A discussão sobre saúde mental no ambiente de trabalho ganhou novo peso no Brasil após a entrada em vigor das mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os chamados riscos psicossociais no gerenciamento de segurança e saúde ocupacional. O assunto foi debatido nesta quinta (20) e sexta-feira (21) durante o seminário Entre a norma e o real: desafios e perspectivas do mundo do trabalho, realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

A mudança também tem reflexos diretos em Alagoas, onde os afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais vêm representando uma preocupação crescente para trabalhadores, empresas e para o sistema previdenciário.

Dados do Ministério da Previdência Social apontam que 3.606 benefícios por incapacidade temporária foram concedidos em Alagoas, em 2025, em razão de transtornos mentais e comportamentais. No Brasil, foram 546.254 benefícios, alta de 15,66% em comparação com 2024.

Os números contabilizam benefícios concedidos e não necessariamente pessoas diferentes, já que um mesmo trabalhador pode receber mais de um benefício ao longo do período.

O que muda com a NR-1

A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026. A norma determina que o gerenciamento de riscos ocupacionais considere também fatores psicossociais relacionados à organização e às condições de trabalho.

Na prática, situações como sobrecarga de trabalho, excesso de demandas, assédio, falta de suporte e problemas relacionados à organização do trabalho passaram a integrar de forma expressa o conjunto de fatores que devem ser avaliados dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais.

A proposta representa uma mudança de abordagem: a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho deixa de olhar apenas para riscos físicos, químicos ou biológicos e passa a considerar também fatores capazes de afetar a saúde psicológica dos trabalhadores.

Alagoas registra milhares de afastamentos

O cenário alagoano ajuda a dimensionar a importância do debate.

Em 2025, foram concedidos 3.606 benefícios por transtornos mentais e comportamentais no estado. O número é superior ao registrado em 2024, quando foram contabilizados cerca de 2,9 mil benefícios dessa natureza.

Entre os principais problemas relacionados aos afastamentos aparecem transtornos de ansiedade e episódios depressivos, seguindo uma tendência observada em todo o país.

No acumulado de 2021 a 2025, os dados da Previdência indicam 11.314 benefícios por transtornos mentais e comportamentais em Alagoas. O estado respondeu por aproximadamente 0,66% das concessões registradas no país nesse período.

Além dos afastamentos previdenciários, o próprio sistema público de saúde alagoano registra uma demanda expressiva relacionada à saúde mental. Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram 3.504 internações por transtornos mentais e comportamentais em 2025, reforçando a dimensão do problema para a rede de atenção à saúde.

Pressão, assédio e sobrecarga entram no radar

O Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu a prevenção dos riscos psicossociais como tema da Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (CANPAT) de 2026.

Segundo o governo federal, a iniciativa busca chamar atenção para o crescimento dos transtornos mentais relacionados ao trabalho e orientar empresas e trabalhadores sobre as novas exigências.

Entre os fatores que podem representar riscos psicossociais estão a sobrecarga, o assédio, a falta de apoio e determinadas formas de organização e gestão do trabalho. O objetivo da norma é identificar essas situações e estabelecer medidas de prevenção e controle.

Para os trabalhadores alagoanos, a mudança pode representar uma ampliação dos mecanismos de prevenção e identificação de situações que, anteriormente, muitas vezes eram tratadas apenas como problemas individuais.

Fiscalização enfrenta disputa judicial

Apesar de a nova redação da NR-1 já estar em vigor, a aplicação de multas e outras sanções relacionadas especificamente aos riscos psicossociais foi suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Segundo a Agência Brasil, o STF referendou por unanimidade a decisão do ministro André Mendonça que suspendeu as penalidades relacionadas à inclusão desses fatores nas regras de gerenciamento de riscos. A medida ocorre após decisões anteriores que também haviam interrompido temporariamente os efeitos da norma nesse ponto.

A suspensão não elimina a discussão sobre saúde mental no ambiente profissional. O debate envolve justamente a necessidade de definir como empresas, trabalhadores e órgãos de fiscalização deverão identificar e avaliar os riscos psicossociais de maneira objetiva.

Seminários ajudam a preparar empresas e gestores

Em Alagoas, iniciativas voltadas ao tema já vêm sendo realizadas. Em junho, o Sesc Alagoas, em parceria com o Sindicombustíveis Alagoas, promoveu o seminário Posto Seguro: preparando lideranças para a nova NR-1, em Maceió.

A programação foi direcionada a gestores e lideranças do setor de combustíveis e abordou justamente a atualização da norma, saúde mental e riscos psicossociais.

Também em 2025, a Secretaria de Estado da Saúde participou de um seminário sobre cuidados com a saúde no ambiente de trabalho. Na ocasião, representantes do governo estadual destacaram a necessidade de ampliar ações de prevenção e atenção à saúde mental dos servidores.

Números mostram impacto que vai além das empresas

Em âmbito nacional, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, contra 472.328 no ano anterior. Ansiedade e episódios depressivos estiveram entre os diagnósticos mais frequentes.

Os dados não permitem afirmar que todos os afastamentos tenham sido provocados pelo ambiente profissional. Ainda assim, o crescimento das concessões coloca em evidência a necessidade de investigar a relação entre saúde mental e organização do trabalho.

Para Alagoas, onde milhares de benefícios foram concedidos por transtornos mentais apenas em 2025, a discussão sobre prevenção ganha importância tanto para o setor privado quanto para o serviço público.

A mudança na NR-1, portanto, coloca empresas diante de uma nova responsabilidade: olhar para a saúde mental não apenas quando o trabalhador adoece, mas também identificar previamente condições de trabalho que possam contribuir para o adoecimento.