Pacientes com hipertensão arterial pulmonar (HAP) poderão contribuir para uma discussão que pode mudar as opções de tratamento oferecidas pela rede pública de saúde. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) abriu consulta pública para avaliar a inclusão do sotatercepte no SUS.

A participação da sociedade pode ser feita até 17 de agosto de 2026. O medicamento está sendo analisado para adultos com hipertensão arterial pulmonar em classes funcionais III e IV, consideradas formas mais graves da doença, com risco intermediário a alto de morte e que já utilizam determinadas combinações de terapias.

A consulta pública faz parte do processo de avaliação da Conitec e permite que pacientes, familiares, profissionais de saúde e demais interessados apresentem experiências, informações e argumentos que possam contribuir para a decisão.

Medicamento já tem registro no Brasil

O sotatercepte é comercializado no país com o nome Winrevair e possui registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo a agência, o medicamento é indicado para adultos com hipertensão arterial pulmonar do Grupo 1 da Organização Mundial da Saúde (OMS), associado a outras terapias. O objetivo é aumentar a capacidade de exercício e retardar a progressão da doença.

O registro na Anvisa, entretanto, não significa que o medicamento já esteja disponível gratuitamente no SUS para essa indicação. Para isso, é necessário passar pelo processo de avaliação e incorporação conduzido pela Conitec.

Quem está no foco da avaliação?

A proposta em análise não contempla todos os pacientes com hipertensão pulmonar.

O foco é um grupo específico de adultos com HAP em classes funcionais III ou IV, com risco intermediário a alto de mortalidade e que já fazem tratamento com terapia dupla — quando há intolerância às prostaciclinas — ou terapia tripla.

Isso significa que a eventual incorporação do medicamento não representaria uma liberação geral para qualquer pessoa diagnosticada com pressão alta.

A hipertensão arterial pulmonar é diferente da hipertensão arterial sistêmica, conhecida popularmente como pressão alta. São doenças distintas e possuem tratamentos e acompanhamento específicos.

Como funciona a consulta pública?

A consulta pública é uma etapa de participação social utilizada pela Conitec antes da conclusão de processos de incorporação de tecnologias ao SUS.

O mecanismo permite que a população apresente informações, experiências e evidências relacionadas à doença e ao tratamento em análise. A Conitec informa que os temas avaliados passam por consulta pública, justamente para incorporar contribuições da sociedade ao processo de decisão.

No caso do sotatercepte, o período para participação vai até 17 de agosto.

O que muda se o medicamento for incorporado?

Caso a Conitec recomende a incorporação e a decisão seja posteriormente formalizada pelo Ministério da Saúde, o medicamento poderá passar a integrar as opções oferecidas pelo SUS para os pacientes que se enquadrarem nos critérios definidos.

A possível inclusão seria especialmente relevante para pessoas com doença avançada que não conseguem obter controle adequado apenas com os tratamentos atualmente disponíveis.

Mas é importante destacar: a consulta pública não significa que o sotatercepte já foi incorporado ao SUS. O processo ainda está em avaliação.

SUS já oferece tratamento para hipertensão pulmonar

O sistema público já possui medicamentos destinados ao tratamento da hipertensão pulmonar dentro de protocolos específicos.

O Ministério da Saúde mantém um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a doença, com orientações sobre diagnóstico, acompanhamento e tratamento.

Entre as terapias incorporadas ao SUS para determinados casos estão medicamentos como sildenafila, bosentana, ambrisentana e selexipague, conforme a indicação clínica e os critérios estabelecidos nos protocolos.

A possível entrada do sotatercepte ampliaria o arsenal terapêutico disponível para um grupo específico de pacientes.

Impacto para Alagoas

Para Alagoas, uma eventual incorporação poderá representar uma alternativa adicional para pacientes que dependem exclusivamente da rede pública e apresentam formas graves de hipertensão arterial pulmonar.

O impacto, porém, dependerá de como o medicamento será incorporado ao SUS, dos critérios de elegibilidade, do protocolo que venha a ser estabelecido e da organização da assistência especializada no estado.

A hipertensão pulmonar exige acompanhamento médico especializado e diagnóstico adequado. O próprio protocolo do Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico é complexo e envolve avaliação clínica, laboratorial e radiológica.

Na prática, pacientes alagoanos que eventualmente se enquadrem nos critérios de uma futura incorporação poderão ser beneficiados caso o tratamento passe a ser disponibilizado pela rede pública.

Repercussão entre pacientes

A abertura da consulta pública também mobiliza entidades ligadas a pessoas que convivem com hipertensão pulmonar.

O Instituto Unidos pela Vida, organização dedicada à causa da hipertensão pulmonar e fibrose cística, informou que a consulta sobre o sotatercepte está aberta até 17 de agosto e destacou a possibilidade de participação de pacientes e da comunidade médica.

A participação de quem convive diretamente com a doença é considerada relevante porque a Conitec também utiliza a chamada Perspectiva do Paciente para incorporar relatos de experiências relacionadas às tecnologias avaliadas.

Avaliação ainda não terminou

O sotatercepte foi analisado inicialmente pela Conitec em reunião realizada em 1º de julho de 2026. Na ocasião, a comissão avaliou a proposta para adultos com hipertensão arterial pulmonar em classes funcionais III e IV.

Agora, as contribuições recebidas na consulta pública serão consideradas dentro do processo de avaliação.

A decisão final sobre a incorporação ainda depende das etapas previstas no processo regulatório.

O que o paciente deve saber

Quem possui diagnóstico de hipertensão arterial pulmonar e acredita que pode se enquadrar nos critérios da avaliação deve conversar com o médico responsável pelo tratamento.

A participação na consulta pública não substitui atendimento médico nem significa que o paciente receberá o medicamento imediatamente.

Também não é recomendável interromper ou alterar qualquer tratamento por conta própria.