A conquista do direito ao voto pelas mulheres brasileiras completa 94 anos em 2026, mas a trajetória até a participação feminina nas eleições foi marcada por resistência, restrições e décadas de mobilização.

O direito foi reconhecido nacionalmente em 24 de fevereiro de 1932, com a publicação do primeiro Código Eleitoral brasileiro. A norma estabeleceu que eram eleitores os cidadãos maiores de 21 anos, sem distinção de sexo, permitindo às mulheres não apenas votar, mas também disputar eleições.

A mudança, entretanto, não significou igualdade imediata. Inicialmente, havia diferenças nas regras aplicadas a homens e mulheres. O voto feminino, por exemplo, era facultativo para mulheres que não exerciam funções remuneradas. A igualdade nas regras de alistamento eleitoral só avançou posteriormente, com a Constituição de 1946.

Uma conquista construída contra resistências

Pesquisadoras ouvidas pela Agência Brasil apontam que os discursos contrários à participação política feminina não são fenômenos recentes. Ao longo da história brasileira, argumentos baseados em concepções machistas e patriarcais foram utilizados para questionar a capacidade das mulheres de participar das decisões políticas.

A professora de Direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), avalia que a conquista do sufrágio feminino foi resultado de mobilização e enfrentamento à resistência social e institucional.

A análise histórica também mostra que a linguagem utilizada nos debates mudou ao longo das décadas, mas determinadas formas de resistência à presença das mulheres na política permaneceram.

Mulheres já votavam antes de 1932 em alguns locais

Embora 1932 seja considerado o marco nacional, a participação feminina nas eleições começou antes em algumas partes do país.

O Rio Grande do Norte foi pioneiro. Uma lei estadual aprovada em 1927 eliminou a distinção de sexo para o exercício do voto no estado. No ano seguinte, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN), tornando-se a primeira mulher a ocupar uma prefeitura no Brasil.

O movimento nacional, porém, só ganhou respaldo jurídico em todo o território brasileiro com o Código Eleitoral de 1932.

Primeira eleição após a conquista teve poucas mulheres eleitas

A possibilidade de votar e ser votada não se traduziu imediatamente em representação feminina nos espaços de poder.

Nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte de 1933, apenas uma mulher foi eleita entre os deputados pelo voto popular: Carlota Pereira de Queiroz, por São Paulo.

Outra personagem importante da luta pelo sufrágio, Bertha Lutz, ficou como primeira suplente pelo Distrito Federal. Almerinda Gama também participou da Constituinte como representante classista.

O episódio evidencia uma diferença que permanece no debate político brasileiro: conquistar o direito de participar das eleições não significa, automaticamente, alcançar representação proporcional nos cargos eletivos.

Mulheres são maioria entre os eleitores em 2026

Quase um século depois da conquista, o cenário eleitoral brasileiro é muito diferente.

Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro. Em janeiro de 2026, eram 82.362.730 eleitoras aptas a votar, de um total de 155.817.369 eleitores cadastrados.

O número dá dimensão do peso feminino nas eleições gerais deste ano.

Na prática, mais da metade do eleitorado brasileiro é formada por mulheres, o que torna a participação feminina um dos componentes centrais do processo eleitoral.

O desafio agora é ocupar os espaços de poder

Se o direito ao voto foi uma das principais conquistas políticas das mulheres no século XX, a ampliação da presença feminina nos cargos eletivos permanece como um dos desafios da democracia brasileira.

A própria história eleitoral mostra essa diferença. O TSE registra que, mesmo após a conquista do sufrágio, a representação feminina no Congresso permaneceu reduzida durante décadas.

Em 2026, o debate também envolve a necessidade de garantir condições para que mulheres possam participar da política em diferentes níveis, seja como eleitoras, candidatas, dirigentes partidárias ou ocupantes de cargos públicos.

E o peso das eleitoras de Alagoas?

Em Alagoas, assim como no restante do país, o eleitorado feminino tem importância direta no resultado das eleições.

O estado participa das eleições gerais de 2026 com votação para presidente da República, governador, duas vagas ao Senado, deputados federais e deputados estaduais.

Isso significa que as eleitoras alagoanas terão participação na escolha de representantes para diferentes níveis de poder.

Além do peso numérico nas urnas, a discussão sobre participação feminina também envolve a presença de mulheres como candidatas e nos espaços de decisão política.

Direito conquistado precisa ser preservado

A história do voto feminino mostra que a participação das mulheres na democracia brasileira não ocorreu de forma automática.

Foram décadas de mobilização até que o Estado reconhecesse formalmente o direito feminino de votar e ser votado. Mesmo depois da conquista, as mulheres enfrentaram restrições e permaneceram sub-representadas em cargos políticos.

Hoje, 94 anos depois do Código Eleitoral de 1932, as mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros e representam uma parcela decisiva do eleitorado.

O contraste entre a trajetória histórica e o cenário atual ajuda a explicar por que a participação feminina continua sendo um tema importante para a democracia: da luta pelo direito de votar à busca por maior presença nos espaços de poder, a história das mulheres na política brasileira ainda está em construção.