foi divulgada pela agência Saba, ligada aos Houthis. Na ocasião, autoridades sauditas não haviam apresentado uma confirmação imediata sobre o ataque.

O grupo afirma que as ações são uma resposta às operações sauditas no Iêmen e às medidas que considera um bloqueio contra áreas sob seu controle.

Analistas, porém, avaliam que a ofensiva também tem um objetivo político: aumentar os custos econômicos e militares para a Arábia Saudita e pressionar o governo saudita por uma negociação.

Rota estratégica para o comércio mundial

O conflito tem impacto que ultrapassa as fronteiras do Iêmen e da Arábia Saudita.

O estreito de Bab el-Mandeb, entre o Iêmen e o Chifre da África, é uma das principais passagens marítimas do mundo e conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Qualquer redução significativa no tráfego pode obrigar navios a utilizar rotas mais longas, aumentando custos de transporte, seguro e combustível.

A movimentação também acontece simultaneamente a restrições no Estreito de Ormuz, outra rota fundamental para o comércio mundial de petróleo e gás.

Dados de rastreamento citados pela Reuters mostraram que o tráfego de navios de commodities pelo Bab el-Mandeb caiu para 49 passagens no fim de semana analisado, ante 55 na semana anterior. Não foram registrados, nos dados disponíveis, carregamentos de petróleo saudita rastreados durante aquele período.

Petróleo sente os efeitos da tensão

A escalada já influencia o mercado internacional de energia.

As preocupações com interrupções no fornecimento ajudaram a sustentar as cotações do petróleo em agosto. Em 12 de agosto, o Brent chegou a subir para cerca de US$ 89,63 por barril, enquanto o WTI avançava para aproximadamente US$ 83,91.

Dias depois, os preços recuaram diante de outros fatores, como perspectivas de demanda e aumento dos estoques nos Estados Unidos. Ainda assim, analistas continuam acompanhando os riscos relacionados às rotas marítimas do Oriente Médio.

A possibilidade de interrupções prolongadas preocupa especialmente porque o mercado já enfrenta um cenário de maior instabilidade na região.

Portos também foram afetados

A escalada militar já atingiu diretamente a infraestrutura portuária do Iêmen.

O porto de Mocha, no Mar Vermelho, suspendeu operações comerciais e marítimas depois de ser atingido por mais de 25 mísseis em ataques atribuídos aos Houthis, segundo informações divulgadas pela Reuters. O diretor do porto afirmou que sete pessoas morreram e que os prejuízos foram estimados em cerca de US$ 16 milhões.

Os Houthis afirmaram que seus ataques tinham como alvo uma concentração militar de forças apoiadas pela Arábia Saudita.

Arábia Saudita busca reforçar segurança marítima

Diante da escalada, a Arábia Saudita vem trabalhando para ampliar a segurança de suas rotas marítimas.

Análises recentes apontam que Riad busca organizar uma coalizão marítima multinacional para garantir a passagem de navios pelo Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, os Houthis ameaçam ampliar os ataques contra instalações petrolíferas sauditas caso suas exigências não sejam atendidas.

A situação aumenta o risco de uma nova escalada militar no Iêmen, onde os combates de grande intensidade haviam diminuído após a trégua negociada pela ONU em 2022, embora um acordo político definitivo nunca tenha sido alcançado.

O que isso significa para o Brasil e para Alagoas?

Embora os ataques estejam concentrados no Oriente Médio, seus efeitos podem chegar a mercados e consumidores de outros países.

Uma eventual interrupção prolongada das rotas de petróleo pode elevar custos internacionais de transporte e pressionar os preços dos combustíveis. No Brasil, mudanças na cotação internacional do petróleo podem repercutir sobre toda a cadeia de energia e logística.

Para Alagoas, o impacto tende a ser principalmente indireto, por meio dos preços dos combustíveis, transporte de mercadorias e custos logísticos.

O Estado possui uma economia fortemente ligada ao transporte rodoviário e à atividade portuária, além de depender de combustíveis para setores como agricultura, comércio, serviços e turismo. Uma alta internacional prolongada do petróleo pode aumentar custos em diferentes segmentos da economia alagoana.

No entanto, não há indicação de que o bloqueio dos Houthis esteja provocando, neste momento, uma interrupção direta no abastecimento de combustíveis em Alagoas.

Cenário permanece incerto

A principal dificuldade para medir a dimensão do bloqueio é a falta de informações completas sobre o tráfego marítimo. Com navios desligando os sistemas de localização, parte das movimentações deixa de aparecer nos dados públicos.

Além disso, muitas das informações sobre ataques contra petroleiros são divulgadas pelos próprios Houthis e não conseguem ser verificadas imediatamente por fontes independentes.

O que já está confirmado é que a tensão aumentou, navios estão alterando rotas ou reduzindo sua exposição e o mercado internacional passou a incorporar um risco maior de interrupções no fornecimento de petróleo.

Enquanto a diplomacia não consegue reduzir a escalada, o Mar Vermelho permanece como um dos principais pontos de atenção para o comércio mundial de energia.