Mulheres que enfrentam situações de violência ou que convivem com a sobrecarga de cuidar de familiares com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras passaram a contar com uma nova alternativa de atendimento psicológico gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O Ministério da Saúde disponibilizou, desde a última segunda-feira (24), até 100 mil teleatendimentos mensais por meio do programa Acolhe Mais – Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres. O serviço funciona de forma remota e está disponível para mulheres de todo o Brasil, incluindo Alagoas.

A iniciativa busca ampliar o acesso à saúde mental para um público que, muitas vezes, encontra dificuldades para procurar atendimento presencial por falta de tempo, problemas de deslocamento ou pela própria situação de vulnerabilidade.

Como funciona o atendimento

O serviço pode ser acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital, utilizando a conta Gov.br.

Dentro da plataforma, a usuária deve acessar a opção “Miniapps” e selecionar “Acolhe Mais + – Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres”. Depois, será encaminhada para a plataforma da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), onde deverá preencher o cadastro e informar a situação em que se enquadra.

Não é necessário apresentar previamente documentos que comprovem a violência ou a condição de cuidadora para solicitar o atendimento.

Após o cadastro, a equipe entra em contato em até 24 horas para que a mulher escolha a data e o horário da consulta.

Os atendimentos são realizados por psicólogas capacitadas pelo Ministério da Saúde para trabalhar com escuta sensível e identificação de situações de risco.

Quem pode procurar o serviço

O atendimento é destinado a mulheres com 18 anos ou mais que estejam vivendo ou tenham vivido situações de violência física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral.

Também podem procurar o serviço mulheres que realizam trabalho de cuidado não remunerado de familiares com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.

Nesse grupo estão mães, tias, avós, irmãs e outras familiares que assumem parte significativa da rotina de cuidados.

A proposta considera que a sobrecarga pode afetar diretamente a saúde física e emocional de quem cuida.

Até dez sessões de acompanhamento

Nos casos relacionados à violência, o primeiro atendimento inclui uma avaliação dos possíveis riscos, da rede de apoio disponível e das principais necessidades da paciente.

Cada usuária poderá realizar até dez sessões, com possibilidade de início de um novo ciclo quando houver necessidade.

Ao final do acompanhamento, a mulher poderá ser encaminhada para continuidade do tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em outro serviço da rede pública de saúde.

Os atendimentos funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 14h.

O que muda para mulheres de Alagoas

A expansão nacional do serviço representa uma alternativa adicional para mulheres alagoanas que precisam de atendimento psicológico e enfrentam dificuldades para chegar presencialmente a uma unidade de saúde.

Em um estado com municípios de diferentes dimensões e regiões, a possibilidade de iniciar o acompanhamento por videochamada pode reduzir uma das barreiras enfrentadas por quem precisa percorrer longas distâncias ou não consegue se ausentar facilmente de casa.

O serviço federal, porém, não substitui a rede presencial do SUS em Alagoas. A proposta é que o atendimento remoto funcione como porta de entrada e, quando necessário, seja articulado com os serviços existentes no território.

Alagoas já possui atendimento especializado para vítimas de violência

No estado, mulheres e outras pessoas vítimas de violência sexual também podem buscar atendimento especializado no Hospital da Mulher Dr.ª Nise da Silveira, em Maceió.

O hospital mantém o serviço de referência para atendimento a vítimas de violência sexual, com equipe multiprofissional formada por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e médicos.

O atendimento é gratuito, sigiloso e humanizado e pode incluir acompanhamento psicológico, assistência médica, exames, orientações e encaminhamentos. Não é necessário encaminhamento prévio para procurar o serviço.

A existência dessa rede presencial ganha importância porque situações de violência podem exigir atendimento médico, psicológico, social e de segurança de maneira integrada.

Aumento das notificações reforça preocupação

A ampliação do atendimento ocorre em um cenário de crescimento das notificações de violência contra mulheres registradas pelos serviços de saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, os registros de violência física, psicológica, sexual ou financeira contra mulheres passaram de 167,4 mil em 2015 para 348,5 mil em 2025, aumento superior a 100% em uma década.

Para o governo federal, os números reforçam a necessidade de ampliar não apenas a proteção física, mas também o atendimento psicológico e o acompanhamento das vítimas.

Atendimento remoto não substitui emergência

O teleatendimento é voltado ao acolhimento e acompanhamento em saúde mental e não substitui serviços de emergência.

Em situações de risco imediato, a orientação é procurar atendimento emergencial. A Polícia Militar pode ser acionada pelo 190, enquanto o Samu atende pelo 192.

Mulheres que precisam de orientação, informações sobre direitos ou ajuda para encontrar serviços da rede de atendimento também podem utilizar o Ligue 180, que funciona gratuitamente 24 horas por dia.

Mães atípicas também entram no programa

A inclusão das mães atípicas e de outras cuidadoras amplia o alcance da iniciativa.

A rotina de cuidado permanente pode envolver consultas, terapias, acompanhamento escolar, deslocamentos e outras responsabilidades, muitas vezes sem divisão adequada das tarefas.

Com o novo serviço, essas mulheres passam a ter uma alternativa para cuidar também da própria saúde mental sem necessariamente precisar interromper a rotina de cuidados para buscar atendimento presencial.

Para Alagoas, a medida pode funcionar como mais uma ferramenta de apoio à rede pública, especialmente para mulheres que vivem fora da capital ou que enfrentam dificuldades de deslocamento e acesso aos serviços especializados.

O programa, no entanto, não elimina a necessidade de fortalecer a rede presencial de saúde mental e de proteção às mulheres no estado. A expectativa é que os atendimentos remotos funcionem de forma integrada aos serviços municipais e estaduais, garantindo continuidade do cuidado sempre que necessário.