A demora para identificar a esclerose múltipla pode ter consequências importantes para os pacientes e dificultar o controle da doença. Um levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM), durante a campanha Agosto Laranja, mostra que 26,6% das pessoas entrevistadas levaram mais de cinco anos para receber o diagnóstico definitivo.
A pesquisa, realizada pela HSR Health em parceria com a Roche Farma, ouviu 368 pessoas em tratamento contra a doença no Brasil. Mais da metade, 56,8%, recebeu algum diagnóstico incorreto antes de descobrir que tinha esclerose múltipla. Em 14,1% dos casos, o intervalo entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença chegou a dez anos ou mais.
O alerta ganha importância em Alagoas, onde existe uma estrutura específica para o acompanhamento de pacientes com a doença pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Hospital Metropolitano de Alagoas (HMA), em Maceió, mantém um Ambulatório Estadual de Esclerose Múltipla, com atendimento especializado e acompanhamento multiprofissional. A Secretaria de Estado da Saúde também informa que os medicamentos indicados para os pacientes são disponibilizados por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf).
Por que o diagnóstico precoce é importante?
A esclerose múltipla é uma doença inflamatória e imunomediada que afeta o sistema nervoso central. O sistema imunológico passa a atacar estruturas que participam da proteção das fibras nervosas, comprometendo a comunicação entre o cérebro e outras partes do organismo.
Segundo especialistas ouvidos na repercussão da pesquisa, quanto mais tempo a doença permanece sem tratamento adequado, maior pode ser o risco de acumular danos neurológicos e desenvolver incapacidades permanentes. O neurologista Rodrigo Kleinpaul, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou a importância de identificar a doença rapidamente para reduzir o risco de progressão da incapacidade.
O diagnóstico não depende de um único exame. A avaliação médica considera o histórico do paciente, os sintomas e exames complementares, como ressonância magnética, punção lombar e exames de sangue, utilizados também para descartar outras doenças que podem apresentar manifestações semelhantes.
Sintomas podem ser confundidos com outras doenças
Um dos desafios é que a esclerose múltipla pode se manifestar de maneiras diferentes. Entre os sinais descritos pela Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas estão embaçamento da visão, visão dupla, alterações de força, perda de sensibilidade nos braços ou pernas e problemas de equilíbrio. Também podem ocorrer alterações no controle da urina e das fezes.
Por causa dessa variedade de sintomas, alguns pacientes passam inicialmente por diferentes profissionais e recebem diagnósticos que não correspondem à doença.
A pesquisa nacional reforça esse problema: 36% dos entrevistados apontaram médicos e outros profissionais de saúde como a principal barreira para chegar ao diagnóstico correto, enquanto 23% citaram dificuldades relacionadas à realização de exames e investigações.
Situação em Alagoas
A estrutura de atendimento estadual é um ponto importante para os pacientes alagoanos. O Ambulatório Estadual de Esclerose Múltipla foi criado no Hospital Metropolitano de Alagoas e funciona como referência para acompanhamento especializado.
Em levantamento divulgado anteriormente pela Sesau, a unidade informava atender pacientes já diagnosticados e também pessoas que estavam em investigação. O HMA conta ainda com equipe de neurologia e atendimento multiprofissional.
A Secretaria de Saúde também afirma que o tratamento da esclerose múltipla é oferecido pelo SUS em Alagoas. Os medicamentos de alto custo são disponibilizados por meio do Ceaf, conforme os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
Além da rede estadual, o Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA-Ufal), em Maceió, também oferece atendimento relacionado à esclerose múltipla no ambulatório de Neurologia.
Quem pode desenvolver a doença?
A esclerose múltipla costuma ser diagnosticada principalmente em adultos jovens e é mais frequente entre mulheres. O protocolo do Ministério da Saúde aponta que a doença ocorre geralmente entre os 20 e 50 anos, com pico por volta dos 30.
A origem da doença é considerada multifatorial. Fatores genéticos, ambientais e imunológicos estão relacionados ao seu desenvolvimento, mas não existe uma causa única capaz de explicar todos os casos.
Tratamento pode controlar a evolução
A esclerose múltipla não tem cura, mas existem tratamentos capazes de reduzir a atividade da doença, controlar surtos e diminuir o risco de novas manifestações.
O Ministério da Saúde possui um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico para a esclerose múltipla, atualizado em junho de 2025. O documento estabelece critérios para diagnóstico, tratamento, acompanhamento e uso de medicamentos no SUS.
O objetivo do tratamento é reduzir a inflamação e a ocorrência de surtos, além de preservar a capacidade funcional e a qualidade de vida do paciente. O acompanhamento deve ser individualizado e realizado por profissionais especializados.
Agosto Laranja reforça alerta
A campanha Agosto Laranja busca ampliar o conhecimento da população sobre a esclerose múltipla e chamar atenção para a importância de reconhecer os primeiros sinais da doença.
Em Maceió, a própria legislação municipal instituiu o Dia Municipal de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de agosto, com o objetivo de estimular ações de conscientização, diagnóstico precoce e tratamento adequado.
A Associação de Portadores de Esclerose Múltipla de Alagoas (APEMAL), integrante da rede de associações reconhecidas pela ABEM, também atua no apoio às pessoas que convivem com a doença no estado.
Atenção aos sinais
Especialistas reforçam que sintomas neurológicos persistentes ou que aparecem de forma inexplicada precisam ser avaliados por um profissional de saúde. Alterações na visão, formigamentos, perda de força, problemas de equilíbrio ou outros sintomas neurológicos não significam necessariamente esclerose múltipla, mas devem ser investigados.
Para os alagoanos, a existência de serviços especializados em Maceió representa uma porta de acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento pelo SUS. O desafio, apontado pela pesquisa nacional, continua sendo fazer com que o paciente chegue ao diagnóstico correto o mais cedo possível, reduzindo o risco de sequelas e permitindo o início adequado do tratamento.
