O Brasil apresentou avanços importantes em áreas como pobreza, emprego, renda e segurança alimentar, mas a melhora dos indicadores sociais ainda convive com uma forte concentração de riqueza. É o que mostra a edição de 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, divulgado nesta quarta-feira (12).
Dos 48 indicadores acompanhados pelo estudo, 71% apresentaram evolução positiva, enquanto 16% pioraram e 13% permaneceram estáveis. O resultado mostra uma melhora nas condições de vida de parte significativa da população, mas também revela que a desigualdade continua sendo um dos principais obstáculos para que esses avanços sejam distribuídos de maneira mais equilibrada.
Um dos dados que mais chama atenção é a concentração de renda: em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico da população foi 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres. Em 2024, essa relação era de 30,2 vezes.
Renda média aumentou, mas diferença entre grupos permanece
O rendimento médio real dos brasileiros chegou a R$ 3.376 em 2025, crescimento de 5,3% em relação ao ano anterior.
O problema é que o avanço não ocorreu de maneira uniforme.
A renda média dos homens cresceu 5,8%, enquanto a das mulheres aumentou 4,8%. Com isso, o rendimento feminino correspondeu a aproximadamente 72,2% do rendimento masculino.
A desigualdade é ainda mais evidente quando são considerados raça e gênero.
As mulheres negras apresentaram rendimento médio de R$ 2.184, valor 57,8% inferior ao dos homens não negros, que alcançaram R$ 5.172.
O levantamento aponta que as diferenças históricas de raça e gênero continuam influenciando diretamente o acesso à renda e às oportunidades no mercado de trabalho.
Pobreza cai e chega ao menor nível da série histórica
Apesar do cenário de concentração de renda, o país registrou uma melhora importante nos indicadores de pobreza.
Dados do IBGE mostram que, entre 2023 e 2024, a proporção de brasileiros em situação de pobreza caiu de 27,3% para 23,1%.
A extrema pobreza também recuou, passando de 4,4% para 3,5% da população.
Segundo o instituto, os dois indicadores chegaram em 2024 aos menores níveis da série histórica iniciada em 2012. Aproximadamente 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza e cerca de 1,9 milhão deixaram a extrema pobreza no período.
O resultado está entre os principais avanços apontados pelo Observatório.
Mas a redução da pobreza não significa que a desigualdade tenha sido resolvida.
O próprio relatório mostra que é possível haver melhora nas condições de vida da parcela mais pobre ao mesmo tempo em que a distância econômica em relação ao grupo mais rico permanece elevada — ou até aumenta.
E Alagoas nessa história?
Para Alagoas, os números nacionais precisam ser observados com atenção.
O Estado permanece inserido em uma região historicamente marcada por renda média menor, maior vulnerabilidade social e dificuldades no mercado de trabalho.
O IBGE aponta que o rendimento domiciliar per capita de Alagoas foi de R$ 1.331 em 2024, contra R$ 2.069 na média brasileira naquele ano. O valor alagoano equivalia a aproximadamente 64% da média nacional.
Na comparação regional, o Nordeste registrou rendimento domiciliar per capita de R$ 1.341 em 2024, bem abaixo da média nacional.
Os números ajudam a dimensionar o desafio: mesmo quando a pobreza diminui no país, estados com rendimentos médios mais baixos precisam avançar mais para reduzir a distância em relação às regiões mais ricas.
Mercado de trabalho ainda é um ponto de atenção em Alagoas
Outro dado importante para o Estado aparece na PNAD Contínua.
No primeiro trimestre de 2026, Alagoas registrou taxa de desocupação de 9,2%, uma das maiores do país. O índice ficou acima da média nacional, de 6,1%.
No quarto trimestre de 2025, a taxa alagoana havia sido de 8%, enquanto a taxa composta de subutilização da força de trabalho chegou a 25,1%.
Esse último indicador é especialmente importante porque não considera apenas quem está oficialmente desempregado. Ele também engloba trabalhadores que gostariam de trabalhar mais horas e pessoas que poderiam estar disponíveis para trabalhar, mas não estão procurando emprego nas condições consideradas pela pesquisa.
Na prática, isso significa que o desafio para Alagoas não é apenas gerar empregos, mas ampliar as oportunidades de trabalho com melhores condições e remuneração.
Rendimento do trabalhador alagoano também avançou
Há, porém, um dado positivo.
No segundo trimestre de 2025, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores de Alagoas chegou a R$ 2.530, crescimento de 13,4% em relação ao mesmo período de 2024.
No quarto trimestre, o valor estava em R$ 2.557, mas sem variação estatisticamente significativa em relação ao trimestre anterior e ao mesmo período de 2024.
Ou seja, houve melhora de renda em determinados períodos, mas o Estado ainda apresenta uma diferença expressiva quando comparado à média nacional.
Fome também recuou no Brasil
Outro avanço destacado pelo estudo está na segurança alimentar.
Entre 2023 e 2024, a parcela da população vivendo em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7%.
A redução foi associada à retomada de políticas públicas voltadas ao combate à fome e à melhoria das condições econômicas de parte das famílias.
Mas, novamente, a melhora não alcançou todos da mesma maneira.
A insegurança alimentar moderada ou grave atingiu 10% das mulheres negras, mais que o dobro do percentual registrado entre mulheres não negras, de 4,6%.
Entre os homens, os índices foram de 9,7% para negros e 4,7% para não negros.
O relatório relaciona essas diferenças a fatores como racismo estrutural, desigualdade territorial e acesso desigual às políticas públicas.
Nordeste continua enfrentando dificuldades
As diferenças regionais também aparecem nos dados sobre segurança alimentar.
Embora a situação tenha melhorado no país, o Nordeste continua apresentando desafios superiores aos de regiões mais desenvolvidas em diversos indicadores socioeconômicos.
Os dados mais recentes do IBGE mostram que o rendimento domiciliar per capita do Nordeste passou de R$ 1.341 em 2024 para R$ 1.484 em 2025.
O Brasil, no mesmo período, avançou de R$ 2.069 para R$ 2.316.
A diferença regional permanece, portanto, mesmo em um cenário de crescimento da renda.
Desigualdade não é apenas questão de dinheiro
O Observatório acompanha desigualdades em diversas áreas, entre elas:
- educação;
- saúde;
- renda e trabalho;
- segurança alimentar;
- segurança pública;
- representação política;
- clima e meio ambiente;
- acesso a serviços básicos;
- desigualdades urbanas.
Raça, gênero e diferenças entre regiões são analisadas transversalmente.
Isso permite identificar situações em que a renda melhora, mas outros obstáculos continuam impedindo que determinadas parcelas da população tenham as mesmas oportunidades.
Um exemplo está na educação
O estudo mostra que alguns indicadores permanecem praticamente estáveis, indicando que a melhora econômica não é suficiente para solucionar problemas estruturais.
A escolarização no ensino fundamental, o acesso à internet e a progressividade da tributação de renda aparecem entre os indicadores que exigem políticas públicas mais consistentes.
Para estados como Alagoas, essa constatação é relevante porque a redução sustentável da pobreza depende também da ampliação do acesso a educação, emprego qualificado, saúde e infraestrutura.
O que melhorou e o que piorou no Brasil
Indicadores que avançaram
- redução da pobreza;
- queda da extrema pobreza;
- aumento da renda média;
- redução do desemprego;
- diminuição da insegurança alimentar;
- queda de homicídios entre jovens;
- redução do desmatamento;
- melhora em alguns indicadores educacionais e sociais.
Problemas que continuam
- concentração de renda;
- desigualdades entre homens e mulheres;
- desigualdades raciais;
- diferenças entre regiões;
- população exposta a áreas de risco;
- mortalidade materna;
- dificuldades de acesso igualitário a direitos e serviços públicos.
O que o estudo representa para Alagoas
O retrato nacional tem uma leitura importante para o Estado.
Alagoas pode se beneficiar da melhora geral do emprego, da renda e da redução da pobreza, mas os próprios dados mostram que a distância histórica entre os estados do Nordeste e as regiões mais ricas ainda não desapareceu.
O rendimento domiciliar per capita alagoano de R$ 1.331 em 2024 ficou muito abaixo da média brasileira daquele ano, de R$ 2.069.
Além disso, a taxa de desocupação de Alagoas chegou a 9,2% no primeiro trimestre de 2026, mostrando que a geração de emprego continua sendo um dos principais desafios locais.
A situação exige atenção principalmente para políticas que consigam transformar crescimento econômico em emprego formal, aumento sustentável da renda e redução das diferenças sociais.
Repercussão
O relatório reforça uma discussão que vai além da disputa sobre se o Brasil está melhor ou pior.
Os dados mostram que as duas coisas podem acontecer simultaneamente: milhões de pessoas podem deixar a pobreza enquanto a concentração de renda continua elevada.
É justamente essa combinação que torna o cenário mais complexo.
Para Alagoas, a redução nacional da pobreza é uma notícia positiva, mas não elimina a necessidade de políticas voltadas às regiões que ainda apresentam renda mais baixa e maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
A avaliação do Observatório é que o Brasil avançou na ampliação das condições de vida, mas ainda precisa enfrentar as desigualdades estruturais relacionadas a renda, raça, gênero, território, moradia e acesso a direitos.
Os números que resumem o cenário
Indicador
Brasil
Indicadores que melhoraram
71% de 48
Rendimento médio real em 2025
R$ 3.376
Alta da renda média
5,3%
Renda do 1% mais rico em relação aos 50% mais pobres
31,5 vezes maior
Pobreza em 2024
23,1%
Extrema pobreza em 2024
3,5%
Insegurança alimentar moderada/grave
7,7% em 2024
Rendimento domiciliar per capita de Alagoas em 2024
R$ 1.331
Desocupação em Alagoas no 1º trimestre de 2026
9,2%
Em resumo
O Brasil conseguiu reduzir a pobreza, aumentar a renda média e melhorar diversos indicadores sociais, mas ainda não conseguiu distribuir esses avanços de forma homogênea.
A concentração de renda aumentou de 30,2 para 31,5 vezes na comparação entre 2024 e 2025 para a relação entre o rendimento do 1% mais rico e o dos 50% mais pobres.
Para Alagoas, o cenário deixa uma mensagem dupla: há avanços importantes, mas o Estado ainda precisa acelerar a geração de empregos e a elevação da renda para diminuir a distância em relação à média nacional.
