MACEIÓ – A implantação da tarifa zero no transporte público pode se tornar uma ferramenta importante para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde e reduzir desigualdades sociais históricas. A conclusão é de um estudo divulgado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), que analisou os impactos da mobilidade urbana sobre a vida de pessoas que dependem diariamente de ônibus para trabalhar, estudar e buscar atendimento médico.

Embora a pesquisa tenha sido realizada em âmbito nacional, especialistas ouvidos pelo Alagoas Alerta avaliam que os resultados dialogam diretamente com a realidade de Alagoas, especialmente em Maceió e nos municípios da Região Metropolitana, onde milhares de pessoas enfrentam longos deslocamentos para acessar hospitais, unidades de saúde e serviços especializados.

Segundo os pesquisadores, o valor das passagens e a baixa qualidade do transporte coletivo são fatores que frequentemente levam pacientes a perder consultas, adiar exames ou interromper tratamentos. O estudo destaca ainda que os impactos são mais severos entre moradores das periferias, população negra e famílias de baixa renda.

Realidade conhecida em Alagoas

Em Alagoas, moradores de bairros periféricos da capital e de cidades vizinhas como Rio Largo, Marechal Deodoro e Messias frequentemente dependem de múltiplos deslocamentos para chegar a unidades de referência, como o Hospital Geral do Estado, o Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e centros especializados de atendimento.

Para pacientes com doenças crônicas, que precisam comparecer regularmente a consultas e sessões de tratamento, os custos acumulados do transporte podem representar uma barreira significativa.

"O transporte é parte do acesso à saúde. Quando uma pessoa deixa de fazer um exame porque não tem dinheiro para a passagem ou porque o ônibus demora demais, o problema deixa de ser apenas mobilidade e passa a ser uma questão de saúde pública", avalia o urbanista e pesquisador de mobilidade urbana Carlos Menezes.

Tarifa Zero ganha espaço no debate nacional

O estudo defende que a chamada Tarifa Zero Universal — modelo em que o usuário não paga passagem para utilizar o transporte público — pode funcionar como uma política de distribuição de renda semelhante ao impacto gerado por grandes programas sociais. Pesquisas anteriores do mesmo grupo apontam que a gratuidade nos sistemas urbanos das capitais brasileiras poderia injetar mais de R$ 45 bilhões anuais na economia nacional, ao transferir para o consumo das famílias recursos hoje gastos com passagens.

Os autores argumentam que a medida não deve ser vista apenas como política de transporte, mas como uma ferramenta de combate às desigualdades e de ampliação do acesso a direitos básicos, incluindo saúde, educação, cultura e trabalho.

Debate pode chegar a Alagoas

Nos últimos anos, a discussão sobre modelos de gratuidade no transporte público tem avançado em diversas cidades brasileiras. Em Alagoas, especialistas acreditam que o tema tende a ganhar força diante das dificuldades enfrentadas por usuários do sistema metropolitano.

Para entidades ligadas à mobilidade urbana, a adoção de programas de gratuidade total ou parcial poderia beneficiar principalmente trabalhadores informais, desempregados, idosos e pacientes que realizam tratamento contínuo pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A discussão, no entanto, esbarra em questões relacionadas ao financiamento da medida e à necessidade de garantir qualidade, frequência e ampliação da frota para evitar superlotação.

Impactos vão além da saúde

Além do acesso a consultas e tratamentos, o estudo aponta que a mobilidade influencia diretamente oportunidades de emprego, educação e participação social. Em outras palavras, quando o transporte deixa de ser uma barreira econômica, a população passa a circular mais pela cidade e a acessar serviços antes considerados distantes ou inviáveis.

Para pesquisadores, a política de tarifa zero tem potencial para transformar a relação dos brasileiros com o transporte coletivo da mesma forma que o SUS transformou o acesso à saúde pública nas últimas décadas.

Repercussão

Nas redes sociais, a divulgação do estudo reacendeu o debate sobre mobilidade urbana e direito à cidade. Defensores da proposta afirmam que o transporte gratuito pode reduzir desigualdades históricas e fortalecer o acesso da população aos serviços públicos. Já críticos alertam para a necessidade de discutir fontes sustentáveis de financiamento e mecanismos que garantam a qualidade do sistema.

Em Alagoas, onde grande parte da população depende do transporte coletivo para acessar serviços concentrados na capital, o tema deve permanecer no centro das discussões sobre mobilidade, desenvolvimento urbano e inclusão social.