Um novo levantamento acende um alerta para a saúde pública brasileira e ganha contornos ainda mais preocupantes quando os dados são observados a partir da realidade de Alagoas.
Pesquisa realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados mostra que os brasileiros de 16 a 24 anos apresentam a maior proporção de fumantes entre todas as faixas etárias. Nesse grupo, 19% dos entrevistados afirmaram ser fumantes ativos, considerando cigarros convencionais ou eletrônicos. A média nacional foi de 17%.
O levantamento ouviu 2.015 pessoas com 16 anos ou mais, nas 27 unidades da Federação, entre os dias 25 e 30 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Mas, em Alagoas, o problema começa ainda mais cedo.
Uso de vape mais que dobrou entre adolescentes alagoanos
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo IBGE, mostram que a presença do cigarro eletrônico entre adolescentes de 13 a 17 anos avançou de forma expressiva no estado.
O alerta nacional sobre o crescimento do tabagismo entre os jovens ganha uma dimensão ainda mais preocupante em Alagoas quando os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) são analisados separadamente.
Segundo dados da PeNSE 2024, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de estudantes brasileiros de 13 a 17 anos que já haviam experimentado cigarro eletrônico chegou a 29,6%, contra 16,8% em 2019. O indicador considera a experimentação do produto, e não significa que todos esses adolescentes sejam usuários frequentes ou dependentes de nicotina.
No caso de Alagoas, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), com base nos dados da PeNSE, informou crescimento expressivo do indicador no estado: de 10,7% em 2019 para 24,7% em 2024.
Isso representa um aumento de 14 pontos percentuais no período e uma elevação relativa de aproximadamente 131%.
O que esse número significa — e o que ele não significa
É importante fazer uma distinção.
Os 24,7% de Alagoas não significam que quase um quarto dos adolescentes alagoanos seja fumante habitual. O indicador está relacionado ao contato com o cigarro eletrônico entre estudantes e deve ser interpretado dentro da metodologia da PeNSE.
Da mesma forma, o dado nacional de 19% de fumantes entre brasileiros de 16 a 24 anos, divulgado pela pesquisa A.C.Camargo Cancer Center/Nexus, utiliza outra metodologia e outra população pesquisada.
Os dois números, portanto, não podem ser somados ou comparados diretamente.
O que eles mostram, em conjunto, é uma tendência que merece atenção: a exposição dos jovens aos produtos de nicotina continua sendo um problema relevante de saúde pública, enquanto o cigarro eletrônico ganhou espaço entre adolescentes.
Crescimento nacional também chegou ao Nordeste
A PeNSE 2024 mostra que a experimentação do cigarro eletrônico aumentou em todas as Grandes Regiões do país.
No Nordeste, 22,5% dos estudantes de 13 a 17 anos haviam experimentado o produto, percentual inferior à média nacional de 29,6%, mas ainda bastante superior ao registrado em 2019.
É justamente nesse contexto que o dado alagoano merece atenção: o crescimento registrado no estado foi expressivo ao longo do período analisado.
Fiscalização já apreendeu centenas de cigarros eletrônicos em Maceió
O avanço do produto entre jovens também ocorre em meio a ações de fiscalização no estado.
Em agosto de 2025, uma operação conjunta envolvendo Anvisa, Vigilância Sanitária Estadual e Municipal, Procon, Polícia Civil de Alagoas e Guarda Municipal de Maceió apreendeu mais de 670 caixas de cigarros eletrônicos em estabelecimentos comerciais no Centro da capital.
A ação demonstra que o problema não está restrito ao comportamento individual dos adolescentes. Existe também uma frente de enfrentamento relacionada à comercialização e circulação irregular dos dispositivos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária mantém proibida no país a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar.
Por que os adolescentes são o principal alvo da preocupação?
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca que o uso dos dispositivos eletrônicos para fumar está especialmente concentrado entre os mais jovens. Dados nacionais apontados pelo instituto mostram maior prevalência de uso na faixa de 15 a 24 anos, justamente o grupo que concentra parcela importante dos consumidores desses produtos.
A preocupação está relacionada principalmente à nicotina, substância capaz de provocar dependência.
Além disso, o cigarro eletrônico não deve ser tratado como produto inofensivo ou simplesmente como uma alternativa ao cigarro convencional. O INCA ressalta os riscos associados aos dispositivos e defende o fortalecimento das políticas de prevenção e controle do tabaco.
O desafio para Alagoas
Os números colocam as escolas, famílias e autoridades alagoanas diante de um desafio que mudou de formato.
Durante décadas, as campanhas de prevenção ao tabagismo tiveram como principal alvo o cigarro convencional. Agora, a estratégia precisa alcançar produtos com forte apelo entre adolescentes e que podem apresentar diferentes formatos, sabores e dispositivos.
Para o estado, isso significa combinar educação em saúde, fiscalização, prevenção, acompanhamento de adolescentes e tratamento da dependência de nicotina.
A própria Sesau mantém ações de controle do tabagismo e uma rede de atendimento para pessoas que desejam abandonar o consumo de produtos derivados do tabaco.
Um alerta que começa antes dos 18 anos
O dado mais relevante para Alagoas talvez não seja simplesmente o percentual de jovens que fuma hoje, mas o fato de que o contato com produtos de nicotina está acontecendo durante a adolescência.
A PeNSE é uma pesquisa voltada justamente para compreender fatores de risco e proteção à saúde dos escolares. Na edição de 2024, o IBGE identificou que a experimentação do cigarro eletrônico no Brasil passou de 16,8% para 29,6% entre 2019 e 2024.
Em Alagoas, a evolução apontada pela Sesau — de 10,7% para 24,7% — reforça a necessidade de olhar para o problema de maneira específica.
Não se trata de dizer que 24,7% dos adolescentes alagoanos são fumantes. Trata-se de reconhecer que houve um aumento expressivo no contato dos estudantes com o cigarro eletrônico e que esse fenômeno precisa ser acompanhado pelas políticas públicas estaduais.
Alagoas Alerta
O cenário nacional serve como alerta, mas os números locais mostram por que o assunto precisa ser tratado também como uma questão de saúde pública em Alagoas.
O desafio agora é evitar que a experimentação na adolescência evolua para dependência e consumo prolongado de nicotina na vida adulta.
Para isso, a prevenção precisa chegar antes do primeiro contato, enquanto a fiscalização deve impedir que produtos cuja comercialização é proibida continuem chegando aos consumidores.
Em Alagoas, o salto de 10,7% para 24,7% no indicador relacionado ao cigarro eletrônico entre estudantes de 13 a 17 anos, apontado pela Sesau a partir da PeNSE, mostra que o problema merece atenção contínua de escolas, famílias, profissionais de saúde e órgãos de fiscalização.
