Uma pesquisa nacional divulgada nesta quarta-feira (12), Dia Internacional da Juventude, revela uma relação cada vez mais complexa dos adolescentes brasileiros com a internet. Embora o ambiente digital faça parte da rotina e seja associado principalmente à diversão, à felicidade e à curiosidade, metade dos entrevistados afirma passar mais tempo conectada do que gostaria.

O levantamento Adolescência Sem Filtro, realizado pelo Instituto Alana em parceria com a Agência Koga, ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos, de todas as regiões do país, entre 15 e 25 de junho. A margem de erro é de 4,39 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

O dado que mais chama atenção é que 71% dos jovens consideram que a internet deve continuar existindo, mas precisa melhorar. Outros 9% disseram que seria melhor se ela deixasse de existir.

A pesquisa revela, portanto, que os adolescentes não querem simplesmente abandonar o mundo digital. Eles querem mais controle, proteção e mudanças na maneira como as plataformas funcionam.

Dependência do celular preocupa os próprios jovens

O levantamento mostra que a preocupação não parte apenas de pais, professores ou especialistas.

Entre os entrevistados:

  • 50% dizem passar mais tempo na internet do que gostariam;
  • 41% afirmam estar mais dependentes do celular e da internet;
  • 39% acreditam ter perdido tempo de estudos por causa da rede;
  • 49% percebem redução da criatividade relacionada ao uso da internet;
  • 69% estão abertos a receber ajuda para lidar melhor com a dependência digital.

O tempo de conexão também é elevado. Segundo o estudo, quase 80% dos adolescentes passam mais de três horas por dia na internet. Mais de 22% ficam conectados entre cinco e seis horas, quase 11% entre sete e oito horas e 15% ultrapassam oito horas diárias.

Internet também é fonte de diversão e felicidade

Apesar das preocupações, os dados não apresentam a internet apenas como um problema.

A experiência digital continua sendo majoritariamente positiva para muitos adolescentes:

  • 71% dizem utilizar a internet para diversão;
  • 63% sentem felicidade quando estão conectados;
  • 55% associam o ambiente digital à curiosidade.

As redes sociais são a principal atividade online, citadas por 46% dos entrevistados. Outros usam a internet principalmente para conversar com familiares e amigos (37%), jogar (30%), estudar (23%) e assistir a vídeos (21%).

O levantamento, portanto, não sustenta a ideia de que a solução seria simplesmente afastar os jovens da tecnologia.

A questão apontada pelos próprios adolescentes é outra: como tornar o ambiente digital mais seguro e equilibrado sem retirar os benefícios que ele oferece.

Jovens cobram responsabilidade das plataformas

A pesquisa também revela uma cobrança direta sobre as empresas de tecnologia.

Quase metade dos entrevistados, 49%, considera que as próprias plataformas têm responsabilidade na construção de uma internet melhor.

Outros 43% defendem mais controle sobre as plataformas.

Ao mesmo tempo, os adolescentes já adotam algumas estratégias para tentar se proteger.

Entre as medidas citadas estão:

  • 44% bloqueiam contas ou conteúdos considerados nocivos;
  • 37% denunciam perfis ou conteúdos inadequados;
  • 32% fazem pausas ao longo do dia;
  • 26% desinstalam aplicativos;
  • 24% limitam o tempo de tela.

Apenas 12% disseram não adotar nenhuma dessas estratégias.

Um dado chama atenção: poucos acreditam que podem mudar a internet

Existe, porém, uma contradição importante.

Embora 71% defendam uma internet melhor, somente 19% acreditam que conseguem contribuir para promover essa mudança.

Para o Instituto Alana, essa diferença revela uma sensação de impotência entre os adolescentes e reforça a necessidade de incluir os próprios jovens nas discussões sobre regras, segurança e funcionamento das plataformas.

Essa participação ganha ainda mais importância porque os adolescentes são justamente os usuários que convivem diariamente com os efeitos dessas ferramentas.

E o que isso representa para Alagoas?

O problema apontado pela pesquisa nacional também está presente na realidade alagoana.

Embora o levantamento Adolescência Sem Filtro não apresente resultados específicos por estado, os dados mais recentes da TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, mostram que 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet.

No Nordeste, o índice também chega a 92%.

Isso significa que a discussão sobre tempo de tela, redes sociais, privacidade, cyberbullying, golpes, exposição a conteúdos inadequados e saúde digital alcança diretamente crianças e adolescentes nordestinos — incluindo os estudantes de Alagoas.

O cenário também mostra que o celular tem papel central nesse processo. Entre os usuários nordestinos de 9 a 17 anos, 53% acessam a internet pelo celular utilizando exclusivamente Wi-Fi, enquanto 42% combinam Wi-Fi e conexão móvel.

Na prática, para famílias alagoanas, a questão não está apenas dentro do computador de casa: o acesso acompanha o adolescente no bolso, na escola, no transporte e nos momentos de lazer.

Escola também entra no debate

O levantamento ganha importância para o ambiente escolar porque parte dos próprios adolescentes reconhece que o uso da internet pode interferir nos estudos.

Quase quatro em cada dez entrevistados afirmam ter perdido tempo de estudo por causa da internet.

O governo federal recomenda que as escolas estabeleçam regras para utilização de celulares e outros dispositivos, além de manter redes seguras e bloquear conteúdos inadequados. As orientações também destacam a necessidade de preservar a privacidade dos estudantes e evitar o uso indiscriminado de dados pessoais.

Para as escolas de Alagoas, o desafio é equilibrar duas necessidades: reduzir distrações e riscos sem transformar a tecnologia em inimiga do processo educacional.

A internet também pode ser ferramenta de pesquisa, aprendizagem, comunicação e produção de conhecimento.

ECA Digital já está em vigor

A pesquisa também chega em um momento de mudança na legislação brasileira.

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) entrou em vigor em 17 de março de 2026 e criou novas obrigações para plataformas digitais, com medidas voltadas à proteção de crianças e adolescentes.

Entre os mecanismos previstos estão aferição de idade, supervisão parental, proteção contra conteúdos inadequados e medidas para prevenir riscos no ambiente digital.

A legislação vale para serviços digitais destinados a crianças e adolescentes ou que possam ser acessados por esse público, incluindo redes sociais, jogos, aplicativos, plataformas de vídeo, lojas de aplicativos e sistemas operacionais.

ANPD já fiscaliza empresas

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) iniciou neste ano o monitoramento do cumprimento das novas regras.

Em junho, a agência começou a acompanhar lojas de aplicativos e sistemas operacionais, incluindo Apple, Google e Microsoft, verificando a implementação de mecanismos relacionados à aferição e aos sinais de idade.

A ANPD também criou um canal específico para denúncias relacionadas ao descumprimento do ECA Digital.

Entre as situações que podem ser denunciadas estão:

  • falta ou deficiência de mecanismos de verificação de idade;
  • ausência de ferramentas para limitar ou monitorar tempo de uso;
  • falhas na supervisão parental;
  • ausência de proteção adequada contra conteúdos impróprios;
  • falta de informações sobre riscos;
  • mecanismos que estimulem o uso compulsivo por crianças e adolescentes.

A agência prevê ampliar o monitoramento para outros setores a partir de agosto de 2026.

Redes sociais: problema ou oportunidade?

O estudo faz uma ressalva importante: não é possível tratar as redes sociais somente como vilãs.

É nesses ambientes que os adolescentes também encontram informação, amizades, entretenimento, aprendizado, curiosidade e sensação de pertencimento.

O problema está no equilíbrio.

O próprio levantamento mostra que diversão e felicidade estão entre as principais sensações associadas ao uso da internet, mas também registra cansaço, raiva e ansiedade entre os adolescentes.

Para famílias alagoanas, isso significa que conversar com crianças e adolescentes sobre internet não deve se limitar a dizer “largue o celular”.

É preciso discutir:

  • o que eles estão consumindo;
  • com quem estão conversando;
  • quanto tempo permanecem conectados;
  • quais dados pessoais compartilham;
  • como identificar golpes;
  • como denunciar conteúdos abusivos;
  • como lidar com cyberbullying;
  • quando procurar ajuda.

Adolescentes percebem melhora na relação com a internet

Apesar dos alertas, a pesquisa traz um dado positivo.

66% dos entrevistados dizem que sua relação com a internet melhorou nos últimos dois anos.

Além disso, 57% afirmam ter mais controle atualmente sobre o tempo de uso, enquanto 53% dizem valorizar mais momentos presenciais e offline.

O resultado coincide com um período de maior debate sobre segurança digital, incluindo a aprovação do ECA Digital e novas discussões sobre o uso de celulares nas escolas.

Ou seja, a percepção dos adolescentes não é apenas de piora.

Eles também identificam mudanças positivas na maneira como se relacionam com a tecnologia.

Prêmio incentiva jovens a criar soluções

Como parte da repercussão da pesquisa, o Instituto Alana lançou a nona edição do Prêmio Criativos, com o tema “A internet é nossa”.

A iniciativa convida estudantes de 10 a 18 anos a apresentar projetos para tornar a internet mais segura, inclusiva e acolhedora.

Os trabalhos podem abordar assuntos como:

  • tempo de tela;
  • cyberbullying;
  • saúde mental;
  • inteligência artificial;
  • desinformação;
  • desigualdade digital;
  • cultura dos influenciadores;
  • aprendizagem online;
  • participação dos jovens na construção do ambiente digital.

As inscrições estão abertas até 2 de setembro, e nove projetos poderão receber prêmios que chegam a R$ 12 mil.

A iniciativa pode ser especialmente interessante para estudantes alagoanos que desenvolvam projetos nas escolas sobre segurança e cidadania digital.

Repercussão: o jovem não quer sair da internet, quer ter mais controle

A principal conclusão do levantamento é que os adolescentes não rejeitam a internet.

Eles reconhecem seus benefícios, mas também percebem que existem problemas no ambiente digital e cobram mudanças.

O contraste entre os números resume o cenário:

71% querem uma internet melhor, mas somente 19% acreditam que podem ajudar a transformá-la.

Essa diferença coloca famílias, escolas, empresas de tecnologia e poder público diante de uma responsabilidade compartilhada.

Para Alagoas, o assunto deve ser tratado como uma questão de educação, proteção de crianças e adolescentes, saúde, segurança e cidadania digital.

Com a ampla presença da internet entre crianças e adolescentes no Nordeste e a entrada em vigor do ECA Digital, o debate tende a ficar cada vez mais presente nas escolas e dentro das famílias.

Os números que chamam atenção

Indicador

Resultado

Acham que a internet precisa melhorar

71%

Sentem felicidade ao se conectar

63%

Passam mais tempo online do que gostariam

50%

Sentem maior dependência do celular/internet

41%

Dizem ter perdido tempo de estudos

39%

Consideram as plataformas responsáveis por melhorar a internet

49%

Pedem mais controle das plataformas

43%

Bloqueiam conteúdos ou contas nocivas

44%

Fazem pausas durante o dia

32%

Estão abertos a receber ajuda

69%

Acreditam que podem ajudar a mudar a internet

19%

Acham que a internet deveria deixar de existir

9%

O que fica para Alagoas

A pesquisa não permite afirmar que esses percentuais sejam iguais entre adolescentes alagoanos, porque a amostra é nacional. Mas o cenário regional mostra que a internet já faz parte da vida da grande maioria das crianças e adolescentes do Nordeste.

Por isso, a discussão levantada pelo estudo também precisa chegar às escolas e às famílias de Alagoas.

A questão deixou de ser simplesmente “quanto tempo o adolescente fica no celular?”.

Agora, é preciso discutir qual conteúdo ele acessa, como as plataformas disputam sua atenção, como seus dados são tratados e quais ferramentas existem para que ele possa navegar com segurança.

E, talvez o mais importante: os próprios adolescentes estão pedindo para participar dessa conversa.