O avanço das apostas online deixou de ser tratado apenas como uma questão financeira e passou a ocupar espaço cada vez maior nas discussões sobre saúde mental no Brasil. O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou para até 100 mil teleatendimentos a pessoas que enfrentam problemas relacionados ao uso de bets e também a familiares afetados pela situação.
A ampliação ocorre após a alta procura pelo serviço, que começou a funcionar em março deste ano com uma média inicial de aproximadamente 600 atendimentos mensais. A assistência é realizada de forma remota, sigilosa e especializada e funciona como uma porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
A medida tem reflexos diretos para estados como Alagoas, onde usuários da rede pública também podem acessar o atendimento por meio do Meu SUS Digital, sem a necessidade de deslocamento até uma unidade especializada. O serviço ganha importância diante da dificuldade que muitas pessoas enfrentam para reconhecer o problema ou procurar ajuda presencialmente.
Alagoas também sente os efeitos da demanda por saúde mental
Na capital alagoana, a busca por atendimento psicológico já demonstra a dimensão da demanda por serviços digitais de saúde mental. A Teleterapia disponibilizada pela Secretaria Municipal de Saúde de Maceió registrou 331.961 atendimentos desde sua implantação, em 2025, sendo 116.676 somente entre janeiro e abril de 2026. O serviço integra a Rede de Atenção Psicossocial e amplia o acesso ao acompanhamento psicológico.
Embora os números da Teleterapia de Maceió não sejam específicos para problemas relacionados às bets, eles ajudam a dimensionar o papel que ferramentas digitais podem desempenhar no acesso à assistência psicológica na capital e no estado.
Em Alagoas, a rede pública também dispõe de serviços de atenção psicossocial e atendimento especializado. O Portal Alagoas Digital orienta que pessoas que necessitam de acompanhamento em saúde mental podem buscar os serviços da rede estadual, enquanto casos de urgência psiquiátrica contam com atendimento específico.
Mais de 1 milhão já pediram bloqueio de bets
A expansão do atendimento ocorre em um momento em que cresce também a procura por mecanismos para interromper o acesso às plataformas.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, mais de 1 milhão de pessoas solicitaram a autoexclusão do CPF de sites e aplicativos de apostas por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão. Desse total, 35% afirmaram ter recorrido ao bloqueio por terem perdido o controle sobre as apostas.
A ferramenta permite bloquear, de uma só vez, as contas existentes nas plataformas autorizadas, impedir a abertura de novas contas vinculadas ao CPF e interromper o recebimento de publicidade direcionada das empresas de apostas.
Os dados reforçam a preocupação das autoridades com o avanço do comportamento compulsivo. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, o Ministério da Saúde informou que os atendimentos de saúde mental relacionados à dependência em jogos online cresceram quase 140% em cinco anos.
Problema pode atingir saúde, família e orçamento
O próprio Ministério da Saúde passou a tratar os problemas associados às apostas como uma questão de saúde pública. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).
Entre os sinais que merecem atenção estão mudanças no sono, alimentação ou humor, dificuldade para interromper as apostas, ansiedade e irritabilidade quando a pessoa não está jogando, mentiras para familiares, sentimento de culpa, comprometimento das relações pessoais e profissionais e prejuízos ao orçamento familiar.
O impacto financeiro também entrou no centro do debate. Um levantamento do Procon-SP divulgado em fevereiro apontou que 39,7% dos apostadores entrevistados afirmaram ter se endividado depois de começar a utilizar plataformas de apostas online.
Outro estudo, divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), estimou que a inadimplência associada às bets teria retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026, além de apontar possível impacto sobre centenas de milhares de famílias. Os números, porém, foram contestados por entidades que representam o setor de apostas, que questionaram a metodologia utilizada.
Como funciona o atendimento
O acesso ao serviço especializado pode ser feito pelo Meu SUS Digital. O usuário deve entrar na plataforma com a conta gov.br, acessar a área de “Miniapps”, selecionar a opção “Problemas com jogos de apostas?” e responder ao autoteste.
A avaliação ajuda a identificar o nível de risco. Quando o resultado aponta risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o teleatendimento é realizado automaticamente. Nos demais casos, a plataforma apresenta orientações sobre os serviços disponíveis na Rede de Atenção Psicossocial.
O atendimento também pode envolver familiares e pessoas da rede de apoio. De acordo com o Ministério da Saúde, quem enfrenta problemas com apostas pode procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde. Quando houver necessidade de acompanhamento especializado, o paciente pode ser encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
Serviço chega em meio a campanha nacional
A ampliação dos teleatendimentos ocorre poucos dias após o Ministério da Saúde lançar a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online. A iniciativa começou a ser veiculada em televisão, rádio e redes sociais com orientações sobre os riscos do uso problemático das bets e os caminhos disponíveis para buscar ajuda.
A campanha chama atenção especialmente para o período de grandes eventos esportivos, quando a exposição às plataformas tende a aumentar. Segundo o governo federal, mecanismos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis podem estimular a permanência e a repetição das apostas.
Para Alagoas, a expansão representa mais uma alternativa de acesso à assistência em saúde mental, especialmente para quem enfrenta dificuldade de procurar atendimento presencial. A ausência de dados públicos específicos sobre quantos alagoanos já buscaram tratamento por dependência em bets, porém, mostra também a necessidade de ampliar o monitoramento do problema no estado.
O cenário nacional indica que a discussão sobre as apostas online já ultrapassou os limites do entretenimento e do endividamento. Agora, a preocupação também está dentro da rede pública de saúde — e o aumento da oferta de atendimento pelo SUS é uma resposta direta à procura crescente por ajuda.
